sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Sob o gelo

Reportagem publicada no G1 em 6 de novembro de 2009, parte da série especial sobre as duas décadas da queda do Muro de Berlim. Resultado de boas entrevistas com alguns dos mais relevantes pesquisadores do tema, que mostram que o fim da guerra fria também trouxe efeitos negativos.

Queda do Muro de Berlim trouxe desenvolvimento, mas também terrorismo

A Alemanha e o mundo estão em festa neste mês, comemorando o vigésimo aniversário da queda do Muro de Berlim. Apontado como o símbolo da repressão sofrida pela população sob o domínio soviético, o muro ruiu em 1989 como consequência da ação dos movimentos sociais.

Apesar de ser verdade que o mundo todo avançou de forma impressionante nas duas últimas décadas nas áreas política, econômica, social e tecnológica, o fim da separação das Alemanhas, símbolo do encerramento da Guerra Fria, também representou mudanças ruins para o planeta, dando margem ao surgimento de redes globais de terrorismo que, na época da Guerra Fria, seriam impensáveis.

Duas décadas já seriam suficientes para que o mundo tivesse passado por muitas mudanças desde a queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989. O que esse evento isolado significou, entretanto, foi que o planeta deixou de lado a polarização entre comunismo e capitalismo que vivia durante a Guerra Fria, esquecendo o risco eminente de destruição global por uma guerra nuclear e encarando uma nova realidade em que “tudo é possível”, segundo historiadores ouvidos pelo G1.

“A Guerra Fria era uma força muito conservadora para o mundo”, explicou, por telefone, o pesquisador britânico Frederick Taylor, autor de “Muro de Berlim”, uma das obras mais completas sobre o assunto. “Depois que o murou caiu, o ‘gelo derreteu’ revelando coisas belas, mas também carcaças monstruosas que estavam escondidas e existem claramente no mundo atual. O fim da Guerra Fria representou por um lado o surgimento de Nelson Mandela e o fim do apartheid na África do Sul, mas por outro lado fez surgir Osama bin Laden e a al-Qaeda.”

O terrorismo da al-Qaeda, de certa forma, explicou, é um reflexo do fim da Guerra Fria. “Durante o conflito entre capitalismo e comunismo, não haveria espaço para que nada deste tipo se espalhasse. As grandes potências da época controlariam o crescimento de qualquer movimento mais radical, que não chegaria à força de Bin Laden”, disse.

Segundo Taylor, durante a Guerra Fria, União Soviética e Estados Unidos se ameaçavam o tempo todo e tinham suas áreas de proteção geopolítica, mas os dois mantinham a ordem global, evitando a destruição mútua que sabiam ser possível, e deixando o mundo em uma certa ordem estabelecida. Atualmente, isso não existe mais, e qualquer coisa é possível. “Ninguém é capaz de controlar todo o mundo, e tudo pode acontecer. A queda do muro faz com que tudo seja possível, o bom e o ruim.”

O historiador norte-americano Jeffrey Engel vai mais longe em sua análise dos efeitos negativos do fim da Guerra Fria. Segundo ele, o conflito ofuscava todos os outros problemas internacionais e regionais e evitava que guerras se consolidassem de forma global. “Com o fim do confronto entre EUA e URSS, estes movimentos tiveram espaço para entrar em ebulição, criando tensão internacional, permitindo a globalização do terrorismo”, disse, em entrevista por telefone.

Durante a Guerra Fria, explicou o autor de “The Fall of the Berlin Wall” (A queda do Muro de Berlim, sem edição em português), sobre o legado revolucionário daquele ano, seria impensável qualquer conflito independente da Guerra Fria e mesmo qualquer ação norte-americana contra o terror no Oriente Médio. “Na primeira Guerra do Golfo, por exemplo, foi preciso que os russos permitissem a ação da coalizão liderada pelos EUA no Oriente Médio, região onde eles tinham muita força durante a guerra fria”, disse, lembrando ainda que eram os soviéticos que se envolviam em ações no Afeganistão até a dissolução do país comunista.

Desenvolvimento no Brasil
Entre os efeitos positivos do fim da Guerra Fria, os historiadores apontam para o Brasil como um exemplo marcante. Em 1989, quando caiu o muro e o bloco soviético, o Brasil elegia um presidente de forma direta pela primeira vez desde 1961 (mesmo ano em que o muro foi erguido), uma nova Constituição havia sido promulgada um ano antes, e o país, que saía de 20 anos de ditadura, entrava numa nova era social econômica e política.

“O fim da Guerra Fria fez com que o Brasil conseguisse se tornar mais autosuficiente, se desenvolver de forma independente tanto na política quanto na economia. Enquanto existia o muro isso talvez não fosse possível, pois a preocupação com a influência soviética faria com que os Estados Unidos não permitissem que o Brasil fizesse nada sozinho”, disse o historiador inglês.

Segundo Engel, que é professor na Universidade do Texas A&M, todos os acontecimentos globais, mesmo os do Brasil, até 1989, podem ser vistos como reflexo do conflito entre capitalismo e comunismo. “A Guerra Fria influenciou todos os acontecimentos no mundo entre 1945 e 1991. É impossível entender qualquer desenvolvimento internacional no período sem pensar no confronto entre EUA e URSS. A liberalização no Brasil se deu após o fim da guerra fria, e isso aconteceu em vários outros países, pois seriam impossíveis em um mundo dividido como era.”

Considerando que o capitalismo “venceu” a disputa com o comunismo, mas que ainda enfrenta problemas internos, perceptíveis em crises como a recessão vivida atualmente em muitos países, Taylor diz que Brasil, assim como no Chile e na Argentina, criaram um modelo de capitalismo com preocupação social que pode ir além da já tradicional social-democracia europeia e que podem ser o futuro deste sistema econômico.

“Os exemplos de Brasil, Chile e talvez da Argentina são muito mais interessantes como propostas de projetos que conseguem aliar o desenvolvimento capitalista com um pensamento voltado para o lado social, de apoio a populações mais pobres. A própria Alemanha desenvolveu uma forma de capitalismo social que não precisa seguir exatamente o modelo americano de capitalismo totalmente livre, mas algo mais humano e igualitário. O modelo sul-americano me parece um dos mais prósperos na atualidade.”

Daniel Buarque

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Quebrando novas!!!

Reportagem publicada no G1 em 5 de novembro de 2009. Mudando o ritmo de trabalho de matérias de análises e pesquisas históricas, reportagem "quente", sobre um atentado em base militar dos Estados Unidos. Feita após conversa com brasileiros no local, que entraram em contato com o G1 para dar depoimentos.



Um sistema de alerta geral fez com que muitos soldados e civis da base militar de Fort Hood, no Texas, se trancassem em suas casas e locais de trabalho e não vissem nada a respeito do tiroteio que deixou 12 mortos e 31 feridos nesta quinta-feira (5). Dois brasileiros que estavam na região do ataque contaram ao G1 que tudo já estava mais calmo pouco após o fim do incidente, às 20h30 (horário de Brasília). Segundo eles, a probabilidade de haver algum brasileiro entre as vítimas é pequena.

“Aqui já está tudo mais calmo. Ainda estamos fechados na base, sem que ninguém possa entrar ou sair. Sabemos que um dos mortos é um policial que estava atendendo à chamada e os três atiradores eram soldados, mas ainda não foi divulgado quem eram ou porque fizeram isso. Estamos fechados dentro do prédio, ninguém entra e ninguém sai”, contou o sargento da reserva Francisco Lago, por telefone.

Lago contou que chegou nesta quinta-feira (5) pela manhã à base de Fort hood. Depois de servir o exército por seis anos (entre 1998 e 2004) e de atuar por um ano na Guerro do Iraque, ele atualmente é policial na cidade de Dallas e faz um treinamento anual em Fort Hood. “Coincidiu que hoje era o início do meu treinamento. Cheguei à base pela manhã e não chegamos nem a treinar, pois à tarde aconteceu isso”, disse. Segundo ele, são poucos os brasileiros na base de Fort Hood, e é improvável que algum tenha se ferido. A base continua fechada e não há definições sobre como as atividades vão ser retomadas.

Além de Lago, um casal de mineiros também estava na região do tiroteio e ficou trancado em casa, recebendo informações apenas pela imprensa local. Esposa de um militar que pediu para não ter o nome divulgado, Seviany contou que ficou em casa todo o tempo.

“Recebemos aviso da escola em frente a nossa casa dizendo para fecharmos portas e janelas e ficarmos trancados dentro de casa. Estamos trancados e não sabemos de nada até agora. Eles pedem para ficarmos dentro de casa, e cada hora uma emissora de TV fala uma coisa diferente. Estamos sem poder fazer nada”, contou Seviany ao G1, por telefone.

O casal mora no local há um ano, o marido dela é soldado e eles dizem que é a primeira vez que algo assim acontece, pois o sistema de segurança tem um forte controle de quem entra e quem sai da base. Seviany disse conhecer apenas três brasileiros que moram no posto em Fort Hood. “Aqui não há muitos brasileiros. A maioria é de hispânicos e de norte-americanos”, disse.
Daniel Buarque

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O tempo passa

Infográfico publicado no G1 em 4 de novembro de 2009. traz os dez fatos internacionais mais relevantes ocorridos no período em que o Muro de Berlim estava de pé.

Veja os fatos mais importantes ocorridos no mundo quando o muro existia



terça-feira, 3 de novembro de 2009

Divórcio alemão

Reportagem publicada no G1 em 1º de novembro de 2009, abrindo uma série especial sobre os 20 anos da queda do muro de Berlim. Baseada em livros sobre o tema, ela explica como ocorreu a separação da cidade alemã que se tornou símbolo da Guerra Fria.

'Operação Rosa’ levou apenas 5 horas para dividir Berlim com arame farpado

A construção do Muro de Berlim, que dividiu fisicamente a principal cidade da Alemanha por 28 anos e se consolidou como maior símbolo da Guerra Fria, pegou de surpresa quase todas as pessoas que teriam as vidas transformadas por ele a partir do dia 13 de agosto de 1961.

O mundo começa nesta semana a celebrar os 20 anos da queda do Muro, que marcou a reunificação da Alemanha e o fim da Guerra Fria.

Uma operação ultrassecreta de codinome “Rosa”, comandada pelo Birô Político do lado oriental, levou apenas cinco horas para fechar completamente as fronteiras internas da cidade, proibindo a circulação entre as zonas ocidentais e a área sob influência da União Soviética.

Tudo foi feito sob sigilo, durante a madrugada de um domingo, para que não houvesse reação dos berlinenses ou dos Estados Unidos, maior potência que fazia oposição aos soviéticos. Além dos envolvidos na operação, ninguém foi informado sobre decisão de fechar as fronteiras, e mesmo os que viam a instalação das cercas de arame farpado que mais tarde se tornariam um muro de concreto achavam improvável que o fechamento fosse definitivo.

Às 6h da manhã, enquanto a cidade dormia, era finalizada a primeira parte da operação que bloqueava 81 pontos de cruzamento e 193 ruas que atravessavam a fronteira, bem como os sistemas de transportes públicos. A cidade de 4 milhões de pessoas, que havia sido dividida de forma teórica após a Segunda Guerra Mundial, mas que na prática funcionava até então como um único organismo urbano, acordou cortada ao meio, separando famílias, amigos, casais e afastando trabalhadores dos seus empregos e estudantes de suas escolas. O dia ficou conhecido como “o domingo do arame farpado”.

O governo da República Democrática da Alemanha (RDA, o lado oriental) havia mobilizado 10 mil homens para garantir a segurança e evitar protestos após o fechamento da fronteira. À exceção de pequenos ataques de jovens do lado ocidental e de protestos menores do lado oriental, não chegou a haver confrontos violentos, nenhuma reação radical. Pego igualmente de surpresa, o governo norte-americano preferiu evitar o enfrentamento, permitindo que o lado socialista concluísse sua operação.

Contra desertores
A partir da operação “Rosa”, o objetivo era fechar a fronteira de 164 quilômetros em torno da Berlim Ocidental, ilha capitalista dentro da RDA. A antiga capital da Alemanha havia sido dividida entre os vencedores da Segunda Guerra Mundial, assim como o resto do país. Apesar de estar dentro do setor soviético, metade da cidade estava sob influência ocidental, vivendo num regime mais democrático e capitalista de que o restante da RDA.

Por mais que o lado ocidental fosse o alvo prático das cercas que mais tarde se tornariam um muro de concreto, a população oriental, no lado comunista, é que acabou se tornando prisioneira do regime.

Segundo o historiador britânico Frederick Taylor, autor de “Muro de Berlim”, obra que narra em detalhes, e quase 600 páginas, a história da separação da cidade alemã e da Guerra Fria, este era o principal objetivo da separação.

Para os líderes do lado comunista, diz, era preciso interromper o fluxo de pessoas que fugiam definitivamente para o lado ocidental em busca do capitalismo que se desenvolvia lá, ou evitar a ação de “atravessadores de fronteiras”, que trabalhavam do lado ocidental de viviam na economia socialista oriental. Um mês antes da separação de fato, uma média de mil pessoas do leste passavam, por dia, para o oeste de Berlim, ritmo que diminuiria a população do lado socialista em meio milhão de habitantes em apenas um ano.

O que era visto como uma busca por uma vida mais digna pelo Ocidente era chamado “deserção” pela Alemanha Oriental, reflexo de um tráfico de seres humanos. A migração se dava porque, apoiada pelas potências capitalistas, a Alemanha Ocidental se desenvolvia muito desde o fim da guerra e tinha maior qualidade de vida, enquanto a Oriental vivia o que era considerado o equivalente socialista de uma recessão, com a economia mantida artificialmente com apoio soviético.

Durante o “domingo do arame farpado” e depois que a fronteira foi fechada definitivamente pelo muro de concreto, as deserções passaram a ser punidas com severidade, e os guardas da fronteira tinham permissão para atirar contra os alemães orientais que tentavam fugir. Dados oficiais dizem que a média de mil fugitivos por dia caiu para 28 na noite do domingo, 41 no dia seguinte e casos muito isolados desde então.

Guerra Fria
Desde o fim da Segunda Guerra, Berlim havia se consolidado como o principal palco de atuação das maiores potências em confronto durante a Guerra Fria. A cidade era usada como área em que Estados Unidos e União Soviética testavam suas políticas internacionais, pressionando o adversário e estudando a resposta inimiga.

Bem antes da separação com cercas de arames farpados e da construção do muro, Berlim Ocidental já tinha sofrido as conseqüências de um maior desenvolvimento econômico. O crescimento industrial de todo o lado ocidental era alto, chegando à ordem de 15% ao ano nos anos 1950, mas, antes disso, ainda em 1948, a área de influência de EUA, Inglaterra e França adotou uma nova e mais forte moeda, o marco alemão. Em resposta, em 24 de junho, um dia depois da reforma monetária, os soviéticos bloquearam todas as vias de acesso à cidade.

O Bloqueio de Berlim foi um dos primeiros eventos de grande relevância da Guerra Fria. Todas as ligações ferroviárias e rodoviárias para a cidade de dois milhões de habitantes (do lado ocidental) foram cortadas, e até o abastecimento de energia elétrica foi interrompido. Os governos ocidentais, entretanto, abraçaram a causa dos berlinenses como símbolo do bloco capitalista do conflito não-declarado contra os comunistas.

Evitando abrir uma guerra contra a União Soviética, iniciaram uma enorme operação aérea para abastecer a cidade usando aviões. Em pouco tempo, mais de 70 mil toneladas de alimentos eram desembarcadas nos aeroportos do lado ocidental de Berlim por mês, o que aumentou a admiração pelos Estados Unidos na cidade, e aproximou o Ocidente da Alemanha. O bloqueio durou menos de um ano, mas foi o primeiro sinal da divisão que a cidade enfrentaria até novembro de 1989, quando o muro de Berlim foi derrubado e deu início à reunificação da Alemanha.

Daniel Buarque

domingo, 25 de outubro de 2009

'Inferno' na terra

Reportagem publicada no G1 em 25 de outubro de 2009, como parte da série do portal sobre a vida de brasileiros no exterior. O último lugar do mundo no ranking do IDH poderia render uma série de reportagens especiais só por si mesmo, mas serviu ao menos como gancho para contrastar com a reportagem sobre a vida de brasileiros na Noruega, onde há a melhor qualidade de vida. O personagem foi encontrado via Orkut e ´página da missão evangélica. Só durante a entrevista por telefone é que surgiu em detalhes a história que tornaria ainda mais interessante a reportagem, puxando pelo fato de que ele havia sido paquito, mas sem entrar em detalhes da sua conversão religiosa.


O objetivo de Alexandre Canhoni era ajudar as pessoas que vivem no pior lugar do mundo. Depois de ter atuado na TV como paquito do "Xou da Xuxa" e de ter deixado a carreira musical de lado para se tornar evangélico, ele tinha se decidido a viajar para algum lugar como Iraque, Paquistão, Serra Leoa, países em conflito em que a população sofria, e fazer trabalho humanitário. Foi quando ouviu falar do Níger, último colocado do ranking de Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, pela primeira vez. “Perguntei o que tinha por lá, e me disseram que ‘nada’”, contou, em entrevista ao G1, por telefone. Então, ele decidiu se mudar para Niamey, capital do país africano com a pior qualidade de vida do mundo, onde vive há oito anos.

“O país não tinha realmente nada”, contou. “Só agora chegaram detectores de metais no aeroporto, a previsão é de que chegue cartão de crédito daqui a cinco anos, há apenas três restaurantes e a cultura muçulmana é bem radical. Não tem cinema, são pouquíssimas as televisões, que normalmente têm uso comunitário e o que mais passa são programas religiosos islâmicos”, disse. Na capital, segundo ele, que hoje tem 38 anos, há algumas avenidas de asfalto e dois lugares com internet, como lan houses. A energia elétrica vem da Nigéria e muitas vezes falta. “Uma vez ficamos dois dias sem energia elétrica e perdemos muita comida que tínhamos em nossa geladeira.”

Localizado no oeste africano, logo abaixo do deserto do Saara (parte do território fica no deserto), o Níger ficou em 182º lugar no ranking de qualidade de vida, com IDH de 0,34, pior que o do Afeganistão, palco de uma ação militar comandada pelos Estados Unidos. A população de 15,3 milhões de nigerinos tem uma expectativa de vida de apenas 52 anos, e apenas 28% deles são alfabetizados. Trata-se de um dos países mais pobres do mundo, com Produto Interno Bruto per capita anual de apenas US$ 700 (cerca de R$ 1.200) (o do Brasil é de US$ 10.200, quase R$ 17.500, segundo a mesma fonte, a CIA).

Apesar da pobreza, segundo Canhoni, há também pessoas muito ricas no país, que vivem da exploração de urânio e petróleo e que chegam a serviço de multinacionais que, segundo Canhoni, não ajudam no desenvolvimento local. O problema é que há um abismo entre os ricos e os pobres, sem uma classe média, e o preço das coisas à venda é muito alto. “Um litro de leite nos dois únicos mercados custa o equivalente a R$ 6, um quilo de tomate pode chegar a R$ 25. Quanto mais pobre é o país, mais caras são as coisas. Não adianta levar dinheiro e a gente leva do Brasil o máximo de coisa que a gente pode. As pessoas são ou muito pobres ou muito ricas. Vivemos em um dos melhores bairros, mas em frente a nossa casa há barracos em que vivem muitas pessoas que ajudamos. É um contraste muito pior de que o tradicional de prédio de luxo e favela, que se vê no Brasil”, disse.

Segundo ele, os empregos são raríssimos. As pessoas normalmente trabalham como guardas na frente da casa de estrangeiros e ganhando muito pouco, que dá no máximo para comer. Alguns oferecem serviços de turismo, também, levando as pessoas para conhecer o deserto do Saara. “Gostaríamos de incentivar a formação de emprego atraindo empresas para lá, e com algo como uma central de reciclagem de lixo.”

Brasileiros e ajuda
Canhoni é um dos criadores do grupo Ministério Guerreiros de Deus, que diz ser uma ONG aberta à participação de todos que queiram ajudar a população em dificuldade, não apenas uma instituição religiosa. No apoio que oferece à população carente, ele trabalha a nutrição e a formação de crianças e mulheres, sempre com trabalho religioso e leitura de mensagens bíblicas, contou. Esse tipo de ação em um país majoritariamente muçulmano (80%, segundo a CIA), faz com que sejam alvo de ataques e ameaças. “Chegaram a apedrejar nossa casa”, contou.

O grupo mora na capital, em uma casa alugada. Comprar imóvel por lá é muito caro, segundo ele. A casa é usada como moradia e abriga projetos de nutrição, aulas de músicas, marcenaria, cultos e atividades esportivas. O grupo também ensina mulheres a costurar, pintar e fazer artesanato. Canhoni disse que há também uma série de grupos internacionais que fazem projetos humanitários também. “Alguns só distribuem comidas, outras traduzem a Bíblia, mas somos pioneiros em dar uma apoio total de alimentação, lazer e formação de crianças carentes”, disse.

Entre as pessoas que atuam no trabalho humanitário, ele disse haver nove brasileiros. O país não tem uma representação oficial do Itamaraty, e a embaixada que cuida das relações com o Níger fica localizada na Nigéria – a região tem registro de 270 brasileiros entre os dois países, além de Burkina Faso. “Temos um conselho brasileiro de missionários no Níger. Sentimos falta de uma representação do Brasil, que está se tornando conhecido pelo nosso trabalho. Eles têm visto nossa bandeira, nossa cultura, mas falta representação oficial", disse.

Coisas boas no pior lugar
Em um país sem “nada”, Canhoni disse ver o lado positivo nas pessoas, os nigerinos, que são receptivos e buscam melhorar um pouco sua vida. “Elas são pobres, não têm muita expectativa, mas são boas, se aproximam dos estrangeiros, buscam sair dessa situação horrível em que se encontram.” Pela pobreza, a corrupção é evidente, e maior de que no Brasil, segundo ele. “Mas não tem problemas de roubo como no Brasil. A lei islâmica é muito rigorosa, então é raro ver as pessoas fazerem isso. Elas têm uma consciência de não pegar o que não é delas, mesmo com toda a pobreza. As pessoas param para rezar, deixam o dinheiro de lado, mas não ocorre roubo.”

Canhoni conta que quem está no Níger para trabalhar com ajuda humanitária acaba não tendo tempo livre para lazer, então não sente falta disso. “Desde as 7h da manhã estamos ajudando eles, e trabalhamos até a noite.” Depois de oito anos vivendo assim, ele diz que sua expectativa é ficar lá até que o país saia da lista dos dez últimos países do mundo. “Ainda queremos montar escolas, centros esportivos, continuar desenvolvendo este trabalho para ajudar na vida difícil deles.”

Daniel Buarque

sábado, 24 de outubro de 2009

A igreja 'AngloRomana'

Reportagem publicada no G1 em 24 de outubro de 2009. Analisa sob o ponto de vista brasileiro a decisão do Vaticano de incorporar padres casados do anglicanismo, divulgada mais cedo na mesma semana. Resultado de uma ótima entrevista com o reverendo da maior igreja anglicana no Brasil, incluindo explicações interessantes e boas metáforas para a atual situação das duas religiões e seu futuro.

Aproximação do Vaticano não deve afetar anglicanos no Brasil, diz reverendo

A decisão de acolher na Igreja Católica os anglicanos, inclusive padres casados, que quiserem se aproximar do Vaticano, anunciada na última terça-feira (20), não deve afetar diretamente, nem logo, as cerca de 20 mil pessoas da comunidade brasileira que segue esta religião. A análise é do reverendo Aldo Quintão, responsável pela maior igreja da doutrina na América Latina, em São Paulo. “Somos uma comunidade relativamente pequena, e a normativa não vai afetar quase nada o Brasil”, disse.

Em entrevista ao G1, Quintão explicou que não foi uma surpresa o anúncio da Constituição Apostólica, e que ela se trata de uma decisão estratégica, parte de uma aproximação que busca, originalmente, a unidade entre as religiões. “Há muito tempo existe esta conversa com a igreja romana, sobre ecumenismo. A idéia original era que as duas igrejas tivessem unidade total”, disse. Segundo ele, a aproximação havia esbarrado na questão da ordenação de mulheres e de homossexuais, mas foi retomada por conta de um interesse Católico em atrair anglicanos insatisfeitos com algumas medidas que podem ser consideradas liberais demais.

“A igreja anglicana está dividida em três grupos, do mais conservador ao mais liberal, e a cúpula tem que encontrar uma solução para o grupo que está mais insatisfeito com os rumos mais liberais. Um acordo político entre católicos e anglicanos facilita para os dois lados e evita um racha real dentro da igreja anglicana. É como um filho que briga com o pai, decide sair de casa, mas vai morar com um tio, continua tudo próximo”, explicou. Ele disse que, no futuro, após a normativa do Vaticano, a igreja anglicana pode assumir uma postura definitivamente mais liberal, sem os conflitos internos com grupos mais conservadores.

“A igreja católica é como um avô que está assustado com a modernidade dos netos, mas não quer perder a presença deles, então aceita as diferenças, a realidade dos netos, fazendo algumas ressalvas. Ela aos poucos vai aceitando algumas mudanças, sem nenhuma atitude radical, sem criar problemas internos”, disse.

Procedimento e detalhes
Segundo Quintão, mesmo antes da decisão do Vaticano, já existia a passagem de anglicanos para a Igreja Católica. Mas, quando isso acontecia, a pessoa ficava sob a orientação de um bispo católico e estava sujeita a todas as normas do Vaticano. “O novo documento do papa diferencia, pois vai aceitar que os anglicanos mantenham a cultura de liturgia e de fé anglicana. Ele criou um tipo de vicariato, uma uniata, que são igrejas que não têm a tradição romana, mas são ligadas as Roma. Os anglicanos vão ser recebidos e vão estar dentro da igreja romana, mas de uma forma diferente, até mesmo para não criar problemas para a igreja romana, afinal de contas, os padres romanos vão continuar sem poder casar”, disse Quintão.

Apesar da explicação, o reverendo disse que na verdade ainda não foi definido qual vai ser o procedimento prático desta medida. Segundo ele, os detalhes desta aproximação ainda não ficaram claros. “Vai ser uma caminhada, vai se iniciar a conversa, a igreja romana deve começar a receber os bispos. Tem que decidir como vai ser a logística disso tudo, saber se as igrejas físicas vão se transferir de igrejas também, tudo coisa que ainda não ficou muito claro. Há muitos detalhes para discutir.”

Quintão explicou que, por mais que a ordenação de mulheres e homossexuais estivesse no cerne da discussão, a aproximação entre católicos e anglicanos dependia de outras questões muito importantes. “Os anglicanos são a favor do estudo das células-tronco, dos métodos contraceptivos, não são totalmente contra aborto em situações anencefalia e estupro, e ainda não se sabe como Roma vai receber isso”, disse.

Segundo ele, é preciso considerar também que esta grupo que vai migrar da igreja anglicana para a católica deve atrair muitos novos padres já ligados ao Vaticano, que querem continuar na religião, mas também gostariam de poder casar. “Minha impressão é que vai haver muitos padres romanos pedindo para entrar neste vicariato, querendo casar. Isso pode acontecer até no Brasil, atraindo pessoas que têm vontade de ser padre, mas que querem casar e que podem acabar fazendo surgir uma nova igreja ‘angloromana’, um novo nome.”

Daniel Buarque

Brazil cultural

Continuação da reportagem principal abaixo, sobre os estudos brasileiros nos Estados Unidos, este texto foi publicado também no dia 24 de outubro de 2009, e tenta apresentar o fenômeno encontrado na academia americana pelos olhos das universidades britânicas.

Cultura é o principal foco de estudos brasileiros no Reino Unido

Enquanto a academia norte-americana muda o perfil tradicional dos ‘brasilianistas”, incorporando o país como referência em trabalhos de ciência, nas universidades do Reino Unido os focos dos estudos sobre o Brasil são a cultura e a sociedade.

Segundo David Lehmann, do Centro de Estudos Latino-Americanos de Cambridge, uma das mais importantes universidades do mundo, essa é a tendência no país desde os anos 1990, supostamente uma década de auge nos estudos sobre brasil. Muitas vezes, a cultura é estudada por pesquisadores brasileiros.

“Há também pessoas estudando antropologia, indo dos índios à violência urbana. Nos anos 1980 havia mais pesquisas de história, mas isso diminuiu um pouco e é bem reduzido atualmente.”

Um dos motivos para isso, segundo ele, é que o Brasil, apesar de ter uma relevância internacional maior que a de outros países na América Latina, não costuma se envolver em conflitos diplomáticos ou de discursos, o que o torna menos controverso e até menos atraente. “O país acaba sofrendo por estar fazendo muito sucesso, pois acaba não se envolvendo em controvérsias e, por isso, há menos interesse internacional. A Venezuela, pelo contrário, chama muita atenção com as palhaçadas de Chávez”, disse. Segundo ele, mesmo não atraindo muitos estudos, isso acaba sendo positivo para o Brasil. “O Brasil chama a atenção pela economia, pelos negócios, entretanto, o que é bom.”

Autor de pesquisas sobre democracia, desenvolvimento e religião no Brasil, Lehmann explicou que no Reino Unido há programas sobre o país nas universidades de Cambridge e de Oxford e no King’s College, em Londres. O centro de Oxford teve muito sucesso por alguns anos, explicou, voltado à política brasileira e bancado por instituições brasileiras.

“Aqui no Reino Unido nós não somos tão obcecados por assuntos como nos EUA”, explicou. “O grande sucesso acadêmico aqui são os estudos culturais, com programas de cultura brasileira, que atraem muitos pesquisadores pela música, dança, pelo espetáculo – este é o grande foco de estudos da América Latina por aqui.” Ele criticou o que chamou de perfil introvertido das universidades brasileiras, alegando que faltam trabalhos voltados à divulgação da produção acadêmica do país no exterior.

Anos 90
O arquivo de textos acadêmicos da London School of Economics, que reúne muito do material usado em trabalhos na universidade, ajuda a comprovar a afirmação de Lehmann de que os anos 1990 foram importantes para os estudos brasileiros no Reino Unido. Uma busca pelo nome do país, em inglês, aponta que há 95.036 menções a ele. Desse total, 13.201 foram publicados desde janeiro do ano 2000 até esta semana. Na década anterior, entre janeiro de 1990 e dezembro de 1999, o total de menções ao Brasil foi de 19.139 textos, quase 45% a mais de que nesta década.

Somente neste ano, entre janeiro e outubro, o nome do país foi citado em 59 publicações encontradas na biblioteca virtual da universidade inglesa.No ano passado houve 133 menções ao “Brazil” em trabalhos acadêmicos. As publicações mais recentes que incluem menções ao país não fazem estudos sobre a realidade vivida, mas tratam da Venezuela, nutrição, biologia, astronomia, ciências em geral. Os temas especificamente brasileiros não são tão frequentes. A maioria dos trabalhos que usam o Brasil no título tratam de situações envolvendo a Amazônia, a ecologia e o ambiente.

Daniel Buarque