Mostrando postagens com marcador EUA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador EUA. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

O negociador americano

Reportagem publicada no G1 em 21 de dezembro de 2009, traz entrevista com James Green, especialista na relação entre Brasil e Estados Unidos durante a ditadura, comentando a morte do embaixador Lincoln Gordon, nunciada no mesmo dia da entrevista.

Lincoln Gordon mudou a história do Brasil, diz historiador americano

A atuação do diplomata norte-americano Lincoln Gordon, embaixador no Brasil entre 1961 e 1966 que morreu no último sábado aos 96 anos, “mudou a história do Brasil”, segundo o professor James Green, especialista em história do país que acaba de lançar um livro a respeito da relação entre os governos das duas nações durante a ditadura.

“Ele mudou a história do Brasil, pois deu a luz verde para que os militares dessem o golpe de 1964. Ele deixou claro que, se o golpe fosse dado, os Estados Unidos iam reconhecer imediatamente os militares no poder. E ele ainda pressionou a Casa Branca, conseguindo que o governo desse uma declaração de apoio ao golpe imediatamente, o que foi fundamental”, disse Green, em entrevista ao G1 por telefone nesta segunda-feira (21), falando português fluente.

O pesquisador americano da universidade Brown contou que estava tentando entrevistar o diplomata, e que havia encontrado Gordon em 2007, quando ele estava saudável e jogando tênis, apesar dos 94 anos. Green acaba de lançar no Brasil o livro “Apesar de vocês”, em que descreve os movimentos contra a ditadura brasileira que existiam nos Estados Unidos, apesar do claro apoio do governo do seu país aos militares. Segundo ele, em certo sentido, a morte do diplomata encerra um capítulo sobre a história do Brasil, pois trata-se de um participantes do golpe. “É uma parte triste também da história norte-americana.”

“Gordon ajudou os militares pessoalmente porque tinha uma visão de mundo moldada pela Guerra Fria, era anticomunista e realmente achava que o Brasil estava à beira de uma revolução comunista. A trajetória dele durante a Segunda Guerra Mundial, na Europa após o conflito, fazia com que ele tivesse muito esta mentalidade e achava que o Brasil ia ser a próxima Cuba se não fossem os militares”, contou Green.

Green também escreveu um artigo sobre o discurso de Gordon a partir de 1964, alegando que ele, ao longo dos anos, modificou sua justificativa para o golpe militar de 1964. Apesar de várias pesquisas já terem encontrado indícios do apoio de Gordon ao golpe, o diplomata norte-americano morreu negando que nunca houve atividade de conspiração com os militares.

Segundo o pesquisador, o embaixador continuou negando a participação no golpe porque achava que estava fazendo uma coisa correta e boa e tentava indicar que havia sido uma coisa inocente. Segundo Green, o diplomata estava escrevendo suas memórias. “Eu gostaria de ter lido mais uma vez o que ele ia dizer para justificar a atuação no golpe. Não sei se ele tinha arquivos pessoais que possam ser pesquisados. Isso seria muito interessante de ver.”

Participação zero
Três anos antes da descoberta e divulgação dos documentos que comprovaram a participação de Gordon e da CIA no apoio ao golpe no Brasil, em 2006, o diplomata deu um longa entrevista ao Fantástico. Na conversa, ele negava o envolvimento norte-americano no golpe militar. Na época com 89 anos, logo após a publicação de um livro, Gordon fez uma ressalva logo no início da entrevista, dizendo que os EUA não participaram diretamente da deposição do presidente brasileiro. "Participação ativa foi praticamente zero", diz Gordon.

Na entrevista, ele confirmou que a agência norte-americana de inteligência (CIA) havia ajudado financeiramente os candidatos simpáticos aos Estados Unidos nas eleições de 1962 no Brasil. Na época, ele dizia que a CIA não deveria ter dado ajuda em dinheiro aos adversários de João Goulart. "Com a passagem de tempo, eu considerei um erro da nossa parte. Foi usado como donativo para distribuir entre simpatizantes dos Estados Unidos. Nunca vi a lista, eu não estava envolvido pessoalmente no processo. Foi uma ação da CIA", contou Gordon.

Daniel Buarque

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Política à parte

Infográfico publicado no G1 em 5 de dezembro de 2009, como parte da reportagem sobre a relação entre Brasil e Estados Unidos. Ele elenca os assuntos em debate na política internacional dos dois países, mostrando onde eles discordam.

Pontos de discórdia entre Brasil e Estados Unidos

Amigos para sempre

Reportagem publicada no G1 em 5 de dezembro de 2009, após pesquisa e entrevistas sobre a histórica relação entre Brasil e Estados Unidos.

Parceria entre Brasil e EUA não se abala com discórdias, dizem pesquisadores


"Brasil e Estados Unidos são como dois amigos de longa data: um sempre espera poder contar com o apoio do outro. Por mais que eles às vezes se afastem um pouco um do outro, que discordem e até possam esquecer de dar o valor e o prestígio que o outro amigo merece, eles nunca rompem este laço." A descrição foi feita pelo professor de história do Brasil na Universidade de New Hampshire. Frank D. McCann, em entrevista ao G1, explicando que a troca de cartas entre Barack Obama e Luiz Inácio Lula da Silva, quando o iraniano Mahmoud Ahmadinejad esteve em Brasília há uma semana, evidenciou que os dois países nem sempre concordam, mas as eventuais discordâncias fazem parte da relação entre os dois "amigos".

De fato, o contato entre os dois presidentes se deu de forma aparentemente amigável e respeitosa, mas deixou claro que, em um ano em que o Brasil atuou de forma intensa tentando ganhar prestígio no cenário da política internacional, seja em Honduras, na Colômbia, no Oriente Médio ou mesmo na relação bilateral com os próprios EUA, os dois países pensam de forma diferente em muitas das questões mais importantes para o mundo atual.

Assim como McCann, outros três pesquisadores da relação entre o Brasil e os EUA deixaram claro que não há tensão na relação entre os dois países, argumentando que todo contato internacional em política e economia tem altos e baixos, e que a diplomacia dos dois países é mais uma relação de parceria do que uma puramente hegemônica.

Falta de atenção
O que aconteceu neste 2009, explicou o professor de Relações Internacionais da Universidade Stanford, Thomas O'Keefe, foi que os Estados Unidos simplesmente não deram atenção ao Brasil e ao restante do continente. "Parece haver um entendimento, por parte do governo Obama, que existem tantos problemas mais sérios para resolver internamente e no exterior, de que ele não tem o tempo e o dinheiro para enfocar a situação da América do Sul. Nesta situação, ele parece ter deixado o Brasil assumir um papel de liderança", disse.

Segundo Steven Topik, chefe do departamento de história da Universidade da Califórnia em Irvine, que estuda a história do Brasil e da América Latina, o interesse norte-americano no Brasil diminuiu desde 2001.

"Os Estados Unidos não estão prestando muita atenção na região, o que é bom para ela. Os EUA estão tão focados no Oriente Médio, que foi possível ver esta onda rosa na América Latina, com quase todos os países, menos a Colômbia, desenvolvendo projetos políticos próprios e independentes. Os Estados unidos não estão prestando atenção, e uma prova é o fato de que Obama levou seis meses para indicar um novo embaixador. A região é importante para as relações comerciais, mas, em termos de de preocupação estratégica, não é a prioridade", disse.

O envio da carta de Obama, explicaram os pesquisadores, serviu para mostrar que, mesmo sem dar tanta atenção quanto o Brasil merece, o "amigo" do norte continua ali, e não quer perder prestígio, nem mesmo quando alguém com quem tem uma disputa, o Irã, visita a casa do amigo.

Dependência e parceria
Pelo lado do Brasil, explicou Topik, o que acontece quando o Itamaraty abre espaço em sua agenda para os "inimigos" dos Estados Unidos, é um comportamento que se repete no país, como uma busca pela "diversificação da dependência".

"O Brasil sempre tentou equilibrar os diferentes poderes do mundo, e isso está acontecendo agora, com a visita de Ahmadinejad. Isso começou bem antes, e a situação agora é diferente porque a posição brasileira é mais forte. É a postura comum do Brasil de parecer romper", disse, alegando, entretanto, que isso faz parte do jogo da política internacional, e que não ameaça a relação com os Estados Unidos. Ele disse ainda que em 30 anos de estudo do Brasil, nunca encontrou exemplos práticos de uma "dependência real" do Brasil em relação aos EUA, sendo a relação muito mais equilibrada de que se pensa.

É a mesma opinião de O'Keefe. "A relação entre os dois países tem se tornado cada vez mais uma parceria. Não é mais o que houve no passado, em que o Brasil estava sob a hegemonia dos Estados Unidos. A relação amadureceu bastante no sentido de que há o entendimento de que o Brasil nem sempre vai seguir 100% a liderança dos Estados Unidos. E como é uma parceria, os Estados Unidos também vão ter que ceder em algumas áreas. Não chamaria de relação de dependência, a não ser que seja uma dependência mútua, que em muitos casos o Brasil pode estar à frente por conta de sua hegemonia regional na América do Sul", disse.

Segundo William Ratliff, pesquisador e curador no Instituto Hoover com experiência em América Latina e em política externa norte-americana, o governo Obama pensa que dois países na América Latina são centrais para os interesses dos Estados Unidos no Longo prazo: Brasil e México.

"A maioria das pessoas nos Estados Unidos estão impressionadas com muitas das políticas internas do governo Lula da Silva. Em assuntos internacionais, os EUA têm muita esperança, mas também alguma preocupação com o que o Brasil pode fazer. Há vastas áreas com potencial de cooperação, e mesmo o ex-presidente Bush teve uma atitude positiva em relação a esse potencial. Em meses recentes, vários assuntos apareceram nessa relação perturbaram as vibrações potencialmente positivas", disse, ressaltando que não há ruptura.

Daniel Buarque

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Run, run, run

Reportagem publicada no G1 em 30 de janeiro de 2009. Parte da série sobre brasileiros no exterior, conta da façanha do corredor que foi de um canto a outro dos Estados Unidos a pé em menos de dois meses. Entrevista feita por telefone após o fim da prova, mas ainda quente o suficiente para se tornar assunto da séria.

Corra, Carlos! Corra!

Carlos Dias está longe de ter o raciocínio lento, mas seu ritmo e seu fôlego nas pistas com certeza lembram o já clássico personagem-título do filme “Forrest Gump”, interpretado por Tom Hanks. A certa altura do filme, Forrest decide começar a correr sem parar e cruza mais de 5 mil quilômetros de um canto ao outro dos Estados Unidos assim, correndo.

Dias é autor de uma façanha parecida: em menos de dois meses, Dias foi de Nova York à Califórnia, percorrendo 5.130 quilômetros no total, uma média de 84 quilômetros por dia a uma velocidade máxima de 10 km/h para controlar o ritmo, chegando a passar 20 horas sem parar correndo. Foram 59 dias até completar a rota no início deste mês. "Chegamos um dia antes do programado”, contou ao G1.

“As pessoas me lembram do filme a cada minuto. A diferença é que no filme ele não tinha sentido naquilo que fazia, eu tinha um sentido de completar o percurso e de ajudar uma instituição de apoio a crianças com câncer”, disse. Para a empreitada, ele pôs à venda suas milhas, oferecendo parte do arrecadado para o Graac. “Vendemos poucas, mas conseguimos pelo menos puxar um pouco de repercussão, chamando a atenção para o Graac. A intenção era gerar benefícios para outras pessoas, e não buscar nada para mim. Hoje minha sensação é de dever cumprido.”

Formado em administração, Dias conta que já corre provas de longa distância há 16 anos, já completou mais de 74 maratonas e fez travessias, como em 2007, quando foi do Oiapoque ao Chuí, extremos norte e sul do Brasil, em 100 dias, batendo o recorde. Morador de São Bernardo do Campo, ele hoje vive de realizar provas, dar palestras e organizar corridas, parecendo buscar desafios diferentes de cada vez. “Foi a primeira vez que essa rota de uma ponta a outra dos EUA foi feita por um ultramaratonista”, disse.

No filme, Forrest Gump corre por três anos, dois meses, 14 dias e 16 horas - se seguisse o mesmo ritmo de Dias, teria feito 20 vezes o percurso de um canto ao outro do país.

De Leste a Oeste
O planejamento do percurso era detalhado e incluiu bateria de exames e treinamento. Toda a rota já estava traçada desde o começo e previa seguir sempre pela rodovia 80. No segundo dia correndo, entretanto, a polícia disse que eles não podiam seguir por ali, a não ser de carro. “Eles nos orientaram e seguimos pelas estradas paralelas da 80. Só no colorado que precisamos dar uma variada por causa das montanhas.”

A maior dificuldade enfrentada foi a mudança do clima, que é constante. “Deixamos Nova York com muito calor, pegamos chuva na Pensilvânia, vento no Nebraska, neve no Colorado, calor no deserto, mais neve em Nevada e mais calor na Califórnia. Administrar isso, a roupa certa no momento certo para melhorar o desempenho, é bem difícil”, contou.

Encontrar um lugar para dormir, depois da mudança da rota, era um desafio diário, mas também fonte de algumas das experiências que o maratonista considera das mais interessantes. “As pessoas foram entrando no nosso projeto, nos recebendo na casa deles, fomos fazendo amigos, ganhando novas famílias por todo o trajeto até chegar na Califórnia. Viajei achando que o norte-americano era frio e nada solidário, mas vi o oposto, pois eles nos ajudavam. Tivemos só coisas boas. Tinha gente que parava na estrada e convidava para ir à cada deles. Isso foi a coisa mais legal, e foi bem diferente do que há no Brasil.”

Dias afirma que não chegou a pensar em desistir em momento algum, mas logo no início, depois de entrar em Indiana, estava muito cansado e achava que não conseguiria completar a prova dentro do cronograma programado. “É preciso ser paciente o tempo todo, mesmo cansado física e mentalmente. Tentava controlar a ansiedade.”

A concentração era muito grande e ele terminava exausto no final do dia. “Não dava para conhecer as cidades nem nada, mas dava para conhecer pessoas, conversar, melhorar o inglês. Hoje eu conheço os EUA mais de que muitos americanos, pois passamos por mais de 700 cidades, percebemos as mudanças culturais, as paisagens, as comidas, tudo o que muita gente não conhece.”

Dias agora vai fazer treinamento para novas provas a partir de abril, quando pretende correr quatro desertos: na Austrália, depois Nepal, Namíbia e Vietnã. “No segundo semestre quero correr uma maratona por dia por seis meses, girando o Brasil, saindo do Rio de Janeiro e finalizando em São Paulo.” Como o personagem do cinema, ele também não para depois de chegar no ponto final da prova corrida.

Daniel Buarque

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Legalize it!

Reportagem publicada no G1 em 24 de novembro de 2009, uma semana após a inauguração do primeiro local público em que se pode fumar maconha livremente nos Estados Unidos. Em entrevista, o diretor do grupo responsável pelo Cannabis Café discute a influência de Obama e a abertura legal para a droga no país.

Com Obama na Presidência, EUA se tornam mais tolerantes com maconha

O café inaugurado na última semana na cidade de Portland, nos Estados Unidos, comporta entre 30 e 40 pessoas ao mesmo tempo. Lá dentro, funciona uma espécie de “mercado de pulgas”, em que as pessoas podem vender, trocar e consumir livre e legalmente o produto que as reúne ali: maconha.

A exemplo do que acontece nos tradicionais coffee shops da Holanda, o Cannabis Café é o primeiro lugar em que os usuários da droga podem se reunir e consumi-la sem risco de ter problemas com a polícia, contanto que haja um registro da necessidade uso por motivos medicinais. Seu surgimento está sendo considerado pelas organizações que lutam pela descriminalização da maconha como um dos principais avanços recentes no país, um reflexo de maior tolerância por parte do governo do presidente Barack Obama.

“Sem dúvida o governo Obama tem ajudado nosso trabalho. Houve uma mudança clara e absoluta de política e interpretação da lei”, disse Allen St. Pierre, diretor da Organização Nacional pela Reforma das Leis de Maconha (Norml, da sigla em inglês), um dos principais grupos defensores da legalização da droga nos Estados Unidos e responsáveis pelo recém-inaugurado café, em entrevista ao G1.

“Apesar de Obama dizer ser contra a legalização total da droga, ele pode ser creditado pelas mudanças que relaxam a repressão à maconha medicinal”, disse. O governo dos EUA anunciou em outubro que não vai mais reprimir o consumo de maconha para uso médico nos Estados do país nos quais ele é permitido. Um documento pede aos procuradores para que não usem recursos federais contra "indivíduos cujas ações estão em cumprimento claro e inequívoco das leis estaduais existentes relacionadas ao uso médico da maconha".

Legalização
Para o diretor do grupo, a inauguração do café é um passo adiante no sentido da legalização da maconha. “Cinco anos atrás isso seria muito improvável; há dez anos era impossível e nem se podia pensar nisso há vinte anos. A cada ano há uma aceitação maior de reformas, e este é mais um exemplo”, disse.

Ele admitiu, entretanto, que é difícil imaginar que todo o país vai permitir o uso da droga em pouco tempo, até por questões constitucionais e culturais. Nos Estados Unidos, os Estados podem decidir de forma independente em relação ao uso medicinal de maconha e os governos de Alasca, Califórnia, Colorado, Havaí, Maine, Maryland, Michigan, Montana, Nevada, Novo México, Oregon, Rhode Island, Vermont e Washington autorizam seu consumo nestes casos.

“As coisas estão se desenvolvendo em bases locais, onde há uma aceitação cultural maior”, explicou. Segundo ele, o Norml não vai tentar abrir nenhum café de maconha em locais mais conservadores, como Kansas, Oklahoma ou Geórgia. “A a cultura é mais aberta em locais como Seattle, Portland, Berkeley, Oakland, Sao Francisco, Denver. São partes do país em que os cidadãos aceitam algumas formas de distribuição legal de maconha, ou formação de comunidades em que o consumo é permitido.”

Segundo ele, estes locais são os “laboratórios da democracia”, e a Califórnia, uma das maiores populações e economias do país, pode se tornar um exemplo a ser seguido por outros estados e até pelo governo federal. “A Califórnia está seguindo um caminho reformador no sentido da descriminalização da maconha. Não parece impossível e distante pensar sobre um esquema de controle e taxação até mesmo para o consumo não medicinal da maconha no estado.”

Uso médico e recreativo
Todo o avanço na legislação relacionada ao uso de maconha vem acontecendo com base na lei de cannabis para uso medicinal, pois apenas as pessoas com indicação podem usar a maconha e participar de comunidades em que há o consumo de maconha. Os parâmetros para o uso de maconha medicinal são muito variados, e mudam de um estado para o outro, explicou St. Pierre. Em alguns lugares, há sistemas mais simples e fáceis, enquanto outros têm um controle mais sério.

“No Maine, por exemplo, as pessoas podem ter alguns gramas de maconha seca, além de poderem cultivar cinco pés dela, sendo três em estado de maturidade. Na Califórnia, as pessoas não recebem uma receita médica indicando o uso de maconha, mas apenas uma recomendação oral do médico, e esta recomendação é checada pelos centros que podem fornecer a droga legalmente, registrando o paciente e permitindo que ela tenha acesso à maconha.”

Até a inauguração do bar de Portland, o uso da droga não podia ser feito em locais públicos. O Cannabis Café, tecnicamente um clube privado, é aberto a qualquer residente do estado de Oregon que faça parte do grupo Norml e tenha uma carteira oficial do uso medicinal da maconha - 21 mil pessoas estão registradas desta forma no estado para tratar mal de Alzheimer, diabetes, esclerose múltipla e síndrome de Tourette. Os "sócios" pagam US$ 25 (cerca de R$ 44) por mês para usar o café, que tem capacidade para cem pessoas. Por este valor, eles terão direito a receber a droga gratuitamente de outros usuários. O bar também serve comida, mas nenhum tipo de bebida alcoólica.

Apesar de a discussão legal até o momento se concentrar nos lugares em que há o uso médico da droga, a Califórnia já prepara um avanço na questão, admitindo que os cidadãos votem uma medida que permitiria que as decisões passassem a ser tomadas pelos municípios. Segundo St. Pierre, a cidade californiana de Oakland, que chega a ser conhecida como Oaksterdam, em referência à capital da Holanda, já se prepara para buscar o direito de ser a primeira em que a droga paga impostos e pode ser consumida livremente por qualquer pessoa.

“Os cidadãos de lá já votaram pedindo que a maconha seja taxada e legal, mas é preciso que a lei estadual permita essa decisão. Isso está sendo discutido e vai precisar de uma mudança na lei estadual. Haverá uma consulta na eleição de 2010, para que os cidadãos digam se permitem que municípios possam legalizar o uso de maconha, se quiserem. ‘Oaksterdam’ já está se organizando para isso, mas é o único lugar que esta se estruturando para autorizar o uso recreativo.”

Exemplo holandês
O grupo Norml constantemente usa o exemplo da Holanda como comparação para argumentar a favor da legalização da maconha nos Estados Unidos. A legislação do país europeu permite que alguns lugares credenciados vendam a droga livremente. “Trata-se de um país ocidental com valores parecidos com os norte-americanos que aprendeu há muito tempo que a única relação real entre maconha e drogas pesadas, como heroína, cocaína, é o canal de distribuição. Quando se separam os canais de distribuição, a probabilidade de um consumidor de maconha passar para drogas mais perigosas é reduzido”, argumentou St. Pierre.

Na medida em que relaxou o controle ao uso medicinal da maconha, o procurador-geral dos Estados Unidos, Eric Holder, deixou claro que a polícia e os procuradores continuarão trabalhando para punir os que usarem das leis destes estados para usar drogas ilegais ou traficar drogas.

Daniel Buarque

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Contrapropaganda de guerra

Reportagem publicada no G1 em 21 de novembro de 2009. Resultado de uma mudança de foco de reportagem por conta do gancho, Originalmente, a pauta havia sido pensada como algo voltado especificamente para o terrorismo interno dos Estados Unidos, discutindo o que aconteceu na base de Fort Hood. a discussão a respeito do julgamento dos terroristas e a crítica do entrevistado em relação a ele acabaram mudando o foco e o lide da matéria.

Julgamento do 11/9 é um espetáculo para os terroristas, diz pesquisador

A polêmica decisão de julgar cinco suspeitos de envolvimento nos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 tribunais civis em Nova York pode servir como plataforma para que os terroristas "mostrem ao mundo do que são capazes", segundo Steven Emerson, um dos principais pesquisadores sobre redes de extremismo islâmico nos Estados Unidos.

Em entrevista concedida ao G1, por telefone, Emerson disse concordar com as críticas de políticos republicanos, que acusam a decisão do governo do presidente Barack Obama de ser uma irresponsabilidade capaz de colocar em risco a segurança do país. “O julgamento não vai ser eficiente no sentido de deter este tipo de ação terrorista, e vai servir como espetáculo do radicalismo”, disse Emerson, autor de livros como "Jihad incorporated" e "American Jihad", em que esmiúça o financiamento e o planejamento de ações terroristas.

“Acho que foi uma decisão errada, e um tribunal militar seria muito mais eficiente. Julgar estas pessoas em Nova York vai ser até mesmo perigoso, pois há regras diferentes para o tratamento de provas e evidências, e vai ser dado muito espaço para que os suspeitos se defendam e fujam das acusações contra eles”, disse. Para ele, os acusados podem dizer que tudo o que eles falaram até o momento foi arrancado à força, sob tortura e alegar até mesmo inocência.

O presidente Obama defendeu na quarta-feira (18) o plano de julgar o suposto mentor dos ataques em cortes criminais. Ele considerou que o sistema judiciário dos Estados Unidos será capaz de conduzir os julgamentos e que ao final Khalid Sheikh Mohammed e seus cúmplices, presos em Guantánamo, serão condenados e sentenciados à morte. "Acho que temos de romper essa noção temerosa de que nosso sistema judiciário não pode lidar com esses caras", disse.

Cinco acusados de tramar os ataques que mataram 3 mil pessoas no Wolrd Trade Center e no Pentágono serão transferidos da prisão militar de Guantánamo para um tribunal em Nova York, perto do local onde ficavam as torres atingidas por aviões no atentado, onde serão julgados. Khalid Sheikh Mohammed e os outros quatro suspeitos estavam sendo julgados por comissões militares na base naval norte-americana em Cuba, mas o presidente Obama prometeu transferir alguns casos para tribunais nos EUA e fechar Guantánamo.

Terrorismo interno
Especialista em ações terroristas dentro dos Estados Unidos, Emerson disse na entrevista ao G1 que existe uma mentalidade “jihadista” ativa dentro do país, por mais que ache que muita gente não quer aceitar. “A realidade de radicalismo é muito maior de que o FBI e o governo querem admitir. Isso não quer dizer que todos os muçulmanos são terroristas, muito pelo contrário, pois a grande maioria é pacífica. Mas ainda existe um grande grau de apoio à guerra santa que é capaz de realizar ataques como o que ocorreu na base militar de Fort Hood.”

O psiquiatra militar Nidal Hasan foi indiciado na última semana pelo massacre de 13 pessoas na base militar de Fort Hood, no Texas em 5 de novembro. De origem palestina, ele é acusado de ter deflagrado o tiroteio mais mortífero já registrado em uma base militar americana, que deixou ainda 42 feridos.

Segundo Emerson, o ataque foi uma surpresa, pois o FBI tem conseguido impedir cerca de 99% dos ataques terroristas deste tipo. “Fiquei surpreso na falha em permitir o ataque. O fato de ocorrer um ataque jihadista, por outro lado, não me surpreendeu. Estamos esperando mais ações deste tipo desde 2009, mas o FBI está apenas começando a entender o risco real.”

O combate ao terrorismo dentro do país precisa de mais que ação policial, disse. “É preciso que grupos islâmicos admitam que a jihad existe e trabalhem para deslegitimar este tipo de ação radical. Sem a ajuda de grupos islâmicos dentro dos EUA, atuando junto à comunidade muçulmana, vai ser muito deslegitimar a violência e fazer com que diminua o risco de um ataque dentro dos Estados Unidos.”

Internet
A internet, disse, tem se consolidado como um fator de radicalização, pois contribuiu para um aumento no número de pessoas que querem e podem realizar ataques dentro dos Estados Unidos. De acordo com a investigação do ataque na base do Texas, Hasan se correspondia por e-mails com o imã iemenita radical Anouar al-Aulaqui, suspeito, de acordo com as autoridades americanas, de ter ligações com a al-Qaeda. O imã chamou o assassino de herói após a matança.

“A internet permite que qualquer pessoa contate grupos radicais em qualquer parte do mundo, sem limites. Ela definitivamente radicalizou mais pessoas, pois ofereceu a possibilidade de elas terem contato com o radicalismo sem expor sua identidade, permitindo que eles tenham acesso à mentalidade jihadistas mantendo sua privacidade.”

Uma reportagem publicada na última semana pela revista “Foreign Policy” alega que a internet tem um papel definitivo no que chamam de “lone wolves”, lobos solitários, que seriam os terroristas que agem sozinhos. Através da rede de computadores, eles são cooptados por grupos terroristas, e até treinados para cometer atentados.

Daniel Buarque

Crise de imagem

Texto publicado no G1 em 20 de novembro de 2009. A pauta foi reduzida em função da falta de tempo a fim de aproveitar o gancho dos dez meses de governo. A ideia era buscar explicar a queda na popularidade e esmiuçar os números, mas acabou sendo um relato menor e mais simplificado, trazendo bons gráficos que mostram a queda na popularidade.

Dez meses após assumir a presidência, Obama enfrenta ‘crise’ de popularidade

Em menos de um ano, boa parte da euforia política norte-americana deu lugar à frustração. Há dez meses, em 20 de janeiro, Barack Hussein Obama assumia a Presidência dos Estados Unidos espalhando um clima de festa e esperança entre a população. Ele substituía George W. Bush, que fez um dos governos mais mal avaliados da história do país, e chegava ao poder com índices de aprovação impressionantes. Ao se aproximar de um ano do seu primeiro mandato, Obama continua popular, mas já não tem mais o mesmo apelo, e pouco do seu discurso por “mudança” se concretizou.

A aprovação de Obama mudou de perfil ao longo dos dez meses do seu governo. Depois de assumir com apoio de quase 70% da população do país, o presidente estacionou próximo dos 50%, com algumas pesquisas mostrando índices ainda piores. A queda na aprovação foi acompanhada do aumento da avaliação negativa do seu governo. Antes com números insignificantes, a rejeição já se aproxima dos 50%. Alguns institutos chegam a apontar que ele tem mais rejeição de que apoio.

Pouco mais de um ano após sua vitória nas eleições de novembro de 2008, Obama tem em suas mãos duas guerras abertas, crise econômica e uma série de conflitos políticos para tentar implementar reformas propostas por seu governo. A popularidade inicial era impulsionada pela promessa de fechar no prazo de um ano a prisão de Guantánamo, propiciar um acordo de paz para o Oriente Médio, assim como seus anúncios de que um plano de estímulo conseguiria tirar o país da recessão. Mas essas promessas parecem ter sido mais difíceis de cumprir do que o líder pensava.

Veja abaixo a evolução da aprovação de Obama nos Estados Unidos

Sucesso
Se não consegue manter sua aprovação interna em níveis tão altos quanto no começo do governo, Obama se mantêm forte internacionalmente. O principal reflexo disso pode ser o fato de que o presidente norte-americano ganhou o Prêmio Nobel da Paz de 2009, antes mesmo de alcançar bons resultados na área. A premiação demonstrou que a opinião pública global ainda confia que Obama fará um governo mais pacífico de que o de seu antecessor.

O presidente acrescentou um outro título a sua lista já longa de troféus: foi nomeado a pessoa mais poderosa do mundo em um ranking inaugural feito pela revista “Forbes”. A popularidade de Obama favoreceu a imagem do país diante do mundo, segundo várias pesquisas. A “Forbes” disse que, na compilação do ranking inaugural, reduziu a lista preliminar para 67 pessoas, "número baseado no conceito de que é possível reduzir os 6,7 bilhões de pessoas do mundo a uma em cada 100 milhões que realmente tem importância.O objetivo da compilação desta lista é expor o poder e não glorificá-lo, e, com o tempo, revelar que a influência é tão facilmente perdida quanto é dificilmente conquistada", disse a revista.

Daniel Buarque

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Quebrando novas!!!

Reportagem publicada no G1 em 5 de novembro de 2009. Mudando o ritmo de trabalho de matérias de análises e pesquisas históricas, reportagem "quente", sobre um atentado em base militar dos Estados Unidos. Feita após conversa com brasileiros no local, que entraram em contato com o G1 para dar depoimentos.



Um sistema de alerta geral fez com que muitos soldados e civis da base militar de Fort Hood, no Texas, se trancassem em suas casas e locais de trabalho e não vissem nada a respeito do tiroteio que deixou 12 mortos e 31 feridos nesta quinta-feira (5). Dois brasileiros que estavam na região do ataque contaram ao G1 que tudo já estava mais calmo pouco após o fim do incidente, às 20h30 (horário de Brasília). Segundo eles, a probabilidade de haver algum brasileiro entre as vítimas é pequena.

“Aqui já está tudo mais calmo. Ainda estamos fechados na base, sem que ninguém possa entrar ou sair. Sabemos que um dos mortos é um policial que estava atendendo à chamada e os três atiradores eram soldados, mas ainda não foi divulgado quem eram ou porque fizeram isso. Estamos fechados dentro do prédio, ninguém entra e ninguém sai”, contou o sargento da reserva Francisco Lago, por telefone.

Lago contou que chegou nesta quinta-feira (5) pela manhã à base de Fort hood. Depois de servir o exército por seis anos (entre 1998 e 2004) e de atuar por um ano na Guerro do Iraque, ele atualmente é policial na cidade de Dallas e faz um treinamento anual em Fort Hood. “Coincidiu que hoje era o início do meu treinamento. Cheguei à base pela manhã e não chegamos nem a treinar, pois à tarde aconteceu isso”, disse. Segundo ele, são poucos os brasileiros na base de Fort Hood, e é improvável que algum tenha se ferido. A base continua fechada e não há definições sobre como as atividades vão ser retomadas.

Além de Lago, um casal de mineiros também estava na região do tiroteio e ficou trancado em casa, recebendo informações apenas pela imprensa local. Esposa de um militar que pediu para não ter o nome divulgado, Seviany contou que ficou em casa todo o tempo.

“Recebemos aviso da escola em frente a nossa casa dizendo para fecharmos portas e janelas e ficarmos trancados dentro de casa. Estamos trancados e não sabemos de nada até agora. Eles pedem para ficarmos dentro de casa, e cada hora uma emissora de TV fala uma coisa diferente. Estamos sem poder fazer nada”, contou Seviany ao G1, por telefone.

O casal mora no local há um ano, o marido dela é soldado e eles dizem que é a primeira vez que algo assim acontece, pois o sistema de segurança tem um forte controle de quem entra e quem sai da base. Seviany disse conhecer apenas três brasileiros que moram no posto em Fort Hood. “Aqui não há muitos brasileiros. A maioria é de hispânicos e de norte-americanos”, disse.
Daniel Buarque

sábado, 24 de outubro de 2009

Brazil acadêmico

Reportagem publicada no G1 em 24 de outubro de 2009. Trata-se de uma daquelas pautas que se transformam ao longo da apuração. A princípio, a ideia era buscar nas universidades alguma comprovação para o que parecia um aumento da popularuidade do Brasil, percebida claramente na mídia dos Estados Unidos e da Europa. Ao longo das entrevistas com os diretores de centros de estudos brasileiros em algumas das principais universidades do mundo, apareceu o lead, uma novidade de fato interessante e diferente do que se pensava originalmente.

Antes visto como ‘exótico’, Brasil vira referência em universidades dos EUA

Um dos mais importantes centros de estudos em tecnologia do mundo, o MIT, nos Estados Unidos, deu início aos planos para inaugurar seu primeiro centro de estudos voltado para o Brasil, parte da iniciativa internacional MISTI. O objetivo do projeto é criar grupos de solução de problemas específicos em tecnologia e ciência, e evidencia uma tendência nova para as análises do Brasil nas maiores universidades dos EUA. Em vez de formar os tradicionais brasilianistas, que se debruçavam sobre a realidade histórica, social e cultural do país como um lugar exótico e distante, a academia norte-americana passou a encarar o Brasil como um importante ator global, referência em diferentes assuntos científicos e passando por quase todas as áreas de conhecimento.

Esta nova forma de encarar o Brasil está se disseminando pelos Estados Unidos. A reportagem do G1 entrevistou diretores de centros de estudos sobre o país e a América Latina em Harvard, Stanford, Universidade da Califórnia em Berkeley e MIT (Massachusetts Institute of Technology), universidades que aparecem no topo dos principais rankings de melhores instituições de ensino superior do mundo. Segundo eles, não há dados que comprovem um grande aumento no interesse acadêmico pelo Brasil, mas há uma mudança na abordagem, uma inclusão do país em áreas que antes ignoravam o que acontecia por aqui.

“De fato, houve uma mudança”, explicou Harley Shaiken, diretor do Center for Latin American Studies em Berkeley, por telefone. “Essa é a mais importante nova tendência em estudos brasileiros. Nós incentivamos essa forma de incluir o Brasil em outros estudos mais gerais. Se há uma pessoa trabalhando com energias renováveis, por exemplo, ela pode não ser especialista em Brasil, mas deve haver grupo de pessoas de estudos do Brasil que podem entrar em contato com este pesquisador. E nós tentamos incentivar estes contatos”, disse.

Segundo as universidades ouvidas, esta nova realidade envolve especialmente assuntos relacionados a energia renovável, ambiente, desenvolvimento, sustentabilidade, negócios, e há um grande grupo de pesquisadores que está se especializando em temas que precisam olhar para o Brasil.

Para o paulista Marcio Siwi, que vive nos EUA há dez anos e há dois atua no programa de estudos brasileiros do Centro David Rockefeller de Estudos Latino-Americanos em Harvard, “há temas em que o Brasil virou referência e que atraem muito o interesse de alunos e professores. Pode-se falar em aquecimento global, desenvolvimento sustentável, Amazônia, todos esses assuntos que são importantes para os Estados Unidos elevam a enfocar no Brasil como uma referência. O mesmo acontece nos estudos sobre desigualdade.”

‘Boom’ Brasil
Segundo o diretor do Programa Brasil do MIT, Ben Ross Schneider, mesmo com o surgimento deste e de outros novos centros de estudos sobre o país nos EUA,não há indícios para afirmar que o Brasil vive um momento de maior popularidade na academia norte-americana. Os estudos do Brasil, explicou, são descentralizados, e há programas neste sentido em muitas universidades.

“Eu acabo de mudar da universidade Northwestern, em Chicago, onde há um programa de estudos, que continua existindo. Talvez haja um crescimento, mas é impossível dizer que há uma onda de popularização dos estudos do Brasil. Sempre há centros importantes desses estudos, que mudam de local de tempos em tempos”, disse, em entrevista concedida pelo telefone. Segundo ele, entretanto, pelo menos uma centena de alunos do MIT já demonstraram interesse em participar do grupo que está sendo criado por ele.

Siwi, por outro lado, diz que percebe um certo aumento no interesse dos estudantes de Harvard pelo Brasil. “A quantidade de alunos que demonstram interesse no estudo do idioma português, por exemplo, cresceu muito nos últimos anos, o que gera uma diferença enorme no entendimento de o que é o Brasil e quais as diferenças do país em relação ao resto da América Latina.” Segundo ele, isso é algo que existe em todas as partes dos Estados Unidos.

O mesmo acontece na Califórnia, segundo Shaiken. Em Berkeley, diz, há claramente um aumento no interesse e no número de pesquisas envolvendo o Brasil, mas muito deste crescimento vem das pessoas que não são brasilianistas, mas trabalham assuntos em que o Brasil é um protagonista. “Neste nível há muito mais interesse de que havia no passado. Não é apenas um crescimento contínuo, mas um momento de empolgação com uma gama de ideias e possibilidades que envolvem o Brasil. Isso não significa que o país seja estudado tanto quanto mereça. Acho que trata-se de um país extraordinário em um momento único e é preciso mais estudo e mais atenção. Há muitos assuntos que aproximam pesquisas em diferentes áreas do Brasil, mas não se pode dizer que o número de alunos da universidade que estudam o Brasil triplicou, pois não há dados sobre isso. O crescimento, entretanto, é real.”

Shaiken, de Berkeley, credita a mudança que se percebe a uma maior familiaridade dos norte-americanos com temas relacionados ao Brasil, que vem se tornando menos exótico. “O Brasil está se tornando mais familiar, e há ao mesmo tempo muita admiração por coisas que estão acontecendo no país e críticos. Há uma mistura, mas o Brasil realmente é uma força global e muitos sentidos, e essa emergência faz com que o país seja visto com muito interesse, mas de fato sem parecer exótico.”

Gerações brasilianistas
Para Hebert S. Klein, que dirige o Centro de Estudos Latino-Americanos de Stanford, o que para algumas pessoas aparenta ser um crescimento no interesse é, na verdade, uma demonstração da mudança do perfil dos pesquisadores, e de uma mudança de geração, passando dos brasilianistas que iniciaram trabalho nos anos 1960 para novos acadêmicos que ainda se debruçam sobre a realidade do país.

“Na prática, nós temos uma mudança geracional, mas não há uma mudança relevante no volume de pesquisas sobre o Brasil. Trata-se de um tema sólido na academia norte-americana, bem estabelecido, mas que não tem um crescimento acentuado. Não há um boom, mas uma produção sólida e a geração mais velha vem sendo substituída, mantendo uma regularidade nas publicações sobre o Brasil.”

Segundo ele, no lugar do que querem chamar de “boom”, há um “não-declínio” do tema na academia, apesar da mudança de gerações. “Nessas novas gerações, há pessoas realizando pesquisas interessantes na universidade de Rice, na de Arizona, aqui em Stanford, em Rutgers, na UCLA, são todos pesquisadores em torno dos 40 anos, espalhados pelo país.”

Pesquisador de Harvard, Siwi concorda com esta visão e define o momento alegando que estamos numa época em que se repensa o que é um brasilianista. “Eles existem, vão continuar existindo e são importantes nessas áreas de humanidades. O que vemos agora, entretanto, são cientistas, que seu tema é ciência e que incluem o Brasil em seus trabalhos. Há um professor, por exemplo, que analisa os desafios globais relacionados com a água, e que inclui o Brasil em sua pesquisa, por ser um país muito importante na área. O Brasil está ganhando espaço em áreas que antes não davam atenção ao país.”

Segundo ele, o outro perfil do brasilianista não vai desaparecer, não perde espaço. Mas criou-se espaços novos que antes não existiam.

“Não há um impacto menor em humanidades. Continuamos tendo muitos pesquisadores da área de humanas que mantêm seus trabalhos voltados ao Brasil. Mas há expansão, sim, é muito maior na área de ciências. Não se trata de uma troca, mas do crescimento de áreas que antes eram mais tímidas”, disse Shaiken.

Daniel Buarque

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O que vale é a intenção

Reportagem publicada no G1 em 10 de outubro de 2009. Ronald Krebs, autor de pesquisa sobre história do Nobel da Paz, explica pela primeira vez que neste prêmio, ao contrário dos outros do Nobel, o que vale é a intenção. Entrevista concedida no mesmo dia em que o prêmio foi concedido, mas guardada para entrar como suíte do assunto no dia seguinte.

Nobel pode tirar foco de Obama da política interna, diz sociólogo americano

Apontado como uma grande vitória internacional do presidente dos Estados Unidos, o Prêmio Nobel da Paz conquistado por Barack Obama na sexta-feira (9) pode gerar um problema de política interna para ele nos próximos meses. Segundo a avaliação do sociólogo Ronald Krebs, autor de uma pesquisa sobre a história do Nobel da Paz a ser publicada no fim deste ano, Obama vai ser pressionado a deixar claro que interesses são mais importantes para seu governo, se os dos EUA ou os da comunidade internacional

“O prêmio vai comunicar aos americanos que talvez Obama queira defender mais os interesses da comunidade internacional de que os interesses dos Estados Unidos. Vai se abrir uma linha de ataque sobre esta questão, criando muita pressão sobre seu governo. Ele já mostrou que está preocupado com isso e tem defendido algumas ações militares para mostrar que os EUA vêm em primeiro lugar”, disse Krebs, em entrevista ao G1.

Segundo Krebs, é natural esperar que Obama prove que, para ele, os interesses norte-americanos estão acima dos internacionais, e não deve demorar para ele encontrar uma situação em que possa demonstrar isso de forma clara, por mais que possa surpreender a comunidade internacional. “Ele vai deixar o mundo desapontado, mas é uma situação que foi criada pelo comitê do prêmio Nobel.”

O anti-Bush
Professor na Universidade de Minnesota, Krebs é autor do livro “Fighting for rights: military service and the politics of citizenship” (Lutando por direitos: serviço militar e a política de cidadania) e deve publicar até o fim do ano “A Perilous Prize? The False Promise of the Nobel Peace Prize" (Um prêmio perigoso? A promessa falsa de um Prêmio Nobel da Paz), em que analisa o histórico da premiação e dos escolhidos pelo comitê. Segundo ele, a decisão de apontar Obama como o Nobel da Paz deste ano foi tomada por questões políticas, representando uma ruptura com a Era Bush nas relações entre os Estados Unidos e o resto do mundo.

“A vitória de Obama repete prêmios anteriores do Nobel da Paz, seguindo critérios políticos. É um prêmio que busca mandar uma mensagem clara em defesa de uma causa particular da paz. Ele marca uma linha que rebate as decisões do governo [George W.] Bush. A política externa do segundo mandato do governo Bush criou uma divisão entre os Estados Unidos e o resto do mundo. O Prêmio Nobel visa deixar de lado esta ruptura e mostrar que os dois podem estar juntos novamente.”

Para ele, Obama não teria ganhado nada se tivesse rejeitado o prêmio, como alguns analistas defenderam na mídia dos Estados Unidos. “O discurso de Obama após a premiação teve o tom perfeito. Ele foi modesto e reforçou a idéia de que o Nobel premia uma visão de uma comunidade internacional pacífica. Ele acertou ao defender que o trabalho para que isso seja alcançado seja conjunto.”

Aspiração e conquistas
O próprio laureado pelo Nobel da paz deste ano se disse surpreso, em sua primeira declaração após ter sido escolhido. Obama admitiu não ter um histórico que prove sua luta pela paz, mas disse saber que a premiação tinha ocorrido com expectativas no futuro.

Segundo Krebs, esta é exatamente a mentalidade do comitê do Nobel da Paz. “Nos últimos 30 anos, o comitê usa o prêmio para premiar aspiração, levando adiante um objetivo político específico voltado à paz. Dizer que o comitê vai perder credibilidade é ir contra a história do prêmio. O Prêmio Nobel da Paz há muito tempo prioriza aspiração a conquistas”, disse.

O prêmio Nobel da Paz, explicou, é o único dos prêmios do comitê que defende acima de tudo intenção. “Sempre que se fala nos outros prêmios, como física, medicina, todos os outros, defende-se conquistas e descobertas, o que cria uma expectativa de que o da paz também seja alguém que fez algo de relevante. Mas não o da Paz, que premia a aspiração acima de tudo”, disse, defendendo a escolha de Obama como correta pelos parâmetros do comitê.

Daniel Buarque

Em busca da paz

Reportagem publicada no G1 em 9 de outubro de 2009. No dia em que Barack Obama recebeu o Prêmio Nobel da Paz, era preciso encontrar uma voz dissonante, alguém que discordasse da escolha do comitê norueguês. Voltei a Jerome Corsi, acadêmico que é um dos principais críticos do presidente desde antes da sua eleição. Ele já havia sido entrevistado antes, nos 100 dias de governo de Obama, e foi atencioso na segunda vez que foi procurado para falar ao G1. Pode soar absurda a idéia de que Bush merecia mais o prêmio, mas foi uma das abordagens mais diferentes do assunto no dia da divulgação do Nobel.

Bush merecia o Nobel da Paz mais do que Obama, diz acadêmico conservador

“Minha primeira reação foi de achar que era uma piada.” Ainda chocado com a premiação do presidente Barack Obama com o Nobel da Paz deste ano, um de seus principais críticos dentro da política dos Estados Unidos, o acadêmico conservador Jerome Corsi, disse que precisou checar várias vezes a notícia para ter certeza de que não era uma brincadeira, uma pegadinha. Do seu ponto de vista, a premiação foi puramente política, e uma análise objetiva mostraria que o ex-presidente George W. Bush merecia mais que Obama a premiação.

“George W. Bush poderia merecer o prêmio por libertar pessoas de tiranias. Em termos objetivos, ele tem o mérito de conquistas alcançadas, e mesmo assim foi ignorado pelo Nobel, que só premia líderes que representam a esquerda política. O presidente Obama não fez nada. Ele não teve uma atuação representativa em termos de política internacional. Não conseguiu fazer nada que justifique este prêmio”, disse Corsi, em entrevista ao G1, por telefone. Segundo ele, o prêmio é mais uma reprimenda ao governo de George W. Bush, que é desprezado pelo comitê do Nobel.

“O Nobel tem sido bastante crítico ao ex-presidente, e já premiou Jimmy Carter (ex-presidente dos EUA), Al Gore (ex-vice-presidente dos EUA), e agora Obama, mostrando desdém a Bush. O pior é que Bush teve o mérito de libertar milhões de pessoas da ditadura de Saddam Hussein e do Talibã, e acabou ignorado pelo Nobel”, disse.

'Abominação'
O acadêmico é um dos principais críticos de Obama desde antes da sua eleição, em novembro do ano passado. Antes de os americanos elegerem o primeiro presidente negro da sua história, Corsi publicou um livro em que atacava o então candidato e o frenesi em torno da sua campanha. “The Obama nation” (Nação Obama) lido rapidamente soava como “abomination”, abominação, foi um dos livros mais vendidos no país naquele ano, e foi fortemente rejeitado pela imprensa internacional.

Para Corsi, as críticas que “Obama nation” recebeu quando foi lançado, em agosto do ano passado, foram causadas pelo que chama de “caso de amor” da mídia com Obama. Apesar de ter se tornado rapidamente um dos livros populares, a obra de Corsi foi criticada por quase todas as publicações independentes. “New York Times”, “Los Angeles Times”, Associated Press, “Time”, “Newsweek”, “Guardian”, CNN, “Independent” e Politifact, além de muitas outras publicações, atacaram veementemente o livro como uma obra de propaganda, obra de teoria da conspiração e chamaram o autor de preconceituoso.

Na entrevista concedida após a premiação de Obama com o Nobel, Corsi voltou a citar o chamado “caso de amor”, alegando que ele vai além da mídia internacional. “Estamos vendo a mesma reação de frenesi de esperança e mudança que tomou conta do planeta desde a eleição dele. É um entusiasmo sobre um discurso vago. O mundo projeta em Obama o que se quer que ele seja”, disse.

Enquanto o Nobel premia ele, atacou o acadêmico, “Obama está lidando com uma guerra complicada no Afeganistão, que ele alega ser uma guerra correta, e que pode acabar enviando mais soldados para o conflito, expandindo a guerra. Seria irônico se ele expandisse este conflito e mesmo assim recebesse o prêmio Nobel da Paz.”

Corsi disse acreditar que este prêmio fez o comitê do Nobel perder credibilidade. “Não podemos considerar que a organização que oferece o prêmio faz uma análise objetiva. Eles não levam em consideração a liberação de milhões de pessoas que sofriam com as tiranias no Iraque e no Afeganistão, e premiam Obama simplesmente para realizar um ataque político a Bush. É um grupo que quer mostrar sua opinião política”, disse. “O comitê do Nobel da Paz é completamente político, dominado por setores da esquerda, que expressam desprezo por Bush. Não é um prêmio justificável de forma objetiva após uma análise do governo Obama, pois ainda não há nada de concreto que justifique esta decisão. Seria preciso saber de fato qual é a postura política internacional do presidente, que ainda não ficou clara.”

Daniel Buarque