segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Contrapropaganda de guerra

Reportagem publicada no G1 em 21 de novembro de 2009. Resultado de uma mudança de foco de reportagem por conta do gancho, Originalmente, a pauta havia sido pensada como algo voltado especificamente para o terrorismo interno dos Estados Unidos, discutindo o que aconteceu na base de Fort Hood. a discussão a respeito do julgamento dos terroristas e a crítica do entrevistado em relação a ele acabaram mudando o foco e o lide da matéria.

Julgamento do 11/9 é um espetáculo para os terroristas, diz pesquisador

A polêmica decisão de julgar cinco suspeitos de envolvimento nos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 tribunais civis em Nova York pode servir como plataforma para que os terroristas "mostrem ao mundo do que são capazes", segundo Steven Emerson, um dos principais pesquisadores sobre redes de extremismo islâmico nos Estados Unidos.

Em entrevista concedida ao G1, por telefone, Emerson disse concordar com as críticas de políticos republicanos, que acusam a decisão do governo do presidente Barack Obama de ser uma irresponsabilidade capaz de colocar em risco a segurança do país. “O julgamento não vai ser eficiente no sentido de deter este tipo de ação terrorista, e vai servir como espetáculo do radicalismo”, disse Emerson, autor de livros como "Jihad incorporated" e "American Jihad", em que esmiúça o financiamento e o planejamento de ações terroristas.

“Acho que foi uma decisão errada, e um tribunal militar seria muito mais eficiente. Julgar estas pessoas em Nova York vai ser até mesmo perigoso, pois há regras diferentes para o tratamento de provas e evidências, e vai ser dado muito espaço para que os suspeitos se defendam e fujam das acusações contra eles”, disse. Para ele, os acusados podem dizer que tudo o que eles falaram até o momento foi arrancado à força, sob tortura e alegar até mesmo inocência.

O presidente Obama defendeu na quarta-feira (18) o plano de julgar o suposto mentor dos ataques em cortes criminais. Ele considerou que o sistema judiciário dos Estados Unidos será capaz de conduzir os julgamentos e que ao final Khalid Sheikh Mohammed e seus cúmplices, presos em Guantánamo, serão condenados e sentenciados à morte. "Acho que temos de romper essa noção temerosa de que nosso sistema judiciário não pode lidar com esses caras", disse.

Cinco acusados de tramar os ataques que mataram 3 mil pessoas no Wolrd Trade Center e no Pentágono serão transferidos da prisão militar de Guantánamo para um tribunal em Nova York, perto do local onde ficavam as torres atingidas por aviões no atentado, onde serão julgados. Khalid Sheikh Mohammed e os outros quatro suspeitos estavam sendo julgados por comissões militares na base naval norte-americana em Cuba, mas o presidente Obama prometeu transferir alguns casos para tribunais nos EUA e fechar Guantánamo.

Terrorismo interno
Especialista em ações terroristas dentro dos Estados Unidos, Emerson disse na entrevista ao G1 que existe uma mentalidade “jihadista” ativa dentro do país, por mais que ache que muita gente não quer aceitar. “A realidade de radicalismo é muito maior de que o FBI e o governo querem admitir. Isso não quer dizer que todos os muçulmanos são terroristas, muito pelo contrário, pois a grande maioria é pacífica. Mas ainda existe um grande grau de apoio à guerra santa que é capaz de realizar ataques como o que ocorreu na base militar de Fort Hood.”

O psiquiatra militar Nidal Hasan foi indiciado na última semana pelo massacre de 13 pessoas na base militar de Fort Hood, no Texas em 5 de novembro. De origem palestina, ele é acusado de ter deflagrado o tiroteio mais mortífero já registrado em uma base militar americana, que deixou ainda 42 feridos.

Segundo Emerson, o ataque foi uma surpresa, pois o FBI tem conseguido impedir cerca de 99% dos ataques terroristas deste tipo. “Fiquei surpreso na falha em permitir o ataque. O fato de ocorrer um ataque jihadista, por outro lado, não me surpreendeu. Estamos esperando mais ações deste tipo desde 2009, mas o FBI está apenas começando a entender o risco real.”

O combate ao terrorismo dentro do país precisa de mais que ação policial, disse. “É preciso que grupos islâmicos admitam que a jihad existe e trabalhem para deslegitimar este tipo de ação radical. Sem a ajuda de grupos islâmicos dentro dos EUA, atuando junto à comunidade muçulmana, vai ser muito deslegitimar a violência e fazer com que diminua o risco de um ataque dentro dos Estados Unidos.”

Internet
A internet, disse, tem se consolidado como um fator de radicalização, pois contribuiu para um aumento no número de pessoas que querem e podem realizar ataques dentro dos Estados Unidos. De acordo com a investigação do ataque na base do Texas, Hasan se correspondia por e-mails com o imã iemenita radical Anouar al-Aulaqui, suspeito, de acordo com as autoridades americanas, de ter ligações com a al-Qaeda. O imã chamou o assassino de herói após a matança.

“A internet permite que qualquer pessoa contate grupos radicais em qualquer parte do mundo, sem limites. Ela definitivamente radicalizou mais pessoas, pois ofereceu a possibilidade de elas terem contato com o radicalismo sem expor sua identidade, permitindo que eles tenham acesso à mentalidade jihadistas mantendo sua privacidade.”

Uma reportagem publicada na última semana pela revista “Foreign Policy” alega que a internet tem um papel definitivo no que chamam de “lone wolves”, lobos solitários, que seriam os terroristas que agem sozinhos. Através da rede de computadores, eles são cooptados por grupos terroristas, e até treinados para cometer atentados.

Daniel Buarque

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