segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Run, run, run

Reportagem publicada no G1 em 30 de janeiro de 2009. Parte da série sobre brasileiros no exterior, conta da façanha do corredor que foi de um canto a outro dos Estados Unidos a pé em menos de dois meses. Entrevista feita por telefone após o fim da prova, mas ainda quente o suficiente para se tornar assunto da séria.

Corra, Carlos! Corra!

Carlos Dias está longe de ter o raciocínio lento, mas seu ritmo e seu fôlego nas pistas com certeza lembram o já clássico personagem-título do filme “Forrest Gump”, interpretado por Tom Hanks. A certa altura do filme, Forrest decide começar a correr sem parar e cruza mais de 5 mil quilômetros de um canto ao outro dos Estados Unidos assim, correndo.

Dias é autor de uma façanha parecida: em menos de dois meses, Dias foi de Nova York à Califórnia, percorrendo 5.130 quilômetros no total, uma média de 84 quilômetros por dia a uma velocidade máxima de 10 km/h para controlar o ritmo, chegando a passar 20 horas sem parar correndo. Foram 59 dias até completar a rota no início deste mês. "Chegamos um dia antes do programado”, contou ao G1.

“As pessoas me lembram do filme a cada minuto. A diferença é que no filme ele não tinha sentido naquilo que fazia, eu tinha um sentido de completar o percurso e de ajudar uma instituição de apoio a crianças com câncer”, disse. Para a empreitada, ele pôs à venda suas milhas, oferecendo parte do arrecadado para o Graac. “Vendemos poucas, mas conseguimos pelo menos puxar um pouco de repercussão, chamando a atenção para o Graac. A intenção era gerar benefícios para outras pessoas, e não buscar nada para mim. Hoje minha sensação é de dever cumprido.”

Formado em administração, Dias conta que já corre provas de longa distância há 16 anos, já completou mais de 74 maratonas e fez travessias, como em 2007, quando foi do Oiapoque ao Chuí, extremos norte e sul do Brasil, em 100 dias, batendo o recorde. Morador de São Bernardo do Campo, ele hoje vive de realizar provas, dar palestras e organizar corridas, parecendo buscar desafios diferentes de cada vez. “Foi a primeira vez que essa rota de uma ponta a outra dos EUA foi feita por um ultramaratonista”, disse.

No filme, Forrest Gump corre por três anos, dois meses, 14 dias e 16 horas - se seguisse o mesmo ritmo de Dias, teria feito 20 vezes o percurso de um canto ao outro do país.

De Leste a Oeste
O planejamento do percurso era detalhado e incluiu bateria de exames e treinamento. Toda a rota já estava traçada desde o começo e previa seguir sempre pela rodovia 80. No segundo dia correndo, entretanto, a polícia disse que eles não podiam seguir por ali, a não ser de carro. “Eles nos orientaram e seguimos pelas estradas paralelas da 80. Só no colorado que precisamos dar uma variada por causa das montanhas.”

A maior dificuldade enfrentada foi a mudança do clima, que é constante. “Deixamos Nova York com muito calor, pegamos chuva na Pensilvânia, vento no Nebraska, neve no Colorado, calor no deserto, mais neve em Nevada e mais calor na Califórnia. Administrar isso, a roupa certa no momento certo para melhorar o desempenho, é bem difícil”, contou.

Encontrar um lugar para dormir, depois da mudança da rota, era um desafio diário, mas também fonte de algumas das experiências que o maratonista considera das mais interessantes. “As pessoas foram entrando no nosso projeto, nos recebendo na casa deles, fomos fazendo amigos, ganhando novas famílias por todo o trajeto até chegar na Califórnia. Viajei achando que o norte-americano era frio e nada solidário, mas vi o oposto, pois eles nos ajudavam. Tivemos só coisas boas. Tinha gente que parava na estrada e convidava para ir à cada deles. Isso foi a coisa mais legal, e foi bem diferente do que há no Brasil.”

Dias afirma que não chegou a pensar em desistir em momento algum, mas logo no início, depois de entrar em Indiana, estava muito cansado e achava que não conseguiria completar a prova dentro do cronograma programado. “É preciso ser paciente o tempo todo, mesmo cansado física e mentalmente. Tentava controlar a ansiedade.”

A concentração era muito grande e ele terminava exausto no final do dia. “Não dava para conhecer as cidades nem nada, mas dava para conhecer pessoas, conversar, melhorar o inglês. Hoje eu conheço os EUA mais de que muitos americanos, pois passamos por mais de 700 cidades, percebemos as mudanças culturais, as paisagens, as comidas, tudo o que muita gente não conhece.”

Dias agora vai fazer treinamento para novas provas a partir de abril, quando pretende correr quatro desertos: na Austrália, depois Nepal, Namíbia e Vietnã. “No segundo semestre quero correr uma maratona por dia por seis meses, girando o Brasil, saindo do Rio de Janeiro e finalizando em São Paulo.” Como o personagem do cinema, ele também não para depois de chegar no ponto final da prova corrida.

Daniel Buarque

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Furious five!

Infográfico publicado no G1 em 27 de novembro de 2009, parte da cobertura especial sobre a diplomacia brasileira e a busca por um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.

Quase relevante

Reportagem publicada no G1 em 27 de novembro de 2009. Trata da importância das Nações Unidas, do seu Conselho de Segurança e das chances de o Brasil copnseguir a almejada vaga de membro permanente. O gancho para a publicação era o atribulado ano da diplomacia brasileira e o lançamento do livro sobre os "cinco poderosos", nos Estados Unidos. Boa entrevista com pesquisador que entende do assunto e da relação interncaional brasileira.

Ação em Honduras pode ajudar Brasil a entrar 'de vez' no Conselho de Segurança

Ação em Honduras, convite a líderes do Oriente Médio para visitar o país, negociação com Estados Unidos, críticas à Colômbia, apoio à entrada da Venezuela no Mercosul. O ano de 2009 está sendo movimentado para a política externa do Brasil. O país vem tentando se comportar como um importante ator global, o que reforça sua popularidade internacional e pode ajudá-lo a se tornar um membro permanente no Conselho de Segurança, mais importante órgão da Organização das Nações Unidas.

O comportamento brasileiro nesses casos pode, entretanto, ter efeitos dúbios, ajudando por um lado e gerando potencial para atrapalhar por outro, segundo a análise de David Bosco, um pesquisador norte-americano especialista na história do importante conselho da ONU. Segundo ele, entretanto, o Brasil está agindo da maneira certa ao aproveitar o momento global perfeito para parecer uma nação sensata e equilibrada em meio às principais disputas.

O caso de Honduras, em que o Brasil interveio contra o golpe de Estado de junho e deu abrigo para que o presidente deposto, Manuel Zelaya, voltasse ao país, é bem emblemático de como o país pode fazer amigos por um lado e criar desconfiança por outro, explicou em entrevista ao G1.

“Hospedar Zelaya fez com que o Brasil ganhasse a admiração da maior parte dos membros da ONU, pois golpes de Estado vêm se tornando muito pouco populares. A questão é saber se os Estados Unidos concordam com a ação”, disse. Para o Departamento de Estados dos EUA, o abrigo a Zelaya dentro da embaixada pode não ter sido tão positivo, pois eles vêm como um maior risco para violência. A crítica a golpe de estado pode então aproximar mais membros da ONU como um todo, mas ser olhada com desconfiança pelos EUA.

No fim das contas, vai ser preciso saber como a questão vai ser solucionada para poder avaliar o resultado da diplomacia brasileira. “A situação em Honduras vem mudando muito desde o golpe, e vai ser preciso saber como as coisas vão caminhar para uma solução e de que forma a ação do Brasil pode ter ajudado na estabilização do país. Isso pode trazer um resultado ainda melhor.”

Chances reais
Autor de “Five to Rule Them All: The UN Security Council and the Making of the Modern World” (Cinco para comandar todos os outros: o Conselho de Segurança da ONU e a formação do mundo modern), livro que acaba de ser nos Estados Unidos, Bosco é professor de política internacional na Universidade American, em Washington DC e pesquisou a importância do Conselho de Segurança na estrutura internacional do planeta desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Segundo ele, faz sentido para o Brasil a busca por um assento permanente no conselho, e as chances de conseguir isso são reais.

“No começo das discussões sobre a criação da ONU, Franklin D. Roosevelt, presidente dos EUA, queria que o Brasil fosse um membro permanente e tentou convencer os outros países, mas os britânicos e soviéticos não concordaram. O Brasil foi considerado como um membro permanente desde o começo, e eles reconhecem o país como uma das economias mais importantes do mundo, se destacando ainda mais agora com as Olimpíadas. Os países do CS reconhecem o Brasil como uma potência. O Brasil vai estar no topo dos países que vão ser considerados para se tornar membros permanentes”, disse ao G1.

Segundo o pesquisador, além do Brasil, outros países que têm chances são a Índia e o Japão, mas este último com forte oposição da China, que pode fazer o país não conseguir. “Os outros membros permanentes vão se sentir confortáveis com o Brasil estando lá, o que faz com que a missão do país seja mais fácil.”

Ele diz que uma mudança no formato do Conselho de segurança é esperada, só não se sabe exatamente os termos em que isso vai acontecer. Em algum ponto no futuro, diz, haverá uma mudança na estrutura do CS, incorporando novos membros permanentes, mas sem permitir que mais países tenham poder de veto. “É provável que alguns membros permanentes sejam aceitos, mas não acho que a Assembleia Geral vá oferecer mais poder de veto a algum país. A única mudança é que esses membros vão fazer parte permanentemente, o que é muito importante no sentido de ter uma influência maior, um conhecimento e uma familiaridade com os procedimentos do CS.”

Poder e veto
Segundo Bosco, é importante considerar o fato de que o poder de veto não é mais tão usado quanto foi no passado. Durante a Guerra Fria, a União Soviética e os EUA usavam este poder muito frequentemente, mas, desde o fim do conflito, o número de vetos caiu significativamente. “Isso se tornou um tabu, algo negativo, que deveria ser evitado. É provável que os atuais membros permanentes mantenham seu poder de veto, mas usem cada vez menos, enquanto o CS pode passar a incorporar novos membros permanentes sem este poder.”

A dificuldade em mudar o Conselho de Segurança está no fato de que é preciso ter o apoio dos cinco países membros permanentes e de dois terços dos 192 países da Assembleia Geral. “Nos últimos dez anos, a assembleia se comprometeu em fazer um plano para mudar o CS, mas eles não conseguem chegar a um acordo. O problema é que não há consenso entre todos os membros da ONU sobre o formato desta reforma. Enquanto não houver um acordo neste sentido, com a maior parte dos países da ONU concordando, as coisas vão ficar paradas. Os membros permanentes estão felizes com as coisas paradas, pois isso mantém o status deles.”

Enquanto o órgão das Nações Unidas não muda, os membros temporários figuram com importância estatística, mas sempre de forma coadjuvante. Por um lado, têm importância em algumas situações, pois são necessários nove votos para passar qualquer decisão no CS, e mesmo que os cinco membros permanentes queiram decidir alguma coisa, precisam de apoio de mais quatro votos entre os temporários, pois o poder deles é de veto, não de imposição.

“Na prática, entretanto, o que importa é o que os membros permanentes decidem. Se os cinco países concordam em algo, fica difícil para os outros membros bloquearem a decisão, pois são cinco países muito poderosos, e é difícil imaginar uma coalizão de outros países para fazer oposição”, explicou. Se há uma divisão entre os membros permanentes, entretanto, os temporários podem se tornar mais importantes. “Isso foi percebido nos meses antes da guerra no Iraque, quando EUA e UK estavam disputando o apoio geral com França e Rússia.”

Bosco nega que a invasão do Iraque contra a indicação da ONU e do CS tenham minado a importância das Nações Unidas. “É verdade que muita gente achou que a guerra no Iraque faria com que o CS se tornasse irrelevante, mas a realidade é que o governo Bush, após a invasão do Iraque, e o governo Obama, estão buscando seus principais objetivos através do Conselho de segurança.”

Os dois exemplos mais claros disso são a questão nuclear no Irã e na Coreia do Norte, que são pontos centrais dos interesses norte-americanos. “O que se vê geralmente na história do CS é que ele tem altos e baixos, sendo irrelevante em algumas crises e muito importante em outras. Neste exato momento, diria que ele é muito relevante, e que a guerra no Iraque não o afetou como algumas pessoas esperavam.”

Daniel Buarque

Futuro agora!

Entrevista publicada no G1 em 27 de novembro de 2009. Primeiro ping pong em muito tempo. Apesar de ter sido uma entrevista rápida, pelo telefone, foi possível abordar a maior parte dos assuntos relacionados ao Brasil, que segundo o criador dos BRIC, já está se tornando o país do presente.

Mudança de mentalidade faz Brasil virar ‘país do hoje’, diz criador da sigla Bric

No Brasil, o “futuro” está se transformando em “hoje”. Segundo o criador do termo Bric, acrônimo inventado em 2001 para prever que o grupo formado por Brasil, Rússia, Índia e China como a maior economia do mundo em 2050, o país está deixando de ser apenas uma promessa e se constituindo como potência real.

Em entrevista concedida ao G1, por telefone, o economista britânico Jim O’Neill, diretor de pesquisa do grupo Goldman Sachs, disse que a mudança na mentalidade da população brasileira nos últimos anos é impressionante e foi a melhor surpresa que ele teve desde que começou a pensar sobre o tema. Ele ressaltou a importância da continuidade que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu à política de controle da inflação no país e alegou que é preciso continuar o trabalho após as eleições de 2010.

Leia abaixo a íntegra da entrevista, em que o economista fala ainda de China, redução de emissão de gases, relações internacionais e do susto que tomou ao ver a revista “Economist” colocar o Brasil em sua capa.

G1 - O Brasil é sempre visto como o país do futuro. Quando vai se tornar o país do presente?
Jim O’Neill -
O Brasil está finalmente se tornando o país do hoje. Acredito que Lula precisa ser visto como o melhor tomador de grandes decisões políticas desta década. O que mudou foi a mentalidade de todos os brasileiros. Nos primeiros cinco ou seis anos após a criação do termo, sempre que ia ao Brasil as pessoas me perguntavam por que o “B” estava ali? E chegavam a dizer que era uma piada. Como as pessoas não acreditavam no Brasil, era um desafio fazer a inflação ser manter baixa e estável. Graças ao presidente Lula e ao Banco Central, claro, eles conseguiram isso até agora, o que é particularmente impressionante por causa da crise internacional.

Agora, percebo claramente que muitos brasileiros pensam de forma diferente. Quando fui ao Brasil pela última vez, há algumas semanas, percebi que os brasileiros podem planejar para o futuro no longo prazo com uma confiança razoável. Isso é o que mudou.


G1 - A eleição no próximo ano representa um risco para a economia brasileira?
O’Neill -
Preciso admitir que quando vi a “Economist” há duas semanas, aquilo me assustou, pois a revista se tornou famosa nos últimos 25 anos por ocasionalmente entender as coisas realmente de forma muito errada. Por muitos anos, a “Economist” questionava a presença do B em Bric, e de repente eles fazem um especial de 18 páginas sobre o Brasil. Isso é assustador.
As pessoas me diziam, em 2001, que uma das razões pelas quais a idéia de BRIC era loucura era porque o governo Lula seria um desastre. Essa idéia estava espalhada em todo o mundo. Agora o que as pessoas me dizem é que não há riscos na próxima eleição, o que acho bobagem. Vamos perder Lula que foi uma parte importante de tudo isso e não sabemos quem vai vencer nem quais vão ser suas políticas. A eleição é uma fonte de risco e é importante que o Banco Central continue sendo independente, e se torne ainda mais. Acima de tudo, o Brasil precisa começar a reduzir os gastos do governo.

G1 - A criação da ideia de Bric tem alguma influência sobre isso, pode ter ajudado o Brasil a se desenvolver?
O’Neill -
Não. Gostaria de pensar que sim, mas sou suspeito, já que se trata de uma criação minha. Mas sei que a criação do termo forçou as pessoas a pensarem sobre o Brasil, incluindo o próprio povo brasileiro. Em alguns sentidos, a criação dos Bric mudou a minha própria vida, já que se tornou algo tão grande. Mas acho que o que me deixa mais feliz desde que a ideia surgiu é o Brasil, pois é onde houve a maior mudança em termos de mentalidade.
G1 - Quando a idéia de BRIC foi criada em 2001, Lula ainda não era presidente. O senhor diz que ele é importante, mas não foi ele que começou este caminho de crescimento, então?
O’Neill -
Não, não começou com ele. A razão pela qual o Brasil chamou a atenção foi por conta da luta contra a inflação. O país tinha uma grande população e estava trabalhando com foco na inflação. A razão de Lula ser tão importante é que as pessoas achavam que ele ia interromper isso, mas ele não o fez, e deu continuidade.

G1 - Como o crescimento dos Bric vai afetar as relações internacionais? Os EUA vão aceitar o crescimento dos outros países, sendo inclusive superado pela China? O’Neill - Isso passa dos limites da minha responsabilidade normal, mas claro que penso sobre isso. Em alguns termos, acho que os EUA querem que a China tenha mais responsabilidade e envolvimentos internacionais. O crescimento da China é muito autocentrado, eles não parecem ter nenhuma visão muito forte política ou militar em relação ao resto do mundo. Não parecem ter as mesmas ambições e responsabilidades que os EUA. Acabei de passar algumas semanas lá, e isso é muito claro, e não parece mudar. Com o crescimento, a China vai precisar se tornar mais importante internacionalmente. É peculiar, mas a China não tem os mesmos instintos globais que os EUA.

Esta é mais uma razão pela qual a criação do G20 é saudável. Ela cria um fórum em que uma vez por ano os maiores líderes políticos vão se encontrar para discutir este tipo de coisa.

G1 - Que impacto a decisão chinesa de reduzir as emissões de carbono (anunciada na quinta-feira) pode ter sobre a economia global?
O’Neill -
Passei o dia inteiro analisando o anúncio da China e acho que é uma decisão surpreendente. Se acreditarmos no que eles estão dizendo, pode mudar o padrão da demanda de longo prazo de petróleo e combustíveis fósseis.

A dúvida que fica no ar agora é em relação à resposta da Índia. Em nossa pesquisa sobre os BRIC, em nossa projeção de longo prazo, entre 40% e 50% da demanda de energia do mundo nos próximos 40 anos vêm da Índia e da China. Se a china estiver realmente se comprometendo em diminuir as emissões e adotar energia renovável, trata-se de uma decisão muito, muito grande.

Dada a força do Brasil em energia renovável, isso pode ser ainda mais encorajador para a economia brasileira. É um desenvolvimento muito importante e pode significar que a China vai começar a aceitar uma diminuição no crescimento do seu PIB em nome de uma maior preocupação com a qualidade do desenvolvimento.

É algo que no longo termo pode ser favorável ao desenvolvimento. Minha primeira reação é de que pode ajudar a desenvolver o país, pois mostra que a China percebeu que vive uma situação crescente de problemas e limitações internos, que tem efeitos negativos na qualidade das suas commodities.

Daniel Buarque

Entre crescimento e aquecimento

Texto publicado no G1 em 26 de novembro de 2009. Foi por coincidência que a entrevista marcada na véspera foi feita no mesmo dia em que a China anunciou o corte nas emissões de carbono. O gancho serviu para que fosse publicado no mesmo dia um aperitivo da entrevista, focando a questão chinesa e a influência dela na economia global. A notícia quente do dia, entretanto, reduziu o tamanho da entrevista, que durou apenas 15 minutos.

Anúncio chinês de corte de CO2 é surpreendente, diz criador do termo Bric

A decisão da China de anunciar metas de contenção de emissões de gases-estufa é surpreendente e pode significar que o país vai começar a aceitar uma diminuição no crescimento do seu PIB em nome de uma maior preocupação com a qualidade do desenvolvimento. A avaliação é de Jim O’Neill, criador do termo Bric e diretor de pesquisa do grupo Goldman Sachs, em entrevista ao G1.

O acrônimo imaginado por O’Neill reúne Brasil, Rússia, Índia e China, as quatro principais nações emergentes do mundo. O país asiático declarou nesta quinta-feira (26) que vai, “voluntariamente”, reduzir entre 40% e 45% sua emissão de dióxido de carbono (CO2) por unidade de PIB até 2020, na comparação com os níveis de 2005.
Dúvida agora é qual será a reação da Índia

“Passei o dia inteiro analisando o anúncio da China e acho que é uma decisão surpreendente”, afirmou o economista. “Se acreditarmos no que eles estão dizendo, pode mudar o padrão da demanda de longo prazo de petróleo e combustíveis fósseis.”

Em sua avaliação, a dúvida “que fica no ar agora” é qual será a reação da Índia. “Em nossa projeção de longo prazo sobre os BRIC, entre 40% e 50% da demanda de energia do mundo nos próximos 40 anos vêm da Índia e da China.”

Ainda segundo O’Neill, a adoção de energia renovável pela China em larga escala, se confirmada, pode ser um grande estímulo para a economia brasileira, “dada a força do país em energia renovável”.

Daniel Buarque

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Legalize it!

Reportagem publicada no G1 em 24 de novembro de 2009, uma semana após a inauguração do primeiro local público em que se pode fumar maconha livremente nos Estados Unidos. Em entrevista, o diretor do grupo responsável pelo Cannabis Café discute a influência de Obama e a abertura legal para a droga no país.

Com Obama na Presidência, EUA se tornam mais tolerantes com maconha

O café inaugurado na última semana na cidade de Portland, nos Estados Unidos, comporta entre 30 e 40 pessoas ao mesmo tempo. Lá dentro, funciona uma espécie de “mercado de pulgas”, em que as pessoas podem vender, trocar e consumir livre e legalmente o produto que as reúne ali: maconha.

A exemplo do que acontece nos tradicionais coffee shops da Holanda, o Cannabis Café é o primeiro lugar em que os usuários da droga podem se reunir e consumi-la sem risco de ter problemas com a polícia, contanto que haja um registro da necessidade uso por motivos medicinais. Seu surgimento está sendo considerado pelas organizações que lutam pela descriminalização da maconha como um dos principais avanços recentes no país, um reflexo de maior tolerância por parte do governo do presidente Barack Obama.

“Sem dúvida o governo Obama tem ajudado nosso trabalho. Houve uma mudança clara e absoluta de política e interpretação da lei”, disse Allen St. Pierre, diretor da Organização Nacional pela Reforma das Leis de Maconha (Norml, da sigla em inglês), um dos principais grupos defensores da legalização da droga nos Estados Unidos e responsáveis pelo recém-inaugurado café, em entrevista ao G1.

“Apesar de Obama dizer ser contra a legalização total da droga, ele pode ser creditado pelas mudanças que relaxam a repressão à maconha medicinal”, disse. O governo dos EUA anunciou em outubro que não vai mais reprimir o consumo de maconha para uso médico nos Estados do país nos quais ele é permitido. Um documento pede aos procuradores para que não usem recursos federais contra "indivíduos cujas ações estão em cumprimento claro e inequívoco das leis estaduais existentes relacionadas ao uso médico da maconha".

Legalização
Para o diretor do grupo, a inauguração do café é um passo adiante no sentido da legalização da maconha. “Cinco anos atrás isso seria muito improvável; há dez anos era impossível e nem se podia pensar nisso há vinte anos. A cada ano há uma aceitação maior de reformas, e este é mais um exemplo”, disse.

Ele admitiu, entretanto, que é difícil imaginar que todo o país vai permitir o uso da droga em pouco tempo, até por questões constitucionais e culturais. Nos Estados Unidos, os Estados podem decidir de forma independente em relação ao uso medicinal de maconha e os governos de Alasca, Califórnia, Colorado, Havaí, Maine, Maryland, Michigan, Montana, Nevada, Novo México, Oregon, Rhode Island, Vermont e Washington autorizam seu consumo nestes casos.

“As coisas estão se desenvolvendo em bases locais, onde há uma aceitação cultural maior”, explicou. Segundo ele, o Norml não vai tentar abrir nenhum café de maconha em locais mais conservadores, como Kansas, Oklahoma ou Geórgia. “A a cultura é mais aberta em locais como Seattle, Portland, Berkeley, Oakland, Sao Francisco, Denver. São partes do país em que os cidadãos aceitam algumas formas de distribuição legal de maconha, ou formação de comunidades em que o consumo é permitido.”

Segundo ele, estes locais são os “laboratórios da democracia”, e a Califórnia, uma das maiores populações e economias do país, pode se tornar um exemplo a ser seguido por outros estados e até pelo governo federal. “A Califórnia está seguindo um caminho reformador no sentido da descriminalização da maconha. Não parece impossível e distante pensar sobre um esquema de controle e taxação até mesmo para o consumo não medicinal da maconha no estado.”

Uso médico e recreativo
Todo o avanço na legislação relacionada ao uso de maconha vem acontecendo com base na lei de cannabis para uso medicinal, pois apenas as pessoas com indicação podem usar a maconha e participar de comunidades em que há o consumo de maconha. Os parâmetros para o uso de maconha medicinal são muito variados, e mudam de um estado para o outro, explicou St. Pierre. Em alguns lugares, há sistemas mais simples e fáceis, enquanto outros têm um controle mais sério.

“No Maine, por exemplo, as pessoas podem ter alguns gramas de maconha seca, além de poderem cultivar cinco pés dela, sendo três em estado de maturidade. Na Califórnia, as pessoas não recebem uma receita médica indicando o uso de maconha, mas apenas uma recomendação oral do médico, e esta recomendação é checada pelos centros que podem fornecer a droga legalmente, registrando o paciente e permitindo que ela tenha acesso à maconha.”

Até a inauguração do bar de Portland, o uso da droga não podia ser feito em locais públicos. O Cannabis Café, tecnicamente um clube privado, é aberto a qualquer residente do estado de Oregon que faça parte do grupo Norml e tenha uma carteira oficial do uso medicinal da maconha - 21 mil pessoas estão registradas desta forma no estado para tratar mal de Alzheimer, diabetes, esclerose múltipla e síndrome de Tourette. Os "sócios" pagam US$ 25 (cerca de R$ 44) por mês para usar o café, que tem capacidade para cem pessoas. Por este valor, eles terão direito a receber a droga gratuitamente de outros usuários. O bar também serve comida, mas nenhum tipo de bebida alcoólica.

Apesar de a discussão legal até o momento se concentrar nos lugares em que há o uso médico da droga, a Califórnia já prepara um avanço na questão, admitindo que os cidadãos votem uma medida que permitiria que as decisões passassem a ser tomadas pelos municípios. Segundo St. Pierre, a cidade californiana de Oakland, que chega a ser conhecida como Oaksterdam, em referência à capital da Holanda, já se prepara para buscar o direito de ser a primeira em que a droga paga impostos e pode ser consumida livremente por qualquer pessoa.

“Os cidadãos de lá já votaram pedindo que a maconha seja taxada e legal, mas é preciso que a lei estadual permita essa decisão. Isso está sendo discutido e vai precisar de uma mudança na lei estadual. Haverá uma consulta na eleição de 2010, para que os cidadãos digam se permitem que municípios possam legalizar o uso de maconha, se quiserem. ‘Oaksterdam’ já está se organizando para isso, mas é o único lugar que esta se estruturando para autorizar o uso recreativo.”

Exemplo holandês
O grupo Norml constantemente usa o exemplo da Holanda como comparação para argumentar a favor da legalização da maconha nos Estados Unidos. A legislação do país europeu permite que alguns lugares credenciados vendam a droga livremente. “Trata-se de um país ocidental com valores parecidos com os norte-americanos que aprendeu há muito tempo que a única relação real entre maconha e drogas pesadas, como heroína, cocaína, é o canal de distribuição. Quando se separam os canais de distribuição, a probabilidade de um consumidor de maconha passar para drogas mais perigosas é reduzido”, argumentou St. Pierre.

Na medida em que relaxou o controle ao uso medicinal da maconha, o procurador-geral dos Estados Unidos, Eric Holder, deixou claro que a polícia e os procuradores continuarão trabalhando para punir os que usarem das leis destes estados para usar drogas ilegais ou traficar drogas.

Daniel Buarque

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Tchau, Radar!

Reportagem publicada no G1 em 22 de novembro de 2009. A pauta a respeito do novo sistema de controle aéreo vinha sendo adiada para conseguir a entrevista, Seria uma reportagem menor, não fosse a avaliação do pesquisador do MIT de que a tecnologia poderia ter evitado um dos maiores acidentes aéreos da história do Brasil.

Sistema de controle aéreo sem radar é testado nos EUA

Um sistema de monitoramento de aviões que não usa radar está sendo testado pela primeira vez nos Estados Unidos, abrindo caminho para a implementação de um controle de tráfego aéreo mais moderno, barato e seguro. A tecnologia usa informações de satélite e está sendo aplicada no estado do Colorado. Ela permite que os controladores e os próprios pilotos saibam a localização exata de todas as aeronaves dentro da mesma região.

Em entrevista ao G1, o diretor do Centro Internacional de Transporte Aéreo do MIT (Massachusetts Institute of Technology), John Hansman, explicou o funcionamento deste novo sistema. Segundo ele, esta ferramenta vai tornar voos mais seguros, e poderia ter evitado o acidente com o Boeing 737 da Gol, que matou 154 pessoas em 2006, ao cair no Mato Grosso após um choque com um jato Legacy durante o voo.

"Este sistema poderia ter evitado o acidente. Em primeiro lugar, os controladores aéreos teriam um conhecimento melhor das posições dos aviões e, em segundo, os próprios aviões poderiam ver suas posições, e saber que havia uma aproximação evitando o choque", explicou.

O novo sistema deve ser implementado em todas as regiões dos Estados Unidos até 2020. Ele funciona através da emissão de sinais das aeronaves, que são medidos por sensores espalhados em terras e em outros aviões, sendo determinada a localização exata delas, explicou. "Os aviões sabem onde eles estão através de informações de seus próprios sistemas de navegação, como o GPS. Com este novo sistema, eles enviam uma mensagem para todos que estão dentro de um raio específico, informando esta posição. E qualquer avião que esteja próximo desta aeronave pode saber a posição dele em relação à sua, numa tela dentro da cabine de comando", disse.

Além disso, completou, desde o chão, o controle de tráfego aéreo pode trabalhar usando um rádio normal, que é mais simples e barato, que decodifica a informação em um display semelhante ao de radar. “Do ponto de vista do controle aéreo, esta tecnologia é a próxima geração do monitoramento, que é como se mede a localização das aeronaves.”

Monitoramento
Desde os anos 1950, o radar é a base dos sistemas de controle aéreo usados no mundo, servindo para evitar colisões e ordenar o tráfego de aeronaves. Apesar de choques entre aeronaves serem raros, a autoridade norte-americana de aviação alega que o radar tem limitações técnicas que levam a atrasos nos voos em todo o país. Os sistemas com base em informações enviadas por satélites podem oferecer informações mais exatas e corrigir este problema, permitindo um intervalo menor entre pousos em um mesmo aeroporto.

Além de ser mais exato, o sistema em teste atualmente tem um custo muito mais baixo de que o da construção de radares, que são caros e dificilmente podem ser construídos por toda a parte. Segundo uma reportagem publicada no jornal "USA Today", o sistema em teste em todo o estado do Colorado custou o mesmo que a contrução de apenas um radar em aeroporto.

“É um sistema que pode ajudar muito países grandes como o Brasil, que tem um território tão grande. É difícil ter radares em todos os lugares do país, mas com este sistema se torna muito barato, usando apenas equipamentos de rádio mais simples, ter as mesmas informações que se conseguiria com radares”, disse Hansman. Segundo ele, em alguns anos o Brasil também poderá começar a testar o novo sistema, que pode logo se espalhar pelo país.

Sem panaceia
O professor do MIT explicou, entretanto, que este sistema não vai corrigir todos os problemas da aviação no mundo, mas apenas tornar mais fácil o monitoramento, permitindo saber a localização exata dos aviões a cada momento. Segundo ele, esta tecnologia não faria diferença se estivesse em funcionamento na época em que o voo AF 447 caiu no Oceano Atlântico enquanto ia do Rio de Janeiro para Paris.

“No caso do acidente da Air France, seria impossível saber onde o avião desapareceu. O problema é que rádios convencionais não vão tão longe, e quando se está a algumas centenas de milhas no oceano, não se tem comunicação direta. Rádio normal só segue em linha reta e por conta da curvatura da terra, quando se passa de uma certa distância, seria preciso olhar através do chão para encontrar a aeronave, como as onda de rádio não passam pela terra, é impossível.”

O especialista em aviação explicou que o novo sistema de monitoramento de tráfego aéreo é uma das principais tecnologias em desenvolvimento na atualidade. Segundo ele, também está sendo trabalhado um sistema comunicação automática de dados entre o avião e os controladores. “Temos uma versão crua disso em alguns aviões, mas precisamos atualizar isso, que na verdade é um sistema de troca de emails entre a aeronave e o controle em terra, permitindo que o controle crítico seja feito em formato de dados”, disse.

Analisando a dificuldade em determinar as causas do acidente da Air France por conta de não terem sido encontradas as caixas pretas da aeronave, Hansman alegou que não é necessário elaborar nenhum sistema novo para armazenamento de informações de segurança de voo, pois o que existe já costuma funcionar bem.

“O acidente da Air France foi um caso muito específico. Em 99,9% dos casos é possível recuperar as caixas pretas após o acidente ou descobrir de outra forma as causas do acidente, então não sei se faz sentido mudar totalmente o sistema de registro de informações de vôos por causa desse caso isolado.”

Daniel Buarque