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segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Uma nova história

Reportagem publicada em 8 de novembro de 2009, a última de minha autoria na série especial do G1 sobre os 20 anos da queda do Muro de Berlim, escrita após duas boas e lognas entrevistas com pesquisadores da história do socialismo.

Duas décadas após queda do muro, comunismo se mantém vivo como utopia

Maior símbolo do fim da Guerra Fria e do conflito entre Estados Unidos e União Soviética, a queda do muro de Berlim já foi apontada por historiadores como o “fim da história”, um momento de triunfo incontestável do capitalismo. Vinte anos após o colapso do bloco soviético, entretanto, pesquisadores do socialismo apontam que a utopia continua viva e que há ao menos cinco países no mundo atual seguindo a cartilha do comunismo, ainda é vista como símbolo de esperança.

A queda do muro de Berlim foi um momento muito simbólico do fim do comunismo na Europa, mas não acabou com o comunismo no mundo, explicou o cientista político britânico Archie Brown, professor da Universidade de Oxford e autor de “Rise and Fall of communism” (‘Ascensão e queda do comunismo’, livro de quase 800 páginas que deve ser lançado em breve no Brasil). “Existem 5 países comunistas no mundo atual. China, Vietnã, Laos, Coreia do Norte e Cuba”, disse, em entrevista ao G1.

A manutenção dos sistemas ligados ao comunismo, entretanto, passou por diferentes processos de adaptação para sobreviver às duas últimas décadas. Enquanto os três primeiros países citados caminharam no sentido de ter uma economia de mercado, os outros dois se mantiveram fechados ao resto do planeta. “A China especificamente não pode mais ser considerada um pais comunista economicamente, mas politicamente, sim, pois ainda mantém o monopólio do poder sob o partido comunista, hierarquia e centralismo. O país mais stalinista e fechado é a Coreia do Norte.”

O motivo de o socialismo ter sobrevivido ao fim da União Soviética, que apoiava os regimes similares em vários países, é o desejo de buscar o “mundo perfeito”, a utopia, segundo o historiador Richard Pipes, autor de “O comunismo” e mais de 20 outros livros sobre história da Rússia e da união Soviética. Segundo ele, entretanto, a prática não consegue seguir o modelo sem restrição de liberdades, o que acaba fazendo o sistema não funcionar.

“O ideal socialista é utópico e sempre sobrevive, pois as pessoas gostam de acreditar que é possível. Não concordo que seja possível na prática, e por isso um sistema comunista sempre vai fracassar em algum momento. Os sistemas sobrevivem apenas com mão de ferro, retirando as liberdades e descobrimos que as pessoas sofrem dentro desses sistemas, o que tira a credibilidade”, explicou, em entrevista ao G1, reiterando que as pessoas gostam de acreditar que a utopia é possível. O mesmo ponto foi reforçado pelo pesquisador inglês, que argumenta que o socialismo continua existindo como ideologia da esperança.

Teoria e Prática
Sob o aspecto da adaptação dos regimes e da busca por esta utopia, Brown explicou que nunca houve na prática política um regime que seguisse as propostas comunistas conforme pensadas por Karl Marx e por Lênin. “Marx e Lênin detalharam muito pouco sobre o sistema político e as instituições que existiriam em um pais socialista, o que deixou muitas questões em aberto. Os países tiveram que desenvolver suas próprias instituições. Mesmo assim pelo que vimos nas tentativas comunistas na prática não pareciam nada com os ideais propostos originalmente.”

Nas entrevistas, os dois historiadores enfatizaram a importância de diferenciar os regimes ditatoriais comunistas e o socialismo dito “light”, suave, implementado em países da Europa por grupos da social-democracia.

“Precisamos diferenciar comunismo de socialismo, pois o segundo pode estar incluído em democracias, como a social-democracia, enquanto o primeiro, não. A Europa teve muitos governos social-democratas. No comunismo, não se permitem vozes contrárias ao regime”, disse Pipes.

Brown detalhou que o socialismo pode funcionar em algumas sociedades democráticas, desenvolvendo projetos de forma paralela e funcional. “No comunismo, não, a democracia não funcionaria, e sempre que se tentou adaptar isso, o regime caiu. O socialismo em social-democracias tem avançado até hoje na Europa, como aconteceu até na Espanha. São ideologias que têm menos intervenção estatal, mas buscam uma maior igualdade, e que podem ser consideradas exemplo de esperança”, disse.

Segundo Brown, o ponto mais alto do comunismo, entre a ascensão e a queda do bloco soviético, ocorreu logo antes do rompimento entre China e URSS, entre o fim dos anos 1950 e o começo dos 60. “Aquilo enfraqueceu o comunismo no mundo. Até o inicio dos anos 70, pode ser considerado o auge da União Soviética, pois tinha um poderia militar equivalente ao dos Estados Unidos, podendo destruir o capitalismo tanto quanto os EUA poderiam destruí-la. O problema é que era preciso que o regime destruísse a si mesmo, como aconteceu, e não adiantaria o governo do ocidente tentar derrotar o leste pela força.”

Chávez e Obama
Além dos cinco países citados como exemplos de comunismo no mundo atual, dois outros movimentos políticos recentes chamam a atenção dos pesquisadores. Por um lado, há o exemplo venezuelano, em que o presidente Hugo Chávez propõe a implementação do que chama de bolivarianismo, ou socialismo do século XXI. Por outro, nos Estados Unidos, nação símbolo da vitória do capitalismo, o presidente Barack Obama passou o primeiro ano do seu governo sendo atacado por setores mais conservadores da oposição republicana como se estivesse tentando implementar o socialismo no país.

Para Pipes, que pesquisou mais a fundo os exemplos de comunismo na Europa, o que Chávez está fazendo é implementar um regime socialista, comunista tradicional. “Não há nada de século XXI no que ele está fazendo e trata-se de um experimento que só funciona porque ele tem acesso a grandes quantidades de petróleo. Sim, é um regime de ideal comunista que se tenta implementar na Venezuela.” Ele ressaltou que as economias comunistas e socialistas normalmente não são muito funcionais, mas o venezuelano consegue manter o país por causa da receita gerada pelo “ouro negro”, que mantém a economia.

Quanto ao exemplo norte-americano, “é absurdo dizer que Obama é socialista”, disse o cientista político britânico. “Socialismo se tornou um xingamento dos conservadores norte-americanos, por isso ele é chamado dessa forma. Ele não é socialista por ter ajudado o capitalismo a se recuperar, foram essas ações que chamaram de socialista, mas é muito pelo contrário. É verdade que ele é um presidente mais à esquerda, mas não chega a ser socialista.”

Mais crítico, Pipes disse acreditar, sim, que o presidente dos Estados Unidos tem tendências socialistas, mas admitiu ser impossível implementar um projeto desse tipo no país. “Obama é um tanto socialista. Ele acredita que a igualdade social é mais importante de que a liberdade. É difícil provar isso, mas seus discursos e seu histórico devoto no senado indicam que ele provavelmente simpatiza com o socialismo. Ele não vai conseguir aprovar um programa socialista, entretanto, pois a sociedade não aceitaria, tanto que ele está perdendo apoio nos EUA.”

Continuação da história
A sobrevivência do socialismo e as mudanças no planeta nas últimas duas décadas se voltaram contra a tese do historiador Francis Fukuyama de que se havia chegado ao Fim da História com a queda do Muro de Berlim. Em entrevista ao G1, o pesquisador britânico Frederick Taylor, autor de “Muro de Berlim”, uma das obras mais completas sobre o assunto, defendeu a tese de Fukuyama de que a solução marxista fracassou, mas apontou os rumos para a “continuação da história”.

“A queda do muro representou a vitória do capitalismo, que parecia um triunfo final em que todo o mundo rumava na mesma direção. Não acho que isso seja mais verdade 20 anos após a queda do muro. Fukuyama estava certo, entretanto, ao dizer que o comunismo tinha perdido, e a solução marxista para o mundo havia fracassado, fazendo com que qualquer solução para o mundo precisasse vir da proposta capitalista. Não sei dizer se isso é verdade no longo termo. Ele ignorou o que a China mostrou recentemente, que é possível ter uma ditadura comunista ser bem sucedida como um país industrial capitalista. Isso é novo e único.”

Mesmo sem uma alternativa comunista e prática, os pesquisadores indicaram que os rumos do capitalismo também estão se transformando em várias partes do mundo. O sistema que “triunfou” há duas décadas passou por mais uma profunda crise nos últimos meses e mesmo não correndo risco de ser derrotado, está buscando uma face mais moderna e adaptada também à “esperança” de que tratava a utopia coumunista.

Daniel Buarque

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Sob o gelo

Reportagem publicada no G1 em 6 de novembro de 2009, parte da série especial sobre as duas décadas da queda do Muro de Berlim. Resultado de boas entrevistas com alguns dos mais relevantes pesquisadores do tema, que mostram que o fim da guerra fria também trouxe efeitos negativos.

Queda do Muro de Berlim trouxe desenvolvimento, mas também terrorismo

A Alemanha e o mundo estão em festa neste mês, comemorando o vigésimo aniversário da queda do Muro de Berlim. Apontado como o símbolo da repressão sofrida pela população sob o domínio soviético, o muro ruiu em 1989 como consequência da ação dos movimentos sociais.

Apesar de ser verdade que o mundo todo avançou de forma impressionante nas duas últimas décadas nas áreas política, econômica, social e tecnológica, o fim da separação das Alemanhas, símbolo do encerramento da Guerra Fria, também representou mudanças ruins para o planeta, dando margem ao surgimento de redes globais de terrorismo que, na época da Guerra Fria, seriam impensáveis.

Duas décadas já seriam suficientes para que o mundo tivesse passado por muitas mudanças desde a queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989. O que esse evento isolado significou, entretanto, foi que o planeta deixou de lado a polarização entre comunismo e capitalismo que vivia durante a Guerra Fria, esquecendo o risco eminente de destruição global por uma guerra nuclear e encarando uma nova realidade em que “tudo é possível”, segundo historiadores ouvidos pelo G1.

“A Guerra Fria era uma força muito conservadora para o mundo”, explicou, por telefone, o pesquisador britânico Frederick Taylor, autor de “Muro de Berlim”, uma das obras mais completas sobre o assunto. “Depois que o murou caiu, o ‘gelo derreteu’ revelando coisas belas, mas também carcaças monstruosas que estavam escondidas e existem claramente no mundo atual. O fim da Guerra Fria representou por um lado o surgimento de Nelson Mandela e o fim do apartheid na África do Sul, mas por outro lado fez surgir Osama bin Laden e a al-Qaeda.”

O terrorismo da al-Qaeda, de certa forma, explicou, é um reflexo do fim da Guerra Fria. “Durante o conflito entre capitalismo e comunismo, não haveria espaço para que nada deste tipo se espalhasse. As grandes potências da época controlariam o crescimento de qualquer movimento mais radical, que não chegaria à força de Bin Laden”, disse.

Segundo Taylor, durante a Guerra Fria, União Soviética e Estados Unidos se ameaçavam o tempo todo e tinham suas áreas de proteção geopolítica, mas os dois mantinham a ordem global, evitando a destruição mútua que sabiam ser possível, e deixando o mundo em uma certa ordem estabelecida. Atualmente, isso não existe mais, e qualquer coisa é possível. “Ninguém é capaz de controlar todo o mundo, e tudo pode acontecer. A queda do muro faz com que tudo seja possível, o bom e o ruim.”

O historiador norte-americano Jeffrey Engel vai mais longe em sua análise dos efeitos negativos do fim da Guerra Fria. Segundo ele, o conflito ofuscava todos os outros problemas internacionais e regionais e evitava que guerras se consolidassem de forma global. “Com o fim do confronto entre EUA e URSS, estes movimentos tiveram espaço para entrar em ebulição, criando tensão internacional, permitindo a globalização do terrorismo”, disse, em entrevista por telefone.

Durante a Guerra Fria, explicou o autor de “The Fall of the Berlin Wall” (A queda do Muro de Berlim, sem edição em português), sobre o legado revolucionário daquele ano, seria impensável qualquer conflito independente da Guerra Fria e mesmo qualquer ação norte-americana contra o terror no Oriente Médio. “Na primeira Guerra do Golfo, por exemplo, foi preciso que os russos permitissem a ação da coalizão liderada pelos EUA no Oriente Médio, região onde eles tinham muita força durante a guerra fria”, disse, lembrando ainda que eram os soviéticos que se envolviam em ações no Afeganistão até a dissolução do país comunista.

Desenvolvimento no Brasil
Entre os efeitos positivos do fim da Guerra Fria, os historiadores apontam para o Brasil como um exemplo marcante. Em 1989, quando caiu o muro e o bloco soviético, o Brasil elegia um presidente de forma direta pela primeira vez desde 1961 (mesmo ano em que o muro foi erguido), uma nova Constituição havia sido promulgada um ano antes, e o país, que saía de 20 anos de ditadura, entrava numa nova era social econômica e política.

“O fim da Guerra Fria fez com que o Brasil conseguisse se tornar mais autosuficiente, se desenvolver de forma independente tanto na política quanto na economia. Enquanto existia o muro isso talvez não fosse possível, pois a preocupação com a influência soviética faria com que os Estados Unidos não permitissem que o Brasil fizesse nada sozinho”, disse o historiador inglês.

Segundo Engel, que é professor na Universidade do Texas A&M, todos os acontecimentos globais, mesmo os do Brasil, até 1989, podem ser vistos como reflexo do conflito entre capitalismo e comunismo. “A Guerra Fria influenciou todos os acontecimentos no mundo entre 1945 e 1991. É impossível entender qualquer desenvolvimento internacional no período sem pensar no confronto entre EUA e URSS. A liberalização no Brasil se deu após o fim da guerra fria, e isso aconteceu em vários outros países, pois seriam impossíveis em um mundo dividido como era.”

Considerando que o capitalismo “venceu” a disputa com o comunismo, mas que ainda enfrenta problemas internos, perceptíveis em crises como a recessão vivida atualmente em muitos países, Taylor diz que Brasil, assim como no Chile e na Argentina, criaram um modelo de capitalismo com preocupação social que pode ir além da já tradicional social-democracia europeia e que podem ser o futuro deste sistema econômico.

“Os exemplos de Brasil, Chile e talvez da Argentina são muito mais interessantes como propostas de projetos que conseguem aliar o desenvolvimento capitalista com um pensamento voltado para o lado social, de apoio a populações mais pobres. A própria Alemanha desenvolveu uma forma de capitalismo social que não precisa seguir exatamente o modelo americano de capitalismo totalmente livre, mas algo mais humano e igualitário. O modelo sul-americano me parece um dos mais prósperos na atualidade.”

Daniel Buarque

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O tempo passa

Infográfico publicado no G1 em 4 de novembro de 2009. traz os dez fatos internacionais mais relevantes ocorridos no período em que o Muro de Berlim estava de pé.

Veja os fatos mais importantes ocorridos no mundo quando o muro existia



terça-feira, 3 de novembro de 2009

Divórcio alemão

Reportagem publicada no G1 em 1º de novembro de 2009, abrindo uma série especial sobre os 20 anos da queda do muro de Berlim. Baseada em livros sobre o tema, ela explica como ocorreu a separação da cidade alemã que se tornou símbolo da Guerra Fria.

'Operação Rosa’ levou apenas 5 horas para dividir Berlim com arame farpado

A construção do Muro de Berlim, que dividiu fisicamente a principal cidade da Alemanha por 28 anos e se consolidou como maior símbolo da Guerra Fria, pegou de surpresa quase todas as pessoas que teriam as vidas transformadas por ele a partir do dia 13 de agosto de 1961.

O mundo começa nesta semana a celebrar os 20 anos da queda do Muro, que marcou a reunificação da Alemanha e o fim da Guerra Fria.

Uma operação ultrassecreta de codinome “Rosa”, comandada pelo Birô Político do lado oriental, levou apenas cinco horas para fechar completamente as fronteiras internas da cidade, proibindo a circulação entre as zonas ocidentais e a área sob influência da União Soviética.

Tudo foi feito sob sigilo, durante a madrugada de um domingo, para que não houvesse reação dos berlinenses ou dos Estados Unidos, maior potência que fazia oposição aos soviéticos. Além dos envolvidos na operação, ninguém foi informado sobre decisão de fechar as fronteiras, e mesmo os que viam a instalação das cercas de arame farpado que mais tarde se tornariam um muro de concreto achavam improvável que o fechamento fosse definitivo.

Às 6h da manhã, enquanto a cidade dormia, era finalizada a primeira parte da operação que bloqueava 81 pontos de cruzamento e 193 ruas que atravessavam a fronteira, bem como os sistemas de transportes públicos. A cidade de 4 milhões de pessoas, que havia sido dividida de forma teórica após a Segunda Guerra Mundial, mas que na prática funcionava até então como um único organismo urbano, acordou cortada ao meio, separando famílias, amigos, casais e afastando trabalhadores dos seus empregos e estudantes de suas escolas. O dia ficou conhecido como “o domingo do arame farpado”.

O governo da República Democrática da Alemanha (RDA, o lado oriental) havia mobilizado 10 mil homens para garantir a segurança e evitar protestos após o fechamento da fronteira. À exceção de pequenos ataques de jovens do lado ocidental e de protestos menores do lado oriental, não chegou a haver confrontos violentos, nenhuma reação radical. Pego igualmente de surpresa, o governo norte-americano preferiu evitar o enfrentamento, permitindo que o lado socialista concluísse sua operação.

Contra desertores
A partir da operação “Rosa”, o objetivo era fechar a fronteira de 164 quilômetros em torno da Berlim Ocidental, ilha capitalista dentro da RDA. A antiga capital da Alemanha havia sido dividida entre os vencedores da Segunda Guerra Mundial, assim como o resto do país. Apesar de estar dentro do setor soviético, metade da cidade estava sob influência ocidental, vivendo num regime mais democrático e capitalista de que o restante da RDA.

Por mais que o lado ocidental fosse o alvo prático das cercas que mais tarde se tornariam um muro de concreto, a população oriental, no lado comunista, é que acabou se tornando prisioneira do regime.

Segundo o historiador britânico Frederick Taylor, autor de “Muro de Berlim”, obra que narra em detalhes, e quase 600 páginas, a história da separação da cidade alemã e da Guerra Fria, este era o principal objetivo da separação.

Para os líderes do lado comunista, diz, era preciso interromper o fluxo de pessoas que fugiam definitivamente para o lado ocidental em busca do capitalismo que se desenvolvia lá, ou evitar a ação de “atravessadores de fronteiras”, que trabalhavam do lado ocidental de viviam na economia socialista oriental. Um mês antes da separação de fato, uma média de mil pessoas do leste passavam, por dia, para o oeste de Berlim, ritmo que diminuiria a população do lado socialista em meio milhão de habitantes em apenas um ano.

O que era visto como uma busca por uma vida mais digna pelo Ocidente era chamado “deserção” pela Alemanha Oriental, reflexo de um tráfico de seres humanos. A migração se dava porque, apoiada pelas potências capitalistas, a Alemanha Ocidental se desenvolvia muito desde o fim da guerra e tinha maior qualidade de vida, enquanto a Oriental vivia o que era considerado o equivalente socialista de uma recessão, com a economia mantida artificialmente com apoio soviético.

Durante o “domingo do arame farpado” e depois que a fronteira foi fechada definitivamente pelo muro de concreto, as deserções passaram a ser punidas com severidade, e os guardas da fronteira tinham permissão para atirar contra os alemães orientais que tentavam fugir. Dados oficiais dizem que a média de mil fugitivos por dia caiu para 28 na noite do domingo, 41 no dia seguinte e casos muito isolados desde então.

Guerra Fria
Desde o fim da Segunda Guerra, Berlim havia se consolidado como o principal palco de atuação das maiores potências em confronto durante a Guerra Fria. A cidade era usada como área em que Estados Unidos e União Soviética testavam suas políticas internacionais, pressionando o adversário e estudando a resposta inimiga.

Bem antes da separação com cercas de arames farpados e da construção do muro, Berlim Ocidental já tinha sofrido as conseqüências de um maior desenvolvimento econômico. O crescimento industrial de todo o lado ocidental era alto, chegando à ordem de 15% ao ano nos anos 1950, mas, antes disso, ainda em 1948, a área de influência de EUA, Inglaterra e França adotou uma nova e mais forte moeda, o marco alemão. Em resposta, em 24 de junho, um dia depois da reforma monetária, os soviéticos bloquearam todas as vias de acesso à cidade.

O Bloqueio de Berlim foi um dos primeiros eventos de grande relevância da Guerra Fria. Todas as ligações ferroviárias e rodoviárias para a cidade de dois milhões de habitantes (do lado ocidental) foram cortadas, e até o abastecimento de energia elétrica foi interrompido. Os governos ocidentais, entretanto, abraçaram a causa dos berlinenses como símbolo do bloco capitalista do conflito não-declarado contra os comunistas.

Evitando abrir uma guerra contra a União Soviética, iniciaram uma enorme operação aérea para abastecer a cidade usando aviões. Em pouco tempo, mais de 70 mil toneladas de alimentos eram desembarcadas nos aeroportos do lado ocidental de Berlim por mês, o que aumentou a admiração pelos Estados Unidos na cidade, e aproximou o Ocidente da Alemanha. O bloqueio durou menos de um ano, mas foi o primeiro sinal da divisão que a cidade enfrentaria até novembro de 1989, quando o muro de Berlim foi derrubado e deu início à reunificação da Alemanha.

Daniel Buarque