quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Lista obscura

Texto publicado no G1 em 11 de novembro de 2009. Depois de o entrevistado dizer que apagão é algo comum, foi preciso listar o que já havia ocorrido.

Conheça os maiores apagões da história pelo mundo

Ficar horas sem energia elétrica em pleno século XXI por conta de um blecaute não é um “privilégio” do Brasil. Frequentes em países mais pobres, apagões atingiram recentemente milhões de pessoas nos Estados Unidos, no Canadá e na Europa. O maior dos blecautes recentes, entretanto, aconteceu em 2005, na Indonésia, quando 100 milhões de pessoas ficaram até 12 horas sem energia.

“Blecautes não podem ser totalmente evitados em nenhum lugar do mundo”, explicou, em entrevista ao G1, o pesquisador norte-americano David Nye, que estudou os apagões registrados nos Estados Unidos desde 1935 em uma pesquisa a ser lançada no próximo ano no livro "When the lights went out" (Quando as luzes se apagaram, em tradução livre). Autor de uma dezena de livros sobre tecnologia e energia elétrica, ele diz que a Escandinávia e o Japão são mais eficientes em evitar este tipo de problema. "Um blecaute de até duas horas deveria ser esperado periodicamente. Não importa o quão bem o sistema de transmissão seja desenhado e construído, ele é apenas uma máquina num mundo de falhas técnicas, acidentes e erros humanos ocasionais.”

Veja abaixo alguns dos maiores blecautes já registrados no mundo

EUA e Canadá
1965 - 44 anos antes do apagão que atingiu cerca de 50 milhões de brasileiros, na noite desta terça-feira (10), a população do nordeste dos Estados Unidos e de parte do Canadá vivia um dos blecautes que mais marcaram a história do país. Calcula-se de 30 milhões de pessoas tenham ficado sem energia especialmente em Nova York e em Toronto, em uma época em que o uso da eletricidade crescia rapidamente na região.

O blecaute ocorreu numa hora de pico no consumo de energia em 9 de novembro, próximo da 17h30, e chegou de repente, deixando pessoas presas em elevadores e causando caos no trânsito e no transporte público. O apagão não causou problemas mais graves, entretanto, a os níveis de violência foram mais baixos que a média anual comum em Nova York, por exemplo.

A energia começou a voltar na mesma noite, mas só foi completamente restabelecida em Nova York 14 horas depois do início do apagão. Autoridades levaram seis dias para identificar as causas do blecaute, que foram apontadas como uma falha em uma estação no Canadá, que causou sobrecarga em toda a rede elétrica da região.

2003 - Cerca de 50 milhões de pessoas foram afetadas pelo apagão que atingiu o nordeste dos Estados Unidos e parte do Canadá, que é apontado pela imprensa norte-americana como o maior da história da região. As cidades de Nova York, Detroit, Cleveland e Toronto ficaram às escuras no dia 14 de agosto de 2003. A energia começou a voltar no mesmo dia em algumas regiões do Canadá, mas só foi totalmente restaurada no dia 16. Quatro dias depois do blecaute, algumas cidades mantinham esquemas especiais para transportes públicos com medo de novas quedas de energia.

Assim como no recente apagão do Brasil, demorou até que fossem determinadas as causas do blecaute. A primeira hipótese foi de que uma usina teria sido atingida por raios, depois uma usina nuclear foi responsabilizada, autoridades de EUA e Canadá jogavam a culpa de um lado para o outro. Um relatório conjunto entre os dois países foi finalizado em abril de 2004 apontando uma série de falhas em cascata, incluindo a falta de planejamento e preparo para lidar com crises, como responsável pelo apagão.

Itália
Um dos piores blecautes da história da Europa deixou quase toda a Itália e parte da Suíça sem energia elétrica por nove horas em setembro de 2003. Mais de 50 milhões de pessoas foram afetadas pelo apagão que teve início durante a madrugada, interrompendo uma grande festa de rua que era realizada em Roma. Até o Vaticano foi afetado pela falta de energia elétrica, mas passou a funcionar com o uso de geradores de emergência.

Indonésia
Quase metade da população da Indonésia, um total de 100 milhões de pessoas, foi afetada por um dos maiores blecautes da história. O fornecimento de energia foi interrompido durante a manhã em regiões de Bali e Jakarta, e só retornou à noite para 80% da população. O apagão na Indonésia foi causado por um problema na linha de transmissão no oeste de Java, e causou o interrompimento do fornecimento em várias outras áreas.

Argentina
Mesmo sem ter registrado nenhum apagão de proporções gigantescas quanto o da noite de terça-feira (10) no Brasil, vários pequenos blecautes têm ocorrido no país vizinho nos últimos anos, o que acontece, segundo o jornal local "Clarín" por falta de investimentos públicos no setor.

Em 2006, 228 mil usuários do sistema elétrico de Buenos Aires ficaram sem energia elétrica por quase 24 horas após um incêndio em uma subestação. No ano seguinte, um apagão na capital argentina atingiu nove bairros e 168 mil pessoas em março, e um outro de quase 24 horas, ocorreu dois meses depois. Ainda em 2007, 75% da população de Bariloche ficou 16 horas sem energia elétrica.

Venezuela
Praticamente metade da Venezuela, incluindo a capital, Caracas, ficou sem energia elétrica por pelo menos uma hora em abril de 2008 devido a uma falha no sistema nacional de distribuição. Pelo menos 13 estados foram afetados e a situação voltou lentamente ao normal. Uma pane no sistema de transmissão 800 produziu uma falha em cadeia. O problema afetou a linha de transmissão vinda da represa hidroelétrica de Guri (sudeste), a maior da Venezuela, que alimenta grande parte do país, e uma das três maiores do mundo.

Colômbia
Um grande apagão deixou sem eletricidade por mais de duas horas cerca de 70% da Colômbia em abril de 2007, incluindo a capital Bogotá e outras grandes cidades. Uma falha técnica em uma subestação de energia perto de Bogotá foi a causa do problema. Dezenas de pessoas ficaram presas em elevadores de Bogotá (7 milhões de habitantes), as estações do metrô tiveram que ser evacuadas em Medelín (2 milhões de habitantes), e os sinais de trânsito pararam de funcionar nas principais cidades, segundo o Corpo de Bombeiros.

Daniel Buarque

Escuridão

Reportagem publicada no G1 em 11 de novembro de 2009. Apurada de casa, na manhã após o apagão que impressionou e atingiu boa parte do Brasil. Boa fonte para energia, com teses interessantes e bastante conhecimento sobre blecautes.

Além do susto, apagão pode trazer boas lembranças, diz pesquisador de blecautes

Quando as luzes se apagaram em grande parte do Brasil na noite desta terça-feira (10), coube ao rádio, único meio de comunicação disponível à maior parte das pessoas em meio ao blecaute, alertar para os riscos de se ficar nas ruas. O rádio chegou a transmitir recomendações do governo para que as pessoas não saíssem de casa para evitar a possível violência.

Blecautes paralisam a maior parte dos alarmes contra roubo, causam caos no trânsito, permitem que criminosos atuem de forma mais fácil, mas, segundo o pesquisador norte-americano David Nye, também podem ter efeitos positivos para a sociedade. "A segurança é baseada na energia, mas um blecaute também revela como pessoas se tornaram isoladas por conta dos sistemas elétricos. Quando a TV, o som e o computador não funcionam, elas descobrem que têm vizinhos", disse, em entrevista ao G1.

Nye estudou os apagões registrados nos Estados Unidos desde 1935 em uma pesquisa a ser lançada no próximo ano no livro "When the lights went out" (Quando as luzes se apagaram, em tradução livre). Professor na Universidade do Sul da Dinamarca, ele tem mais de uma dezena de livros publicados acerca de tecnologia e energia elétrica. Ele concedeu entrevista por e-mail na manhã desta quarta, dizendo ter lido sobre o blecaute brasileiro pela imprensa internacional, mas sem ter detalhes sobre as causas dele.

Segundo Nye, apagões funcionam como uma "porta de entrada" que é empurrada pela sociedade e leva a uma situação completamente nova. "As pessoas podem ajudar umas às outras, podem decidir saquear lojas, podem começar uma festa nas ruas, ou apenas ficar em casa pacientemente esperando que ele termine. Muitas vezes vemos que as pessoas passam a conhecer seus vizinhos enquanto lutam para resolver os problemas advindos do blecaute, criando uma solidariedade surpreendente. No caso de um grande blecaute em Nova York em 1965, a maior parte das pessoas lembra dele como uma experiência positiva. A criminalidade foi mais baixa do que o normal, e milhões de pessoas foram às ruas e se divertiram."

Prejuízos
O pesquisador admite, entretanto, que há fortes consequencias economicas e políticas para um país por conta de apagões. "Os custos econômicos de um blecaute são maiores do que a maior parte das pessoas percebe. Particularmente em qualquer indústria em que os computadores sejam usados para organizar e monitorar a produção, ou em escritórios em que a informação é armazenada eletronicamente." Segundo ele, mesmo quando os apagões são esperados, como o que aconteceu no Brasil por conta do abastecimento insuficiente no passado, as perdas são imensas.

Dependência
Nye explicou que as cidades industriais são dependentes demais de eletricidade, e que a tendência é de radicalização desse cenário. "Não há alternativa rápida, para o curto prazo. É tecnicamente possível, no entanto, criar um sistema energético menos centralizado, para encorajar as pessoas a produzirem parte da sua própria energia com matrizes eólicas e solares, além de ter sistemas de reserva para serviços essenciais, se tornando menos dependente de um único fornecedor."

Após sua pesquisa sobre os sistemas elétricos nos Estados Unidos e em países da Europa, ele diz que o que impressiona na verdade não é a ocorrência de apagões, mas a raridade com que eles ocorrem.

"Um blecaute de até duas horas como este deveria ser esperado periodicamente. Não importa o quão bem o sistema de transmissão seja desenhado e construído, ele é apenas uma máquina num mundo de falhas técnicas, acidentes e erros humanos ocasionais. Normalmente, quando um blecaute termina, todos começam uma 'caça às bruxas' para identificar o responsável. A ideia parece ser a de que ter este sistema elétrico gigantesco funcionando é perfeitamente normal e que qualquer defeito é um erro inaceitável. Mas nada vai funcionar 24 horas por dia para sempre. Quanto mais eu estudo isso, mais me impressiono com o fato de que a maioria desses sistemas funcionem bem quase todo o tempo."

Segundo Nye, blecautes não podem ser totalmente evitados em nenhum lugar do mundo, mas sua frequencia varia muito. "Na Escandinávia, onde vivo, acontecem poucos e eles duram pouco tempo", disse. O Japão também tem um bom histórico em evitar apagões. Os Estados Unidos têm mais blecautes de que a Europa por uma série de motivos, explicou. O primeiro é que o clima nos EUA é mais violento. Há mais tornados, furacões, tempestades de gelo.

"Outra razão é que o sistema norte-americano é mais velho, pois o país se tornou completamente eletrificado mais cedo. Uma falha em apenas um componente em qualquer lugar do vasto sistema pode, na teoria, causar uma cascada de falhas que espalha de uma fonte a outra."

O problema é o aumento nas ligações elétricas. Se as luzes falhassem na década de 1960, por exemplo, o impacto seria muito menor, pois a infraestrutura não penetrava em áreas tão diferentes da vida, e muitos equipamentos não eram elétricos. "As pessoas ainda usavam máquinas de escrever, or exemplo, e o sistema de memória era baseado em papel em pastas classificadas. A forma de se tornar menos vulnerável seria ter mais sistemas de reserva, para que, por exemplo, todos os hospitais e aeroportos tenham geradores de emergência para suprir a falta de energia quando há problemas. Melhor ainda seria se nem tudo fosse ligado a um gigantesco sistema nacional de energia - esta é uma escolha baseada em escala econômica - mas toda a economia alcançada em eficiência por ter um único grande sistema pode se perder rapidamente se todo o sistema cair."

Centralização no Brasil
Analisando especificamente o caso brasileiro, mas sem se comprometer com especulações a respeito do apagão da terça-feira, Nye responsabilizou a centralização da distribuição pela extensão do blecaute. "Vocês estão dependendo muito de uma grande hidrelétrica, um sistema de transmissão longo está levando muita energia para as maiores cidades do país, e qualquer interrupção tem efeitos drásticos. Imagine, por outro lado, se o Brasil dependesse de 20 grandes usinas de gás e carvão espalhadas pelo país. As chances de mais de uma delas ter problemas ao mesmo tempo seriam bem menores. Mas o Brsil colocou uma quantidade grande de ovos em um único cesto."

Considerando a velocidade em que o abastecimento de energia se regularizou e o horário em que ocorreu o blecaute, Nye disse achar válida a explicação de que o mau tempo pode ter causado a falha.

"Imagino que o que aconteceu no Brasil foi que uma tempestade jogou árvores contra linhas de transmissão próximas à usina. Se este for o caso, deve ser possível fazer todo o sistema voltar ao ar rapidamente. Se o problema tivesse acontecido em outro horário, poderia ter uma explicação diferente. Um blecaute às 17h30, por exemplo, poderia ter sido causado por uma sobrecarga, e é o tipo de defeito que o Brasil provavelmente vai voltar a enfrentar com uma frequencia maior. Apagões após as 21h, como o de ontem, normalmente são mesmo causados pelo clima."

Ele disse que o cenário catastrófico de grandes cidades ficarem dias sem energia pode acontecer (e aconteceu) dependendo da causa do apagão. Ele citou o caso de Nova Orleans após a passagem do furacão Katrina, quando a cidade ficou dias sem energia elétrica."Blecautes causados por furacões ou fortes tempestades podem derrubar linhas de transmissão e demorar dias. Isso pode levar a dificuldades reais, como foi registrado em Nova Orleans após a passagem do Katrina. Os apagões mais comuns, entretanto, acontecem em áreas rurais, afetando um número menor de pessoas, muitas das quais são até acostumadas com a experiência de viver sem eletricidade.

Daniel Buarque

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Uma nova história

Reportagem publicada em 8 de novembro de 2009, a última de minha autoria na série especial do G1 sobre os 20 anos da queda do Muro de Berlim, escrita após duas boas e lognas entrevistas com pesquisadores da história do socialismo.

Duas décadas após queda do muro, comunismo se mantém vivo como utopia

Maior símbolo do fim da Guerra Fria e do conflito entre Estados Unidos e União Soviética, a queda do muro de Berlim já foi apontada por historiadores como o “fim da história”, um momento de triunfo incontestável do capitalismo. Vinte anos após o colapso do bloco soviético, entretanto, pesquisadores do socialismo apontam que a utopia continua viva e que há ao menos cinco países no mundo atual seguindo a cartilha do comunismo, ainda é vista como símbolo de esperança.

A queda do muro de Berlim foi um momento muito simbólico do fim do comunismo na Europa, mas não acabou com o comunismo no mundo, explicou o cientista político britânico Archie Brown, professor da Universidade de Oxford e autor de “Rise and Fall of communism” (‘Ascensão e queda do comunismo’, livro de quase 800 páginas que deve ser lançado em breve no Brasil). “Existem 5 países comunistas no mundo atual. China, Vietnã, Laos, Coreia do Norte e Cuba”, disse, em entrevista ao G1.

A manutenção dos sistemas ligados ao comunismo, entretanto, passou por diferentes processos de adaptação para sobreviver às duas últimas décadas. Enquanto os três primeiros países citados caminharam no sentido de ter uma economia de mercado, os outros dois se mantiveram fechados ao resto do planeta. “A China especificamente não pode mais ser considerada um pais comunista economicamente, mas politicamente, sim, pois ainda mantém o monopólio do poder sob o partido comunista, hierarquia e centralismo. O país mais stalinista e fechado é a Coreia do Norte.”

O motivo de o socialismo ter sobrevivido ao fim da União Soviética, que apoiava os regimes similares em vários países, é o desejo de buscar o “mundo perfeito”, a utopia, segundo o historiador Richard Pipes, autor de “O comunismo” e mais de 20 outros livros sobre história da Rússia e da união Soviética. Segundo ele, entretanto, a prática não consegue seguir o modelo sem restrição de liberdades, o que acaba fazendo o sistema não funcionar.

“O ideal socialista é utópico e sempre sobrevive, pois as pessoas gostam de acreditar que é possível. Não concordo que seja possível na prática, e por isso um sistema comunista sempre vai fracassar em algum momento. Os sistemas sobrevivem apenas com mão de ferro, retirando as liberdades e descobrimos que as pessoas sofrem dentro desses sistemas, o que tira a credibilidade”, explicou, em entrevista ao G1, reiterando que as pessoas gostam de acreditar que a utopia é possível. O mesmo ponto foi reforçado pelo pesquisador inglês, que argumenta que o socialismo continua existindo como ideologia da esperança.

Teoria e Prática
Sob o aspecto da adaptação dos regimes e da busca por esta utopia, Brown explicou que nunca houve na prática política um regime que seguisse as propostas comunistas conforme pensadas por Karl Marx e por Lênin. “Marx e Lênin detalharam muito pouco sobre o sistema político e as instituições que existiriam em um pais socialista, o que deixou muitas questões em aberto. Os países tiveram que desenvolver suas próprias instituições. Mesmo assim pelo que vimos nas tentativas comunistas na prática não pareciam nada com os ideais propostos originalmente.”

Nas entrevistas, os dois historiadores enfatizaram a importância de diferenciar os regimes ditatoriais comunistas e o socialismo dito “light”, suave, implementado em países da Europa por grupos da social-democracia.

“Precisamos diferenciar comunismo de socialismo, pois o segundo pode estar incluído em democracias, como a social-democracia, enquanto o primeiro, não. A Europa teve muitos governos social-democratas. No comunismo, não se permitem vozes contrárias ao regime”, disse Pipes.

Brown detalhou que o socialismo pode funcionar em algumas sociedades democráticas, desenvolvendo projetos de forma paralela e funcional. “No comunismo, não, a democracia não funcionaria, e sempre que se tentou adaptar isso, o regime caiu. O socialismo em social-democracias tem avançado até hoje na Europa, como aconteceu até na Espanha. São ideologias que têm menos intervenção estatal, mas buscam uma maior igualdade, e que podem ser consideradas exemplo de esperança”, disse.

Segundo Brown, o ponto mais alto do comunismo, entre a ascensão e a queda do bloco soviético, ocorreu logo antes do rompimento entre China e URSS, entre o fim dos anos 1950 e o começo dos 60. “Aquilo enfraqueceu o comunismo no mundo. Até o inicio dos anos 70, pode ser considerado o auge da União Soviética, pois tinha um poderia militar equivalente ao dos Estados Unidos, podendo destruir o capitalismo tanto quanto os EUA poderiam destruí-la. O problema é que era preciso que o regime destruísse a si mesmo, como aconteceu, e não adiantaria o governo do ocidente tentar derrotar o leste pela força.”

Chávez e Obama
Além dos cinco países citados como exemplos de comunismo no mundo atual, dois outros movimentos políticos recentes chamam a atenção dos pesquisadores. Por um lado, há o exemplo venezuelano, em que o presidente Hugo Chávez propõe a implementação do que chama de bolivarianismo, ou socialismo do século XXI. Por outro, nos Estados Unidos, nação símbolo da vitória do capitalismo, o presidente Barack Obama passou o primeiro ano do seu governo sendo atacado por setores mais conservadores da oposição republicana como se estivesse tentando implementar o socialismo no país.

Para Pipes, que pesquisou mais a fundo os exemplos de comunismo na Europa, o que Chávez está fazendo é implementar um regime socialista, comunista tradicional. “Não há nada de século XXI no que ele está fazendo e trata-se de um experimento que só funciona porque ele tem acesso a grandes quantidades de petróleo. Sim, é um regime de ideal comunista que se tenta implementar na Venezuela.” Ele ressaltou que as economias comunistas e socialistas normalmente não são muito funcionais, mas o venezuelano consegue manter o país por causa da receita gerada pelo “ouro negro”, que mantém a economia.

Quanto ao exemplo norte-americano, “é absurdo dizer que Obama é socialista”, disse o cientista político britânico. “Socialismo se tornou um xingamento dos conservadores norte-americanos, por isso ele é chamado dessa forma. Ele não é socialista por ter ajudado o capitalismo a se recuperar, foram essas ações que chamaram de socialista, mas é muito pelo contrário. É verdade que ele é um presidente mais à esquerda, mas não chega a ser socialista.”

Mais crítico, Pipes disse acreditar, sim, que o presidente dos Estados Unidos tem tendências socialistas, mas admitiu ser impossível implementar um projeto desse tipo no país. “Obama é um tanto socialista. Ele acredita que a igualdade social é mais importante de que a liberdade. É difícil provar isso, mas seus discursos e seu histórico devoto no senado indicam que ele provavelmente simpatiza com o socialismo. Ele não vai conseguir aprovar um programa socialista, entretanto, pois a sociedade não aceitaria, tanto que ele está perdendo apoio nos EUA.”

Continuação da história
A sobrevivência do socialismo e as mudanças no planeta nas últimas duas décadas se voltaram contra a tese do historiador Francis Fukuyama de que se havia chegado ao Fim da História com a queda do Muro de Berlim. Em entrevista ao G1, o pesquisador britânico Frederick Taylor, autor de “Muro de Berlim”, uma das obras mais completas sobre o assunto, defendeu a tese de Fukuyama de que a solução marxista fracassou, mas apontou os rumos para a “continuação da história”.

“A queda do muro representou a vitória do capitalismo, que parecia um triunfo final em que todo o mundo rumava na mesma direção. Não acho que isso seja mais verdade 20 anos após a queda do muro. Fukuyama estava certo, entretanto, ao dizer que o comunismo tinha perdido, e a solução marxista para o mundo havia fracassado, fazendo com que qualquer solução para o mundo precisasse vir da proposta capitalista. Não sei dizer se isso é verdade no longo termo. Ele ignorou o que a China mostrou recentemente, que é possível ter uma ditadura comunista ser bem sucedida como um país industrial capitalista. Isso é novo e único.”

Mesmo sem uma alternativa comunista e prática, os pesquisadores indicaram que os rumos do capitalismo também estão se transformando em várias partes do mundo. O sistema que “triunfou” há duas décadas passou por mais uma profunda crise nos últimos meses e mesmo não correndo risco de ser derrotado, está buscando uma face mais moderna e adaptada também à “esperança” de que tratava a utopia coumunista.

Daniel Buarque

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Sob o gelo

Reportagem publicada no G1 em 6 de novembro de 2009, parte da série especial sobre as duas décadas da queda do Muro de Berlim. Resultado de boas entrevistas com alguns dos mais relevantes pesquisadores do tema, que mostram que o fim da guerra fria também trouxe efeitos negativos.

Queda do Muro de Berlim trouxe desenvolvimento, mas também terrorismo

A Alemanha e o mundo estão em festa neste mês, comemorando o vigésimo aniversário da queda do Muro de Berlim. Apontado como o símbolo da repressão sofrida pela população sob o domínio soviético, o muro ruiu em 1989 como consequência da ação dos movimentos sociais.

Apesar de ser verdade que o mundo todo avançou de forma impressionante nas duas últimas décadas nas áreas política, econômica, social e tecnológica, o fim da separação das Alemanhas, símbolo do encerramento da Guerra Fria, também representou mudanças ruins para o planeta, dando margem ao surgimento de redes globais de terrorismo que, na época da Guerra Fria, seriam impensáveis.

Duas décadas já seriam suficientes para que o mundo tivesse passado por muitas mudanças desde a queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989. O que esse evento isolado significou, entretanto, foi que o planeta deixou de lado a polarização entre comunismo e capitalismo que vivia durante a Guerra Fria, esquecendo o risco eminente de destruição global por uma guerra nuclear e encarando uma nova realidade em que “tudo é possível”, segundo historiadores ouvidos pelo G1.

“A Guerra Fria era uma força muito conservadora para o mundo”, explicou, por telefone, o pesquisador britânico Frederick Taylor, autor de “Muro de Berlim”, uma das obras mais completas sobre o assunto. “Depois que o murou caiu, o ‘gelo derreteu’ revelando coisas belas, mas também carcaças monstruosas que estavam escondidas e existem claramente no mundo atual. O fim da Guerra Fria representou por um lado o surgimento de Nelson Mandela e o fim do apartheid na África do Sul, mas por outro lado fez surgir Osama bin Laden e a al-Qaeda.”

O terrorismo da al-Qaeda, de certa forma, explicou, é um reflexo do fim da Guerra Fria. “Durante o conflito entre capitalismo e comunismo, não haveria espaço para que nada deste tipo se espalhasse. As grandes potências da época controlariam o crescimento de qualquer movimento mais radical, que não chegaria à força de Bin Laden”, disse.

Segundo Taylor, durante a Guerra Fria, União Soviética e Estados Unidos se ameaçavam o tempo todo e tinham suas áreas de proteção geopolítica, mas os dois mantinham a ordem global, evitando a destruição mútua que sabiam ser possível, e deixando o mundo em uma certa ordem estabelecida. Atualmente, isso não existe mais, e qualquer coisa é possível. “Ninguém é capaz de controlar todo o mundo, e tudo pode acontecer. A queda do muro faz com que tudo seja possível, o bom e o ruim.”

O historiador norte-americano Jeffrey Engel vai mais longe em sua análise dos efeitos negativos do fim da Guerra Fria. Segundo ele, o conflito ofuscava todos os outros problemas internacionais e regionais e evitava que guerras se consolidassem de forma global. “Com o fim do confronto entre EUA e URSS, estes movimentos tiveram espaço para entrar em ebulição, criando tensão internacional, permitindo a globalização do terrorismo”, disse, em entrevista por telefone.

Durante a Guerra Fria, explicou o autor de “The Fall of the Berlin Wall” (A queda do Muro de Berlim, sem edição em português), sobre o legado revolucionário daquele ano, seria impensável qualquer conflito independente da Guerra Fria e mesmo qualquer ação norte-americana contra o terror no Oriente Médio. “Na primeira Guerra do Golfo, por exemplo, foi preciso que os russos permitissem a ação da coalizão liderada pelos EUA no Oriente Médio, região onde eles tinham muita força durante a guerra fria”, disse, lembrando ainda que eram os soviéticos que se envolviam em ações no Afeganistão até a dissolução do país comunista.

Desenvolvimento no Brasil
Entre os efeitos positivos do fim da Guerra Fria, os historiadores apontam para o Brasil como um exemplo marcante. Em 1989, quando caiu o muro e o bloco soviético, o Brasil elegia um presidente de forma direta pela primeira vez desde 1961 (mesmo ano em que o muro foi erguido), uma nova Constituição havia sido promulgada um ano antes, e o país, que saía de 20 anos de ditadura, entrava numa nova era social econômica e política.

“O fim da Guerra Fria fez com que o Brasil conseguisse se tornar mais autosuficiente, se desenvolver de forma independente tanto na política quanto na economia. Enquanto existia o muro isso talvez não fosse possível, pois a preocupação com a influência soviética faria com que os Estados Unidos não permitissem que o Brasil fizesse nada sozinho”, disse o historiador inglês.

Segundo Engel, que é professor na Universidade do Texas A&M, todos os acontecimentos globais, mesmo os do Brasil, até 1989, podem ser vistos como reflexo do conflito entre capitalismo e comunismo. “A Guerra Fria influenciou todos os acontecimentos no mundo entre 1945 e 1991. É impossível entender qualquer desenvolvimento internacional no período sem pensar no confronto entre EUA e URSS. A liberalização no Brasil se deu após o fim da guerra fria, e isso aconteceu em vários outros países, pois seriam impossíveis em um mundo dividido como era.”

Considerando que o capitalismo “venceu” a disputa com o comunismo, mas que ainda enfrenta problemas internos, perceptíveis em crises como a recessão vivida atualmente em muitos países, Taylor diz que Brasil, assim como no Chile e na Argentina, criaram um modelo de capitalismo com preocupação social que pode ir além da já tradicional social-democracia europeia e que podem ser o futuro deste sistema econômico.

“Os exemplos de Brasil, Chile e talvez da Argentina são muito mais interessantes como propostas de projetos que conseguem aliar o desenvolvimento capitalista com um pensamento voltado para o lado social, de apoio a populações mais pobres. A própria Alemanha desenvolveu uma forma de capitalismo social que não precisa seguir exatamente o modelo americano de capitalismo totalmente livre, mas algo mais humano e igualitário. O modelo sul-americano me parece um dos mais prósperos na atualidade.”

Daniel Buarque

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Quebrando novas!!!

Reportagem publicada no G1 em 5 de novembro de 2009. Mudando o ritmo de trabalho de matérias de análises e pesquisas históricas, reportagem "quente", sobre um atentado em base militar dos Estados Unidos. Feita após conversa com brasileiros no local, que entraram em contato com o G1 para dar depoimentos.



Um sistema de alerta geral fez com que muitos soldados e civis da base militar de Fort Hood, no Texas, se trancassem em suas casas e locais de trabalho e não vissem nada a respeito do tiroteio que deixou 12 mortos e 31 feridos nesta quinta-feira (5). Dois brasileiros que estavam na região do ataque contaram ao G1 que tudo já estava mais calmo pouco após o fim do incidente, às 20h30 (horário de Brasília). Segundo eles, a probabilidade de haver algum brasileiro entre as vítimas é pequena.

“Aqui já está tudo mais calmo. Ainda estamos fechados na base, sem que ninguém possa entrar ou sair. Sabemos que um dos mortos é um policial que estava atendendo à chamada e os três atiradores eram soldados, mas ainda não foi divulgado quem eram ou porque fizeram isso. Estamos fechados dentro do prédio, ninguém entra e ninguém sai”, contou o sargento da reserva Francisco Lago, por telefone.

Lago contou que chegou nesta quinta-feira (5) pela manhã à base de Fort hood. Depois de servir o exército por seis anos (entre 1998 e 2004) e de atuar por um ano na Guerro do Iraque, ele atualmente é policial na cidade de Dallas e faz um treinamento anual em Fort Hood. “Coincidiu que hoje era o início do meu treinamento. Cheguei à base pela manhã e não chegamos nem a treinar, pois à tarde aconteceu isso”, disse. Segundo ele, são poucos os brasileiros na base de Fort Hood, e é improvável que algum tenha se ferido. A base continua fechada e não há definições sobre como as atividades vão ser retomadas.

Além de Lago, um casal de mineiros também estava na região do tiroteio e ficou trancado em casa, recebendo informações apenas pela imprensa local. Esposa de um militar que pediu para não ter o nome divulgado, Seviany contou que ficou em casa todo o tempo.

“Recebemos aviso da escola em frente a nossa casa dizendo para fecharmos portas e janelas e ficarmos trancados dentro de casa. Estamos trancados e não sabemos de nada até agora. Eles pedem para ficarmos dentro de casa, e cada hora uma emissora de TV fala uma coisa diferente. Estamos sem poder fazer nada”, contou Seviany ao G1, por telefone.

O casal mora no local há um ano, o marido dela é soldado e eles dizem que é a primeira vez que algo assim acontece, pois o sistema de segurança tem um forte controle de quem entra e quem sai da base. Seviany disse conhecer apenas três brasileiros que moram no posto em Fort Hood. “Aqui não há muitos brasileiros. A maioria é de hispânicos e de norte-americanos”, disse.
Daniel Buarque

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O tempo passa

Infográfico publicado no G1 em 4 de novembro de 2009. traz os dez fatos internacionais mais relevantes ocorridos no período em que o Muro de Berlim estava de pé.

Veja os fatos mais importantes ocorridos no mundo quando o muro existia



terça-feira, 3 de novembro de 2009

Divórcio alemão

Reportagem publicada no G1 em 1º de novembro de 2009, abrindo uma série especial sobre os 20 anos da queda do muro de Berlim. Baseada em livros sobre o tema, ela explica como ocorreu a separação da cidade alemã que se tornou símbolo da Guerra Fria.

'Operação Rosa’ levou apenas 5 horas para dividir Berlim com arame farpado

A construção do Muro de Berlim, que dividiu fisicamente a principal cidade da Alemanha por 28 anos e se consolidou como maior símbolo da Guerra Fria, pegou de surpresa quase todas as pessoas que teriam as vidas transformadas por ele a partir do dia 13 de agosto de 1961.

O mundo começa nesta semana a celebrar os 20 anos da queda do Muro, que marcou a reunificação da Alemanha e o fim da Guerra Fria.

Uma operação ultrassecreta de codinome “Rosa”, comandada pelo Birô Político do lado oriental, levou apenas cinco horas para fechar completamente as fronteiras internas da cidade, proibindo a circulação entre as zonas ocidentais e a área sob influência da União Soviética.

Tudo foi feito sob sigilo, durante a madrugada de um domingo, para que não houvesse reação dos berlinenses ou dos Estados Unidos, maior potência que fazia oposição aos soviéticos. Além dos envolvidos na operação, ninguém foi informado sobre decisão de fechar as fronteiras, e mesmo os que viam a instalação das cercas de arame farpado que mais tarde se tornariam um muro de concreto achavam improvável que o fechamento fosse definitivo.

Às 6h da manhã, enquanto a cidade dormia, era finalizada a primeira parte da operação que bloqueava 81 pontos de cruzamento e 193 ruas que atravessavam a fronteira, bem como os sistemas de transportes públicos. A cidade de 4 milhões de pessoas, que havia sido dividida de forma teórica após a Segunda Guerra Mundial, mas que na prática funcionava até então como um único organismo urbano, acordou cortada ao meio, separando famílias, amigos, casais e afastando trabalhadores dos seus empregos e estudantes de suas escolas. O dia ficou conhecido como “o domingo do arame farpado”.

O governo da República Democrática da Alemanha (RDA, o lado oriental) havia mobilizado 10 mil homens para garantir a segurança e evitar protestos após o fechamento da fronteira. À exceção de pequenos ataques de jovens do lado ocidental e de protestos menores do lado oriental, não chegou a haver confrontos violentos, nenhuma reação radical. Pego igualmente de surpresa, o governo norte-americano preferiu evitar o enfrentamento, permitindo que o lado socialista concluísse sua operação.

Contra desertores
A partir da operação “Rosa”, o objetivo era fechar a fronteira de 164 quilômetros em torno da Berlim Ocidental, ilha capitalista dentro da RDA. A antiga capital da Alemanha havia sido dividida entre os vencedores da Segunda Guerra Mundial, assim como o resto do país. Apesar de estar dentro do setor soviético, metade da cidade estava sob influência ocidental, vivendo num regime mais democrático e capitalista de que o restante da RDA.

Por mais que o lado ocidental fosse o alvo prático das cercas que mais tarde se tornariam um muro de concreto, a população oriental, no lado comunista, é que acabou se tornando prisioneira do regime.

Segundo o historiador britânico Frederick Taylor, autor de “Muro de Berlim”, obra que narra em detalhes, e quase 600 páginas, a história da separação da cidade alemã e da Guerra Fria, este era o principal objetivo da separação.

Para os líderes do lado comunista, diz, era preciso interromper o fluxo de pessoas que fugiam definitivamente para o lado ocidental em busca do capitalismo que se desenvolvia lá, ou evitar a ação de “atravessadores de fronteiras”, que trabalhavam do lado ocidental de viviam na economia socialista oriental. Um mês antes da separação de fato, uma média de mil pessoas do leste passavam, por dia, para o oeste de Berlim, ritmo que diminuiria a população do lado socialista em meio milhão de habitantes em apenas um ano.

O que era visto como uma busca por uma vida mais digna pelo Ocidente era chamado “deserção” pela Alemanha Oriental, reflexo de um tráfico de seres humanos. A migração se dava porque, apoiada pelas potências capitalistas, a Alemanha Ocidental se desenvolvia muito desde o fim da guerra e tinha maior qualidade de vida, enquanto a Oriental vivia o que era considerado o equivalente socialista de uma recessão, com a economia mantida artificialmente com apoio soviético.

Durante o “domingo do arame farpado” e depois que a fronteira foi fechada definitivamente pelo muro de concreto, as deserções passaram a ser punidas com severidade, e os guardas da fronteira tinham permissão para atirar contra os alemães orientais que tentavam fugir. Dados oficiais dizem que a média de mil fugitivos por dia caiu para 28 na noite do domingo, 41 no dia seguinte e casos muito isolados desde então.

Guerra Fria
Desde o fim da Segunda Guerra, Berlim havia se consolidado como o principal palco de atuação das maiores potências em confronto durante a Guerra Fria. A cidade era usada como área em que Estados Unidos e União Soviética testavam suas políticas internacionais, pressionando o adversário e estudando a resposta inimiga.

Bem antes da separação com cercas de arames farpados e da construção do muro, Berlim Ocidental já tinha sofrido as conseqüências de um maior desenvolvimento econômico. O crescimento industrial de todo o lado ocidental era alto, chegando à ordem de 15% ao ano nos anos 1950, mas, antes disso, ainda em 1948, a área de influência de EUA, Inglaterra e França adotou uma nova e mais forte moeda, o marco alemão. Em resposta, em 24 de junho, um dia depois da reforma monetária, os soviéticos bloquearam todas as vias de acesso à cidade.

O Bloqueio de Berlim foi um dos primeiros eventos de grande relevância da Guerra Fria. Todas as ligações ferroviárias e rodoviárias para a cidade de dois milhões de habitantes (do lado ocidental) foram cortadas, e até o abastecimento de energia elétrica foi interrompido. Os governos ocidentais, entretanto, abraçaram a causa dos berlinenses como símbolo do bloco capitalista do conflito não-declarado contra os comunistas.

Evitando abrir uma guerra contra a União Soviética, iniciaram uma enorme operação aérea para abastecer a cidade usando aviões. Em pouco tempo, mais de 70 mil toneladas de alimentos eram desembarcadas nos aeroportos do lado ocidental de Berlim por mês, o que aumentou a admiração pelos Estados Unidos na cidade, e aproximou o Ocidente da Alemanha. O bloqueio durou menos de um ano, mas foi o primeiro sinal da divisão que a cidade enfrentaria até novembro de 1989, quando o muro de Berlim foi derrubado e deu início à reunificação da Alemanha.

Daniel Buarque