Na entrevista, uma resposta que ficou de fora do texto dava conta do lugar dos times pequenos: "Pequenos clubes podem crescer. O Lyon é um exemplo disso. Uma boa organização, com gasto inteligente, controle coletivo do futebol, e um pagamento de bons salários pode fazer um pequeno clube ter bons resultados, e com os resultados vem a torcida. Os torcedores de futebol não são tão fieis quanto se pensa. Clubes pequenos que começam a crescer conseguem atrair torcedores. Claro que há pessoas que torcem a vida inteira pelo menos time, mas percebemos tendências claras de que clubes bem administrados que começam a ganhar partidas tendem a atrair novos torcedores e a continuar crescendo desta forma."
E mais, sobre futebol no Brasil: "É difícil entender o que está acontecendo com o são paulo. O futebol não tem um segredo, pois é publico e se alguém acerta, as pessoas logo podem saber qual é esta técnica, mas se houvesse um segredo, todos estariam copiando. O que posso dizer é que no futebol, os resultados são explicaddos pelos salários dos jogadores, e quem paga bem e em dia, se organiza economicamente, consegue os melhores resultados. Se eu me tornasse o técnico do São Paulo, ou do Machester United, independente de não entender tão bem do jogo, se contasse com os jogadores e a estrutura que esses clubes têm, com certeza seria também um vencedor. Os times ingleses estão começando a usar isso, a estudar o futebol como os norte-americanos estudam o beisebol. O trabalho o Lyon foi baseado num projeto de futebol de longo prazo. Eles transformaram o futebol em um projeto coletivo, e não havia uma única pessoa para decidir sobre as transferências, contratações. Não é pela democracia, mas a decisão coletiva costuma funcionar melhor de que nos clubes em que uma única pessoa toma as decisões."
Corrupção do país se reflete no futebol, diz autor de ‘freakonomics’ do esporte
As classificações brasileiras nos rankings mundiais de futebol e de corrupção são muito diferentes. Líder na lista da Fifa e vitorioso no esporte mais popular do país, o Brasil ocupa o 75º lugar sobre percepção de corrupção, segundo a organização não-governamental Transparência Internacional. Apesar do aparente contraste, no âmbito interno, a corrupção da sociedade invade o futebol, trazendo desconfiança e escândalos que podem ser percebidos na quantidade de reclamações a respeito das arbitragens e nas supostas "malas brancas" neste fim de Campeonato Brasileiro.Esta análise faz parte do livro “Soccernomics”, que acaba de ser lançado em edição em inglês e que incorpora a análise de dados, a estatística, a matemática, a economia e até a sociologia para entender o futebol e como ele reflete as sociedades. Escrita por Simon Kuper e Stefan Szymanski, a obra está sendo considerada o equivalente do futebol ao “Freakonomics”, em referência ao Best-seller de Steven Levitt e Stephen J. Dubner, que expõem a economia excêntrica na vida cotidiana das pessoas.
Em entrevista ao G1, por telefone desde Paris, Kuper explicou parte das análises contidas no livro, dizendo que a matemática indica que um cálculo entre população, riqueza e tradição fazem potências internacionais no esporte, que pode vir a ser dominado pelos EUA no futuro. Ele fez comentários a respeito da corrupção no futebol e no Brasil.
“Quanto mais corrupta a sociedade, mais corrupto o futebol. O esporte reflete a realidade do país”, disse. Segundo Kuper, a corrupção no futebol está presente especialmente em países mais pobres e em ligas menores. “Um jogo entre Manchester United e Real Madrid, por exemplo, dificilmente pode ser comprado, pois os interesses e os valores envolvidos são muito grandes, assim como o número de pessoas, então é mais raro ver corrupção ali. Mas em campeonatos menores, que envolvem menos dinheiro, isso pode acontecer.
Além disso, explicou, a própria economia interna também é um fator importante, pois quando um país tem juízes mal pagos, se torna mais fácil e barato corrompê-los. “Pagar bem ao árbitro ou trazer juízes de fora do país podem ser alternativas para evitar problemas de corrupção nos campeonatos.” O mesmo vale para os jogadores, com o oferecimento de mala branca e dinheiro para tentar influenciar os resultados.
Futebol calculista
No livro, Kuper alega que a matemática comprova que quanto mais rico o país, melhor a média de vitórias da seleção dele, e que um bom técnico e muito dinheiro gasto em contratações costuma não fazer tanta diferença para um time. “Isso não funciona em todas as partidas, mas como regra há uma estatística que comprova. É uma regra. Descobrimos que o dinheiro gasto com a transferência de jogadores é menos relevante de que os salários pagos pelos clubes aos atletas. Quanto melhores os salários dos jogadores, melhor costuma ser a performance do clube.”
A maior parte dos dados usados no trabalho são relativos ao futebol europeu, em que o livro se debruça. A ideia deles foi levar para o esporte a abordagem que os Estado Unidos já têm em relação ao beisebol, mas Kuper admite que o trabalho nem sempre é bem aceito pelos torcedores. “Algumas pessoas ficam com raiva porque nos acham arrogantes. Em países como a Inglaterra, e imagino que o Brasil também, as pessoas pensam que sabem tudo sobre o futebol, e aí discordam do livro com base no que conhecem e dizem que estamos errados.”
O autor admite que as estatísticas podem ajudar numa previsão de longo prazo, mas que em uma partida qualquer coisa pode acontecer. “Os eventos do dia afetam todo o jogo, e tudo é possível. Mas em cem jogos, temos estatísticas que nos permitem prever o que vai acontecer. Há uma série de leis de estatísticas e probabilidades que podem ser aplicadas ao futebol.”
A imprevisibilidade de partidas isoladas, diz, se prolonga a torneios rápidos como Copas do Mundo, formato de poucos jogos que permite, matematicamente, que qualquer time ruim tenha chances de se tornar campeão. Um torneio de todos contra todos é muito mais previsível, e normalmente o melhor time, o mais bem admministrado, ganha.
Kuper diz ser impossível prever quem vai ganhar a Copa de 2010, mas afirma que o Brasil seria hexa, se fosse um campeonato longo e de pontos corridos. “Diria que o Brasil tem boas chances, mas que não vou me surpreender se os Estados Unidos já conseguirem avançar até mesmo a uma final. Se fossem mais jogos, com todos os times se enfrentando, as chances do Brasil seriam muito maiores. As estatísticas mostram que o Brasil tem uma vantagem muito maior quando se incluem muitos jogos, seja em uma única sede ou em jogos de ida e volta.”
Futebol brasileiro
Os resultados do Brasil, que venceu Omã em amistoso na terça-feira (17), parecem contradizer a matemática do “Soccernomics”. Sem ser tão rico quanto os países europeus, a estatística poderia negar a teoria de Kuper, que admite a exceção para comprovar a regra. “O Brasil conquistou mais que o esperado. É um país grande, que joga futebol há muito tempo, mas que não é rico e não tem uma renda per capita alta. O que o país conquistou no futebol é fantasticamente maior. É uma surpresa dentro das estatísticas.”
Analisando a realidade brasileira, Kuper diz que a única coisa que pode explicar isso é a popularidade do esporte, a seriedade com que todos levam o futebol mesmo em jogos recreativos. “Em um playground na Inglaterra e na Alemanha o futebol é muito ruim. No Brasil, as pessoas se esforçam e são boas em qualquer âmbito, é uma questão cultural que forma bons jogadores.”
Mas se o Brasil impressiona por ter os melhores jogadores do mundo há décadas, segundo ele, desde os anos 1970, entretanto, a Europa desenvolveu uma tática melhor. “Há anos o Brasil tenta desenvolver o melhor estilo, mas tem dificuldade em desenvolver o estilo europeu de futebol, que é mais coletivo e mais rápido. O Brasil ainda tem uma visão romântica do futebol, menos tática.”
Segundo o pesquisador, o Brasil vai continuar sendo competitivo no futuro do futebol internacional, mas novos países no esporte como EUA, Austrália, Turquia, nações que estão se desenvolvendo, estão aprendendo a tática européia e podem desenvolver isso junto com a riqueza da economia e o tamanho da população. “Os Estados Unidos estão crescendo dentro do esporte e vão se tornar uma ameaça para seleções como a brasileira.”
Daniel Buarque
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