Reportagem publicada no G1 em 21 de dezembro de 2009, traz entrevista com James Green, especialista na relação entre Brasil e Estados Unidos durante a ditadura, comentando a morte do embaixador Lincoln Gordon, nunciada no mesmo dia da entrevista.
Lincoln Gordon mudou a história do Brasil, diz historiador americano
A atuação do diplomata norte-americano Lincoln Gordon, embaixador no Brasil entre 1961 e 1966 que morreu no último sábado aos 96 anos, “mudou a história do Brasil”, segundo o professor James Green, especialista em história do país que acaba de lançar um livro a respeito da relação entre os governos das duas nações durante a ditadura.
“Ele mudou a história do Brasil, pois deu a luz verde para que os militares dessem o golpe de 1964. Ele deixou claro que, se o golpe fosse dado, os Estados Unidos iam reconhecer imediatamente os militares no poder. E ele ainda pressionou a Casa Branca, conseguindo que o governo desse uma declaração de apoio ao golpe imediatamente, o que foi fundamental”, disse Green, em entrevista ao G1 por telefone nesta segunda-feira (21), falando português fluente.
O pesquisador americano da universidade Brown contou que estava tentando entrevistar o diplomata, e que havia encontrado Gordon em 2007, quando ele estava saudável e jogando tênis, apesar dos 94 anos. Green acaba de lançar no Brasil o livro “Apesar de vocês”, em que descreve os movimentos contra a ditadura brasileira que existiam nos Estados Unidos, apesar do claro apoio do governo do seu país aos militares. Segundo ele, em certo sentido, a morte do diplomata encerra um capítulo sobre a história do Brasil, pois trata-se de um participantes do golpe. “É uma parte triste também da história norte-americana.”
“Gordon ajudou os militares pessoalmente porque tinha uma visão de mundo moldada pela Guerra Fria, era anticomunista e realmente achava que o Brasil estava à beira de uma revolução comunista. A trajetória dele durante a Segunda Guerra Mundial, na Europa após o conflito, fazia com que ele tivesse muito esta mentalidade e achava que o Brasil ia ser a próxima Cuba se não fossem os militares”, contou Green.
Green também escreveu um artigo sobre o discurso de Gordon a partir de 1964, alegando que ele, ao longo dos anos, modificou sua justificativa para o golpe militar de 1964. Apesar de várias pesquisas já terem encontrado indícios do apoio de Gordon ao golpe, o diplomata norte-americano morreu negando que nunca houve atividade de conspiração com os militares.
Segundo o pesquisador, o embaixador continuou negando a participação no golpe porque achava que estava fazendo uma coisa correta e boa e tentava indicar que havia sido uma coisa inocente. Segundo Green, o diplomata estava escrevendo suas memórias. “Eu gostaria de ter lido mais uma vez o que ele ia dizer para justificar a atuação no golpe. Não sei se ele tinha arquivos pessoais que possam ser pesquisados. Isso seria muito interessante de ver.”
Participação zero
Três anos antes da descoberta e divulgação dos documentos que comprovaram a participação de Gordon e da CIA no apoio ao golpe no Brasil, em 2006, o diplomata deu um longa entrevista ao Fantástico. Na conversa, ele negava o envolvimento norte-americano no golpe militar. Na época com 89 anos, logo após a publicação de um livro, Gordon fez uma ressalva logo no início da entrevista, dizendo que os EUA não participaram diretamente da deposição do presidente brasileiro. "Participação ativa foi praticamente zero", diz Gordon.
Na entrevista, ele confirmou que a agência norte-americana de inteligência (CIA) havia ajudado financeiramente os candidatos simpáticos aos Estados Unidos nas eleições de 1962 no Brasil. Na época, ele dizia que a CIA não deveria ter dado ajuda em dinheiro aos adversários de João Goulart. "Com a passagem de tempo, eu considerei um erro da nossa parte. Foi usado como donativo para distribuir entre simpatizantes dos Estados Unidos. Nunca vi a lista, eu não estava envolvido pessoalmente no processo. Foi uma ação da CIA", contou Gordon.
Daniel Buarque
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Fama e anonimato
Reportagem publicada no G1 em 12 de dezembro de 2009, após análise dos três primeiros relatórios trimestrais sobre a visão internacional do Brasil, realizado por agência de comunicação. Tem ainda entrevista com a coordenadora do levantamento.
Jornais internacionais mostram Brasil como ator global em 2009, diz pesquisa
A reação rápida do Brasil à crise econômica mundial, demonstrada por um crescimento do PIB maior que o dos países desenvolvidos no terceiro trimestre, fez com que o Brasil se consolidasse como um importante ator no cenário internacional no ano de 2009, conforme se pode perceber na maneira como o país foi tratado pela imprensa de diferentes regiões do planeta. Segundo um levantamento realizado por uma agência brasileira, deve haver em 2009 mais de 3.000 referências ao país em 14 das principais publicações do mundo. E, na maioria delas, a visão tem sido positiva.
O Boletim Brasil é realizado pela Imagem Corporativa, agência que monitora desde o início do ano todas as reportagens relacionadas ao Brasil em 14 jornais internacionais, publicando os resultados em relatórios trimestrais. De janeiro a setembro, o país foi citado em 2.367 reportagens, e 79,8% delas tinham teor favorável ao país, destacando a diminuição na vulnerabilidade da economia interna e a rápida reversão do quadro de crise.
"Este quarto trimestre está seguindo a mesma linha. Estamos percebendo um aumento no número de matérias, por mais que não possa garantir que o número total no fim do mês vai ser maior de que nos anteriores, mas há muitas matérias falando sobre o Brasil na imprensa internacional", disse ao G1 Fernanda Arimura, coordenadora da pesquisa que envolve o trabalho de oito pessoas. Segundo ela, a principal tendência ao longo do ano é a consolidação da visão do Brasil como ator global. “Isso está presente desde o primeiro boletim, mostrando a posição diferenciada em relação à crise.”
Os relatórios publicados ao longo do ano mostram uma melhora na imagem do Brasil nas reportagens. Nos três primeiros meses, por exemplo, apenas 73% dos textos que se referiam ao país tinham tom positivo. “No começo do ano, havia uma forte referência da vulnerabilidade do Brasil, matérias mostrando que o país é vulnerável para investimentos, mostrando a queda da Bovespa, por exemplo. Pelo menos 13% das reportagens no primeiro trimestre tratavam disso, mas este assunto esteve apenas em 2% das matérias no terceiro trimestre, num movimento que acompanhou a crise, mudando a percepção do Brasil no mercado internacional.”
O impacto do anúncio do crescimento PIB brasileiro, na última quinta-feira (10), entretanto, ainda não havia sido estudado pela agência. Os dados analisados são coletados nas versões impressas das publicações, não dando conta do ritmo de divulgação de notícias pela internet em tempo real.
Política
Segundo a coordenadora da agência responsável pelo levantamento, por mais que o foco principal da atenção dada ao Brasil ao longo do ano seja em relação à economia, o estudo do tratamento dado ao país na mídia internacional mostra também uma visão positiva da política brasileira.
"A visão do Brasil está mudando muito até na questão política. O país aparece também como ator global, principalmente pela atuaçao do presidente, que tem uma imagem boa la fora. Só em alguns momentos, como no caso de Honduras, há referências negativas, mas no geral a imagem é positiva, de alguém que tem um papel relevante, que é ouvido e que é considerado", disse. Ela nega, entretanto, qualquer motivação política do trabalho, que é voltado para oferecer informações às empresas clientes da agência, muitas das quais têm atuação internacional.
Segundo Arimura, a agência já fazia outros tipos de análise da imprensa internacional, tratando de setores da economia, como o automotivo, por exemplo. O trabalho iniciado em 2009, entretanto, busca uma visão mais generalizada de como o Brasil é visto no exterior. "Procuramos identificar jornais importantes, de locais relevantes e que conseguíssemos acessar no Brasil. Primeiro selecionamos as regiões que precisávamos acompanhar, e depois os veículos."
O Boletim Brasil é produzido pela agência de comunicação Imagem Corporativa com base no monitoramento de 14 jornais internacionais: Asahi Shimbun (Japão), China Daily (China), Clarín (Argentina), El Mercurio (Chile), El País (Espanha), Financial Times (Reino Unido), The New York Times (EUA), Le Monde (França), RIA Novosti (Rússia), The Economist (Reino Unido), The Times of India (Índia), "The Economic Times of India", Wall Street Journal (EUA) e Washington Post (EUA). Ele reúne e analisa referências ao Brasil em reportagens de política e economia com o objetivo de apontar a percepção da mídia internacional sobre o país.
Segundo a coordenadora, entretanto, nem sempre está claro na reportagem o tom positivo ou negativo, e é preciso discutir a ideia transmitida pelo texto. "Oito pessoas trabalham neste levantamento. São muitas matérias, e precisamos dividir o trabalho. às vezes precisamos discutir para saber se a matéria é positiva ou negativa, pois nem sempre é muito claro o tom e a forma como o Brasil é tratado. Uma matéria sobre o acidente aéreo [do voo 447], por exemplo, pode ter um tratamento positivo, por mais que seja uma reportagem naturalmente negativa.”
Daniel Buarque
Jornais internacionais mostram Brasil como ator global em 2009, diz pesquisa
A reação rápida do Brasil à crise econômica mundial, demonstrada por um crescimento do PIB maior que o dos países desenvolvidos no terceiro trimestre, fez com que o Brasil se consolidasse como um importante ator no cenário internacional no ano de 2009, conforme se pode perceber na maneira como o país foi tratado pela imprensa de diferentes regiões do planeta. Segundo um levantamento realizado por uma agência brasileira, deve haver em 2009 mais de 3.000 referências ao país em 14 das principais publicações do mundo. E, na maioria delas, a visão tem sido positiva.O Boletim Brasil é realizado pela Imagem Corporativa, agência que monitora desde o início do ano todas as reportagens relacionadas ao Brasil em 14 jornais internacionais, publicando os resultados em relatórios trimestrais. De janeiro a setembro, o país foi citado em 2.367 reportagens, e 79,8% delas tinham teor favorável ao país, destacando a diminuição na vulnerabilidade da economia interna e a rápida reversão do quadro de crise.
"Este quarto trimestre está seguindo a mesma linha. Estamos percebendo um aumento no número de matérias, por mais que não possa garantir que o número total no fim do mês vai ser maior de que nos anteriores, mas há muitas matérias falando sobre o Brasil na imprensa internacional", disse ao G1 Fernanda Arimura, coordenadora da pesquisa que envolve o trabalho de oito pessoas. Segundo ela, a principal tendência ao longo do ano é a consolidação da visão do Brasil como ator global. “Isso está presente desde o primeiro boletim, mostrando a posição diferenciada em relação à crise.”
Os relatórios publicados ao longo do ano mostram uma melhora na imagem do Brasil nas reportagens. Nos três primeiros meses, por exemplo, apenas 73% dos textos que se referiam ao país tinham tom positivo. “No começo do ano, havia uma forte referência da vulnerabilidade do Brasil, matérias mostrando que o país é vulnerável para investimentos, mostrando a queda da Bovespa, por exemplo. Pelo menos 13% das reportagens no primeiro trimestre tratavam disso, mas este assunto esteve apenas em 2% das matérias no terceiro trimestre, num movimento que acompanhou a crise, mudando a percepção do Brasil no mercado internacional.”
O impacto do anúncio do crescimento PIB brasileiro, na última quinta-feira (10), entretanto, ainda não havia sido estudado pela agência. Os dados analisados são coletados nas versões impressas das publicações, não dando conta do ritmo de divulgação de notícias pela internet em tempo real.
Política
Segundo a coordenadora da agência responsável pelo levantamento, por mais que o foco principal da atenção dada ao Brasil ao longo do ano seja em relação à economia, o estudo do tratamento dado ao país na mídia internacional mostra também uma visão positiva da política brasileira.
"A visão do Brasil está mudando muito até na questão política. O país aparece também como ator global, principalmente pela atuaçao do presidente, que tem uma imagem boa la fora. Só em alguns momentos, como no caso de Honduras, há referências negativas, mas no geral a imagem é positiva, de alguém que tem um papel relevante, que é ouvido e que é considerado", disse. Ela nega, entretanto, qualquer motivação política do trabalho, que é voltado para oferecer informações às empresas clientes da agência, muitas das quais têm atuação internacional.
Segundo Arimura, a agência já fazia outros tipos de análise da imprensa internacional, tratando de setores da economia, como o automotivo, por exemplo. O trabalho iniciado em 2009, entretanto, busca uma visão mais generalizada de como o Brasil é visto no exterior. "Procuramos identificar jornais importantes, de locais relevantes e que conseguíssemos acessar no Brasil. Primeiro selecionamos as regiões que precisávamos acompanhar, e depois os veículos."
O Boletim Brasil é produzido pela agência de comunicação Imagem Corporativa com base no monitoramento de 14 jornais internacionais: Asahi Shimbun (Japão), China Daily (China), Clarín (Argentina), El Mercurio (Chile), El País (Espanha), Financial Times (Reino Unido), The New York Times (EUA), Le Monde (França), RIA Novosti (Rússia), The Economist (Reino Unido), The Times of India (Índia), "The Economic Times of India", Wall Street Journal (EUA) e Washington Post (EUA). Ele reúne e analisa referências ao Brasil em reportagens de política e economia com o objetivo de apontar a percepção da mídia internacional sobre o país.
Segundo a coordenadora, entretanto, nem sempre está claro na reportagem o tom positivo ou negativo, e é preciso discutir a ideia transmitida pelo texto. "Oito pessoas trabalham neste levantamento. São muitas matérias, e precisamos dividir o trabalho. às vezes precisamos discutir para saber se a matéria é positiva ou negativa, pois nem sempre é muito claro o tom e a forma como o Brasil é tratado. Uma matéria sobre o acidente aéreo [do voo 447], por exemplo, pode ter um tratamento positivo, por mais que seja uma reportagem naturalmente negativa.”
Daniel Buarque
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Política à parte
Amigos para sempre
Reportagem publicada no G1 em 5 de dezembro de 2009, após pesquisa e entrevistas sobre a histórica relação entre Brasil e Estados Unidos.
Parceria entre Brasil e EUA não se abala com discórdias, dizem pesquisadores
"Brasil e Estados Unidos são como dois amigos de longa data: um sempre espera poder contar com o apoio do outro. Por mais que eles às vezes se afastem um pouco um do outro, que discordem e até possam esquecer de dar o valor e o prestígio que o outro amigo merece, eles nunca rompem este laço." A descrição foi feita pelo professor de história do Brasil na Universidade de New Hampshire. Frank D. McCann, em entrevista ao G1, explicando que a troca de cartas entre Barack Obama e Luiz Inácio Lula da Silva, quando o iraniano Mahmoud Ahmadinejad esteve em Brasília há uma semana, evidenciou que os dois países nem sempre concordam, mas as eventuais discordâncias fazem parte da relação entre os dois "amigos".
De fato, o contato entre os dois presidentes se deu de forma aparentemente amigável e respeitosa, mas deixou claro que, em um ano em que o Brasil atuou de forma intensa tentando ganhar prestígio no cenário da política internacional, seja em Honduras, na Colômbia, no Oriente Médio ou mesmo na relação bilateral com os próprios EUA, os dois países pensam de forma diferente em muitas das questões mais importantes para o mundo atual.
Assim como McCann, outros três pesquisadores da relação entre o Brasil e os EUA deixaram claro que não há tensão na relação entre os dois países, argumentando que todo contato internacional em política e economia tem altos e baixos, e que a diplomacia dos dois países é mais uma relação de parceria do que uma puramente hegemônica.
Falta de atenção
O que aconteceu neste 2009, explicou o professor de Relações Internacionais da Universidade Stanford, Thomas O'Keefe, foi que os Estados Unidos simplesmente não deram atenção ao Brasil e ao restante do continente. "Parece haver um entendimento, por parte do governo Obama, que existem tantos problemas mais sérios para resolver internamente e no exterior, de que ele não tem o tempo e o dinheiro para enfocar a situação da América do Sul. Nesta situação, ele parece ter deixado o Brasil assumir um papel de liderança", disse.
Segundo Steven Topik, chefe do departamento de história da Universidade da Califórnia em Irvine, que estuda a história do Brasil e da América Latina, o interesse norte-americano no Brasil diminuiu desde 2001.
"Os Estados Unidos não estão prestando muita atenção na região, o que é bom para ela. Os EUA estão tão focados no Oriente Médio, que foi possível ver esta onda rosa na América Latina, com quase todos os países, menos a Colômbia, desenvolvendo projetos políticos próprios e independentes. Os Estados unidos não estão prestando atenção, e uma prova é o fato de que Obama levou seis meses para indicar um novo embaixador. A região é importante para as relações comerciais, mas, em termos de de preocupação estratégica, não é a prioridade", disse.
O envio da carta de Obama, explicaram os pesquisadores, serviu para mostrar que, mesmo sem dar tanta atenção quanto o Brasil merece, o "amigo" do norte continua ali, e não quer perder prestígio, nem mesmo quando alguém com quem tem uma disputa, o Irã, visita a casa do amigo.
Dependência e parceria
Pelo lado do Brasil, explicou Topik, o que acontece quando o Itamaraty abre espaço em sua agenda para os "inimigos" dos Estados Unidos, é um comportamento que se repete no país, como uma busca pela "diversificação da dependência".
"O Brasil sempre tentou equilibrar os diferentes poderes do mundo, e isso está acontecendo agora, com a visita de Ahmadinejad. Isso começou bem antes, e a situação agora é diferente porque a posição brasileira é mais forte. É a postura comum do Brasil de parecer romper", disse, alegando, entretanto, que isso faz parte do jogo da política internacional, e que não ameaça a relação com os Estados Unidos. Ele disse ainda que em 30 anos de estudo do Brasil, nunca encontrou exemplos práticos de uma "dependência real" do Brasil em relação aos EUA, sendo a relação muito mais equilibrada de que se pensa.
É a mesma opinião de O'Keefe. "A relação entre os dois países tem se tornado cada vez mais uma parceria. Não é mais o que houve no passado, em que o Brasil estava sob a hegemonia dos Estados Unidos. A relação amadureceu bastante no sentido de que há o entendimento de que o Brasil nem sempre vai seguir 100% a liderança dos Estados Unidos. E como é uma parceria, os Estados Unidos também vão ter que ceder em algumas áreas. Não chamaria de relação de dependência, a não ser que seja uma dependência mútua, que em muitos casos o Brasil pode estar à frente por conta de sua hegemonia regional na América do Sul", disse.
Segundo William Ratliff, pesquisador e curador no Instituto Hoover com experiência em América Latina e em política externa norte-americana, o governo Obama pensa que dois países na América Latina são centrais para os interesses dos Estados Unidos no Longo prazo: Brasil e México.
"A maioria das pessoas nos Estados Unidos estão impressionadas com muitas das políticas internas do governo Lula da Silva. Em assuntos internacionais, os EUA têm muita esperança, mas também alguma preocupação com o que o Brasil pode fazer. Há vastas áreas com potencial de cooperação, e mesmo o ex-presidente Bush teve uma atitude positiva em relação a esse potencial. Em meses recentes, vários assuntos apareceram nessa relação perturbaram as vibrações potencialmente positivas", disse, ressaltando que não há ruptura.
Daniel Buarque
Parceria entre Brasil e EUA não se abala com discórdias, dizem pesquisadores
"Brasil e Estados Unidos são como dois amigos de longa data: um sempre espera poder contar com o apoio do outro. Por mais que eles às vezes se afastem um pouco um do outro, que discordem e até possam esquecer de dar o valor e o prestígio que o outro amigo merece, eles nunca rompem este laço." A descrição foi feita pelo professor de história do Brasil na Universidade de New Hampshire. Frank D. McCann, em entrevista ao G1, explicando que a troca de cartas entre Barack Obama e Luiz Inácio Lula da Silva, quando o iraniano Mahmoud Ahmadinejad esteve em Brasília há uma semana, evidenciou que os dois países nem sempre concordam, mas as eventuais discordâncias fazem parte da relação entre os dois "amigos".De fato, o contato entre os dois presidentes se deu de forma aparentemente amigável e respeitosa, mas deixou claro que, em um ano em que o Brasil atuou de forma intensa tentando ganhar prestígio no cenário da política internacional, seja em Honduras, na Colômbia, no Oriente Médio ou mesmo na relação bilateral com os próprios EUA, os dois países pensam de forma diferente em muitas das questões mais importantes para o mundo atual.
Assim como McCann, outros três pesquisadores da relação entre o Brasil e os EUA deixaram claro que não há tensão na relação entre os dois países, argumentando que todo contato internacional em política e economia tem altos e baixos, e que a diplomacia dos dois países é mais uma relação de parceria do que uma puramente hegemônica.
Falta de atenção
O que aconteceu neste 2009, explicou o professor de Relações Internacionais da Universidade Stanford, Thomas O'Keefe, foi que os Estados Unidos simplesmente não deram atenção ao Brasil e ao restante do continente. "Parece haver um entendimento, por parte do governo Obama, que existem tantos problemas mais sérios para resolver internamente e no exterior, de que ele não tem o tempo e o dinheiro para enfocar a situação da América do Sul. Nesta situação, ele parece ter deixado o Brasil assumir um papel de liderança", disse.
Segundo Steven Topik, chefe do departamento de história da Universidade da Califórnia em Irvine, que estuda a história do Brasil e da América Latina, o interesse norte-americano no Brasil diminuiu desde 2001.
"Os Estados Unidos não estão prestando muita atenção na região, o que é bom para ela. Os EUA estão tão focados no Oriente Médio, que foi possível ver esta onda rosa na América Latina, com quase todos os países, menos a Colômbia, desenvolvendo projetos políticos próprios e independentes. Os Estados unidos não estão prestando atenção, e uma prova é o fato de que Obama levou seis meses para indicar um novo embaixador. A região é importante para as relações comerciais, mas, em termos de de preocupação estratégica, não é a prioridade", disse.
O envio da carta de Obama, explicaram os pesquisadores, serviu para mostrar que, mesmo sem dar tanta atenção quanto o Brasil merece, o "amigo" do norte continua ali, e não quer perder prestígio, nem mesmo quando alguém com quem tem uma disputa, o Irã, visita a casa do amigo.
Dependência e parceria
Pelo lado do Brasil, explicou Topik, o que acontece quando o Itamaraty abre espaço em sua agenda para os "inimigos" dos Estados Unidos, é um comportamento que se repete no país, como uma busca pela "diversificação da dependência".
"O Brasil sempre tentou equilibrar os diferentes poderes do mundo, e isso está acontecendo agora, com a visita de Ahmadinejad. Isso começou bem antes, e a situação agora é diferente porque a posição brasileira é mais forte. É a postura comum do Brasil de parecer romper", disse, alegando, entretanto, que isso faz parte do jogo da política internacional, e que não ameaça a relação com os Estados Unidos. Ele disse ainda que em 30 anos de estudo do Brasil, nunca encontrou exemplos práticos de uma "dependência real" do Brasil em relação aos EUA, sendo a relação muito mais equilibrada de que se pensa.
É a mesma opinião de O'Keefe. "A relação entre os dois países tem se tornado cada vez mais uma parceria. Não é mais o que houve no passado, em que o Brasil estava sob a hegemonia dos Estados Unidos. A relação amadureceu bastante no sentido de que há o entendimento de que o Brasil nem sempre vai seguir 100% a liderança dos Estados Unidos. E como é uma parceria, os Estados Unidos também vão ter que ceder em algumas áreas. Não chamaria de relação de dependência, a não ser que seja uma dependência mútua, que em muitos casos o Brasil pode estar à frente por conta de sua hegemonia regional na América do Sul", disse.
Segundo William Ratliff, pesquisador e curador no Instituto Hoover com experiência em América Latina e em política externa norte-americana, o governo Obama pensa que dois países na América Latina são centrais para os interesses dos Estados Unidos no Longo prazo: Brasil e México.
"A maioria das pessoas nos Estados Unidos estão impressionadas com muitas das políticas internas do governo Lula da Silva. Em assuntos internacionais, os EUA têm muita esperança, mas também alguma preocupação com o que o Brasil pode fazer. Há vastas áreas com potencial de cooperação, e mesmo o ex-presidente Bush teve uma atitude positiva em relação a esse potencial. Em meses recentes, vários assuntos apareceram nessa relação perturbaram as vibrações potencialmente positivas", disse, ressaltando que não há ruptura.
Daniel Buarque
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Run, run, run
Reportagem publicada no G1 em 30 de janeiro de 2009. Parte da série sobre brasileiros no exterior, conta da façanha do corredor que foi de um canto a outro dos Estados Unidos a pé em menos de dois meses. Entrevista feita por telefone após o fim da prova, mas ainda quente o suficiente para se tornar assunto da séria.
Corra, Carlos! Corra!Carlos Dias está longe de ter o raciocínio lento, mas seu ritmo e seu fôlego nas pistas com certeza lembram o já clássico personagem-título do filme “Forrest Gump”, interpretado por Tom Hanks. A certa altura do filme, Forrest decide começar a correr sem parar e cruza mais de 5 mil quilômetros de um canto ao outro dos Estados Unidos assim, correndo.
Dias é autor de uma façanha parecida: em menos de dois meses, Dias foi de Nova York à Califórnia, percorrendo 5.130 quilômetros no total, uma média de 84 quilômetros por dia a uma velocidade máxima de 10 km/h para controlar o ritmo, chegando a passar 20 horas sem parar correndo. Foram 59 dias até completar a rota no início deste mês. "Chegamos um dia antes do programado”, contou ao G1.
“As pessoas me lembram do filme a cada minuto. A diferença é que no filme ele não tinha sentido naquilo que fazia, eu tinha um sentido de completar o percurso e de ajudar uma instituição de apoio a crianças com câncer”, disse. Para a empreitada, ele pôs à venda suas milhas, oferecendo parte do arrecadado para o Graac. “Vendemos poucas, mas conseguimos pelo menos puxar um pouco de repercussão, chamando a atenção para o Graac. A intenção era gerar benefícios para outras pessoas, e não buscar nada para mim. Hoje minha sensação é de dever cumprido.”
Formado em administração, Dias conta que já corre provas de longa distância há 16 anos, já completou mais de 74 maratonas e fez travessias, como em 2007, quando foi do Oiapoque ao Chuí, extremos norte e sul do Brasil, em 100 dias, batendo o recorde. Morador de São Bernardo do Campo, ele hoje vive de realizar provas, dar palestras e organizar corridas, parecendo buscar desafios diferentes de cada vez. “Foi a primeira vez que essa rota de uma ponta a outra dos EUA foi feita por um ultramaratonista”, disse.
No filme, Forrest Gump corre por três anos, dois meses, 14 dias e 16 horas - se seguisse o mesmo ritmo de Dias, teria feito 20 vezes o percurso de um canto ao outro do país.De Leste a Oeste
O planejamento do percurso era detalhado e incluiu bateria de exames e treinamento. Toda a rota já estava traçada desde o começo e previa seguir sempre pela rodovia 80. No segundo dia correndo, entretanto, a polícia disse que eles não podiam seguir por ali, a não ser de carro. “Eles nos orientaram e seguimos pelas estradas paralelas da 80. Só no colorado que precisamos dar uma variada por causa das montanhas.”
A maior dificuldade enfrentada foi a mudança do clima, que é constante. “Deixamos Nova York com muito calor, pegamos chuva na Pensilvânia, vento no Nebraska, neve no Colorado, calor no deserto, mais neve em Nevada e mais calor na Califórnia. Administrar isso, a roupa certa no momento certo para melhorar o desempenho, é bem difícil”, contou.
Encontrar um lugar para dormir, depois da mudança da rota, era um desafio diário, mas também fonte de algumas das experiências que o maratonista considera das mais interessantes. “As pessoas foram entrando no nosso projeto, nos recebendo na casa deles, fomos fazendo amigos, ganhando novas famílias por todo o trajeto até chegar na Califórnia. Viajei achando que o norte-americano era frio e nada solidário, mas vi o oposto, pois eles nos ajudavam. Tivemos só coisas boas. Tinha gente que parava na estrada e convidava para ir à cada deles. Isso foi a coisa mais legal, e foi bem diferente do que há no Brasil.”
Dias afirma que não chegou a pensar em desistir em momento algum, mas logo no início, depois de entrar em Indiana, estava muito cansado e achava que não conseguiria completar a prova dentro do cronograma programado. “É preciso ser paciente o tempo todo, mesmo cansado física e mentalmente. Tentava controlar a ansiedade.”
A concentração era muito grande e ele terminava exausto no final do dia. “Não dava para conhecer as cidades nem nada, mas dava para conhecer pessoas, conversar, melhorar o inglês. Hoje eu conheço os EUA mais de que muitos americanos, pois passamos por mais de 700 cidades, percebemos as mudanças culturais, as paisagens, as comidas, tudo o que muita gente não conhece.”
Dias agora vai fazer treinamento para novas provas a partir de abril, quando pretende correr quatro desertos: na Austrália, depois Nepal, Namíbia e Vietnã. “No segundo semestre quero correr uma maratona por dia por seis meses, girando o Brasil, saindo do Rio de Janeiro e finalizando em São Paulo.” Como o personagem do cinema, ele também não para depois de chegar no ponto final da prova corrida.
Daniel Buarque
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Furious five!
Infográfico publicado no G1 em 27 de novembro de 2009, parte da cobertura especial sobre a diplomacia brasileira e a busca por um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.
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Quase relevante
Reportagem publicada no G1 em 27 de novembro de 2009. Trata da importância das Nações Unidas, do seu Conselho de Segurança e das chances de o Brasil copnseguir a almejada vaga de membro permanente. O gancho para a publicação era o atribulado ano da diplomacia brasileira e o lançamento do livro sobre os "cinco poderosos", nos Estados Unidos. Boa entrevista com pesquisador que entende do assunto e da relação interncaional brasileira.
Ação em Honduras pode ajudar Brasil a entrar 'de vez' no Conselho de Segurança
Ação em Honduras, convite a líderes do Oriente Médio para visitar o país, negociação com Estados Unidos, críticas à Colômbia, apoio à entrada da Venezuela no Mercosul. O ano de 2009 está sendo movimentado para a política externa do Brasil. O país vem tentando se comportar como um importante ator global, o que reforça sua popularidade internacional e pode ajudá-lo a se tornar um membro permanente no Conselho de Segurança, mais importante órgão da Organização das Nações Unidas.
O comportamento brasileiro nesses casos pode, entretanto, ter efeitos dúbios, ajudando por um lado e gerando potencial para atrapalhar por outro, segundo a análise de David Bosco, um pesquisador norte-americano especialista na história do importante conselho da ONU. Segundo ele, entretanto, o Brasil está agindo da maneira certa ao aproveitar o momento global perfeito para parecer uma nação sensata e equilibrada em meio às principais disputas.
O caso de Honduras, em que o Brasil interveio contra o golpe de Estado de junho e deu abrigo para que o presidente deposto, Manuel Zelaya, voltasse ao país, é bem emblemático de como o país pode fazer amigos por um lado e criar desconfiança por outro, explicou em entrevista ao G1.
“Hospedar Zelaya fez com que o Brasil ganhasse a admiração da maior parte dos membros da ONU, pois golpes de Estado vêm se tornando muito pouco populares. A questão é saber se os Estados Unidos concordam com a ação”, disse. Para o Departamento de Estados dos EUA, o abrigo a Zelaya dentro da embaixada pode não ter sido tão positivo, pois eles vêm como um maior risco para violência. A crítica a golpe de estado pode então aproximar mais membros da ONU como um todo, mas ser olhada com desconfiança pelos EUA.
No fim das contas, vai ser preciso saber como a questão vai ser solucionada para poder avaliar o resultado da diplomacia brasileira. “A situação em Honduras vem mudando muito desde o golpe, e vai ser preciso saber como as coisas vão caminhar para uma solução e de que forma a ação do Brasil pode ter ajudado na estabilização do país. Isso pode trazer um resultado ainda melhor.”
Chances reais
Autor de “Five to Rule Them All: The UN Security Council and the Making of the Modern World” (Cinco para comandar todos os outros: o Conselho de Segurança da ONU e a formação do mundo modern), livro que acaba de ser nos Estados Unidos, Bosco é professor de política internacional na Universidade American, em Washington DC e pesquisou a importância do Conselho de Segurança na estrutura internacional do planeta desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Segundo ele, faz sentido para o Brasil a busca por um assento permanente no conselho, e as chances de conseguir isso são reais.
“No começo das discussões sobre a criação da ONU, Franklin D. Roosevelt, presidente dos EUA, queria que o Brasil fosse um membro permanente e tentou convencer os outros países, mas os britânicos e soviéticos não concordaram. O Brasil foi considerado como um membro permanente desde o começo, e eles reconhecem o país como uma das economias mais importantes do mundo, se destacando ainda mais agora com as Olimpíadas. Os países do CS reconhecem o Brasil como uma potência. O Brasil vai estar no topo dos países que vão ser considerados para se tornar membros permanentes”, disse ao G1.
Segundo o pesquisador, além do Brasil, outros países que têm chances são a Índia e o Japão, mas este último com forte oposição da China, que pode fazer o país não conseguir. “Os outros membros permanentes vão se sentir confortáveis com o Brasil estando lá, o que faz com que a missão do país seja mais fácil.”
Ele diz que uma mudança no formato do Conselho de segurança é esperada, só não se sabe exatamente os termos em que isso vai acontecer. Em algum ponto no futuro, diz, haverá uma mudança na estrutura do CS, incorporando novos membros permanentes, mas sem permitir que mais países tenham poder de veto. “É provável que alguns membros permanentes sejam aceitos, mas não acho que a Assembleia Geral vá oferecer mais poder de veto a algum país. A única mudança é que esses membros vão fazer parte permanentemente, o que é muito importante no sentido de ter uma influência maior, um conhecimento e uma familiaridade com os procedimentos do CS.”
Poder e veto
Segundo Bosco, é importante considerar o fato de que o poder de veto não é mais tão usado quanto foi no passado. Durante a Guerra Fria, a União Soviética e os EUA usavam este poder muito frequentemente, mas, desde o fim do conflito, o número de vetos caiu significativamente. “Isso se tornou um tabu, algo negativo, que deveria ser evitado. É provável que os atuais membros permanentes mantenham seu poder de veto, mas usem cada vez menos, enquanto o CS pode passar a incorporar novos membros permanentes sem este poder.”
A dificuldade em mudar o Conselho de Segurança está no fato de que é preciso ter o apoio dos cinco países membros permanentes e de dois terços dos 192 países da Assembleia Geral. “Nos últimos dez anos, a assembleia se comprometeu em fazer um plano para mudar o CS, mas eles não conseguem chegar a um acordo. O problema é que não há consenso entre todos os membros da ONU sobre o formato desta reforma. Enquanto não houver um acordo neste sentido, com a maior parte dos países da ONU concordando, as coisas vão ficar paradas. Os membros permanentes estão felizes com as coisas paradas, pois isso mantém o status deles.”
Enquanto o órgão das Nações Unidas não muda, os membros temporários figuram com importância estatística, mas sempre de forma coadjuvante. Por um lado, têm importância em algumas situações, pois são necessários nove votos para passar qualquer decisão no CS, e mesmo que os cinco membros permanentes queiram decidir alguma coisa, precisam de apoio de mais quatro votos entre os temporários, pois o poder deles é de veto, não de imposição.
“Na prática, entretanto, o que importa é o que os membros permanentes decidem. Se os cinco países concordam em algo, fica difícil para os outros membros bloquearem a decisão, pois são cinco países muito poderosos, e é difícil imaginar uma coalizão de outros países para fazer oposição”, explicou. Se há uma divisão entre os membros permanentes, entretanto, os temporários podem se tornar mais importantes. “Isso foi percebido nos meses antes da guerra no Iraque, quando EUA e UK estavam disputando o apoio geral com França e Rússia.”
Bosco nega que a invasão do Iraque contra a indicação da ONU e do CS tenham minado a importância das Nações Unidas. “É verdade que muita gente achou que a guerra no Iraque faria com que o CS se tornasse irrelevante, mas a realidade é que o governo Bush, após a invasão do Iraque, e o governo Obama, estão buscando seus principais objetivos através do Conselho de segurança.”
Os dois exemplos mais claros disso são a questão nuclear no Irã e na Coreia do Norte, que são pontos centrais dos interesses norte-americanos. “O que se vê geralmente na história do CS é que ele tem altos e baixos, sendo irrelevante em algumas crises e muito importante em outras. Neste exato momento, diria que ele é muito relevante, e que a guerra no Iraque não o afetou como algumas pessoas esperavam.”
Daniel Buarque
Ação em Honduras pode ajudar Brasil a entrar 'de vez' no Conselho de Segurança
Ação em Honduras, convite a líderes do Oriente Médio para visitar o país, negociação com Estados Unidos, críticas à Colômbia, apoio à entrada da Venezuela no Mercosul. O ano de 2009 está sendo movimentado para a política externa do Brasil. O país vem tentando se comportar como um importante ator global, o que reforça sua popularidade internacional e pode ajudá-lo a se tornar um membro permanente no Conselho de Segurança, mais importante órgão da Organização das Nações Unidas.O comportamento brasileiro nesses casos pode, entretanto, ter efeitos dúbios, ajudando por um lado e gerando potencial para atrapalhar por outro, segundo a análise de David Bosco, um pesquisador norte-americano especialista na história do importante conselho da ONU. Segundo ele, entretanto, o Brasil está agindo da maneira certa ao aproveitar o momento global perfeito para parecer uma nação sensata e equilibrada em meio às principais disputas.
O caso de Honduras, em que o Brasil interveio contra o golpe de Estado de junho e deu abrigo para que o presidente deposto, Manuel Zelaya, voltasse ao país, é bem emblemático de como o país pode fazer amigos por um lado e criar desconfiança por outro, explicou em entrevista ao G1.
“Hospedar Zelaya fez com que o Brasil ganhasse a admiração da maior parte dos membros da ONU, pois golpes de Estado vêm se tornando muito pouco populares. A questão é saber se os Estados Unidos concordam com a ação”, disse. Para o Departamento de Estados dos EUA, o abrigo a Zelaya dentro da embaixada pode não ter sido tão positivo, pois eles vêm como um maior risco para violência. A crítica a golpe de estado pode então aproximar mais membros da ONU como um todo, mas ser olhada com desconfiança pelos EUA.
No fim das contas, vai ser preciso saber como a questão vai ser solucionada para poder avaliar o resultado da diplomacia brasileira. “A situação em Honduras vem mudando muito desde o golpe, e vai ser preciso saber como as coisas vão caminhar para uma solução e de que forma a ação do Brasil pode ter ajudado na estabilização do país. Isso pode trazer um resultado ainda melhor.”
Chances reais
Autor de “Five to Rule Them All: The UN Security Council and the Making of the Modern World” (Cinco para comandar todos os outros: o Conselho de Segurança da ONU e a formação do mundo modern), livro que acaba de ser nos Estados Unidos, Bosco é professor de política internacional na Universidade American, em Washington DC e pesquisou a importância do Conselho de Segurança na estrutura internacional do planeta desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Segundo ele, faz sentido para o Brasil a busca por um assento permanente no conselho, e as chances de conseguir isso são reais.
“No começo das discussões sobre a criação da ONU, Franklin D. Roosevelt, presidente dos EUA, queria que o Brasil fosse um membro permanente e tentou convencer os outros países, mas os britânicos e soviéticos não concordaram. O Brasil foi considerado como um membro permanente desde o começo, e eles reconhecem o país como uma das economias mais importantes do mundo, se destacando ainda mais agora com as Olimpíadas. Os países do CS reconhecem o Brasil como uma potência. O Brasil vai estar no topo dos países que vão ser considerados para se tornar membros permanentes”, disse ao G1.
Segundo o pesquisador, além do Brasil, outros países que têm chances são a Índia e o Japão, mas este último com forte oposição da China, que pode fazer o país não conseguir. “Os outros membros permanentes vão se sentir confortáveis com o Brasil estando lá, o que faz com que a missão do país seja mais fácil.”
Ele diz que uma mudança no formato do Conselho de segurança é esperada, só não se sabe exatamente os termos em que isso vai acontecer. Em algum ponto no futuro, diz, haverá uma mudança na estrutura do CS, incorporando novos membros permanentes, mas sem permitir que mais países tenham poder de veto. “É provável que alguns membros permanentes sejam aceitos, mas não acho que a Assembleia Geral vá oferecer mais poder de veto a algum país. A única mudança é que esses membros vão fazer parte permanentemente, o que é muito importante no sentido de ter uma influência maior, um conhecimento e uma familiaridade com os procedimentos do CS.”
Poder e veto
Segundo Bosco, é importante considerar o fato de que o poder de veto não é mais tão usado quanto foi no passado. Durante a Guerra Fria, a União Soviética e os EUA usavam este poder muito frequentemente, mas, desde o fim do conflito, o número de vetos caiu significativamente. “Isso se tornou um tabu, algo negativo, que deveria ser evitado. É provável que os atuais membros permanentes mantenham seu poder de veto, mas usem cada vez menos, enquanto o CS pode passar a incorporar novos membros permanentes sem este poder.”
A dificuldade em mudar o Conselho de Segurança está no fato de que é preciso ter o apoio dos cinco países membros permanentes e de dois terços dos 192 países da Assembleia Geral. “Nos últimos dez anos, a assembleia se comprometeu em fazer um plano para mudar o CS, mas eles não conseguem chegar a um acordo. O problema é que não há consenso entre todos os membros da ONU sobre o formato desta reforma. Enquanto não houver um acordo neste sentido, com a maior parte dos países da ONU concordando, as coisas vão ficar paradas. Os membros permanentes estão felizes com as coisas paradas, pois isso mantém o status deles.”
Enquanto o órgão das Nações Unidas não muda, os membros temporários figuram com importância estatística, mas sempre de forma coadjuvante. Por um lado, têm importância em algumas situações, pois são necessários nove votos para passar qualquer decisão no CS, e mesmo que os cinco membros permanentes queiram decidir alguma coisa, precisam de apoio de mais quatro votos entre os temporários, pois o poder deles é de veto, não de imposição.
“Na prática, entretanto, o que importa é o que os membros permanentes decidem. Se os cinco países concordam em algo, fica difícil para os outros membros bloquearem a decisão, pois são cinco países muito poderosos, e é difícil imaginar uma coalizão de outros países para fazer oposição”, explicou. Se há uma divisão entre os membros permanentes, entretanto, os temporários podem se tornar mais importantes. “Isso foi percebido nos meses antes da guerra no Iraque, quando EUA e UK estavam disputando o apoio geral com França e Rússia.”
Bosco nega que a invasão do Iraque contra a indicação da ONU e do CS tenham minado a importância das Nações Unidas. “É verdade que muita gente achou que a guerra no Iraque faria com que o CS se tornasse irrelevante, mas a realidade é que o governo Bush, após a invasão do Iraque, e o governo Obama, estão buscando seus principais objetivos através do Conselho de segurança.”
Os dois exemplos mais claros disso são a questão nuclear no Irã e na Coreia do Norte, que são pontos centrais dos interesses norte-americanos. “O que se vê geralmente na história do CS é que ele tem altos e baixos, sendo irrelevante em algumas crises e muito importante em outras. Neste exato momento, diria que ele é muito relevante, e que a guerra no Iraque não o afetou como algumas pessoas esperavam.”
Daniel Buarque
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Futuro agora!
Entrevista publicada no G1 em 27 de novembro de 2009. Primeiro ping pong em muito tempo. Apesar de ter sido uma entrevista rápida, pelo telefone, foi possível abordar a maior parte dos assuntos relacionados ao Brasil, que segundo o criador dos BRIC, já está se tornando o país do presente.
Mudança de mentalidade faz Brasil virar ‘país do hoje’, diz criador da sigla Bric
No Brasil, o “futuro” está se transformando em “hoje”. Segundo o criador do termo Bric, acrônimo inventado em 2001 para prever que o grupo formado por Brasil, Rússia, Índia e China como a maior economia do mundo em 2050, o país está deixando de ser apenas uma promessa e se constituindo como potência real.
Em entrevista concedida ao G1, por telefone, o economista britânico Jim O’Neill, diretor de pesquisa do grupo Goldman Sachs, disse que a mudança na mentalidade da população brasileira nos últimos anos é impressionante e foi a melhor surpresa que ele teve desde que começou a pensar sobre o tema. Ele ressaltou a importância da continuidade que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu à política de controle da inflação no país e alegou que é preciso continuar o trabalho após as eleições de 2010.
Leia abaixo a íntegra da entrevista, em que o economista fala ainda de China, redução de emissão de gases, relações internacionais e do susto que tomou ao ver a revista “Economist” colocar o Brasil em sua capa.
G1 - O Brasil é sempre visto como o país do futuro. Quando vai se tornar o país do presente?
Jim O’Neill - O Brasil está finalmente se tornando o país do hoje. Acredito que Lula precisa ser visto como o melhor tomador de grandes decisões políticas desta década. O que mudou foi a mentalidade de todos os brasileiros. Nos primeiros cinco ou seis anos após a criação do termo, sempre que ia ao Brasil as pessoas me perguntavam por que o “B” estava ali? E chegavam a dizer que era uma piada. Como as pessoas não acreditavam no Brasil, era um desafio fazer a inflação ser manter baixa e estável. Graças ao presidente Lula e ao Banco Central, claro, eles conseguiram isso até agora, o que é particularmente impressionante por causa da crise internacional.
Agora, percebo claramente que muitos brasileiros pensam de forma diferente. Quando fui ao Brasil pela última vez, há algumas semanas, percebi que os brasileiros podem planejar para o futuro no longo prazo com uma confiança razoável. Isso é o que mudou.
G1 - A eleição no próximo ano representa um risco para a economia brasileira?
O’Neill - Preciso admitir que quando vi a “Economist” há duas semanas, aquilo me assustou, pois a revista se tornou famosa nos últimos 25 anos por ocasionalmente entender as coisas realmente de forma muito errada. Por muitos anos, a “Economist” questionava a presença do B em Bric, e de repente eles fazem um especial de 18 páginas sobre o Brasil. Isso é assustador.
Mudança de mentalidade faz Brasil virar ‘país do hoje’, diz criador da sigla Bric
No Brasil, o “futuro” está se transformando em “hoje”. Segundo o criador do termo Bric, acrônimo inventado em 2001 para prever que o grupo formado por Brasil, Rússia, Índia e China como a maior economia do mundo em 2050, o país está deixando de ser apenas uma promessa e se constituindo como potência real.Em entrevista concedida ao G1, por telefone, o economista britânico Jim O’Neill, diretor de pesquisa do grupo Goldman Sachs, disse que a mudança na mentalidade da população brasileira nos últimos anos é impressionante e foi a melhor surpresa que ele teve desde que começou a pensar sobre o tema. Ele ressaltou a importância da continuidade que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu à política de controle da inflação no país e alegou que é preciso continuar o trabalho após as eleições de 2010.
Leia abaixo a íntegra da entrevista, em que o economista fala ainda de China, redução de emissão de gases, relações internacionais e do susto que tomou ao ver a revista “Economist” colocar o Brasil em sua capa.
G1 - O Brasil é sempre visto como o país do futuro. Quando vai se tornar o país do presente?
Jim O’Neill - O Brasil está finalmente se tornando o país do hoje. Acredito que Lula precisa ser visto como o melhor tomador de grandes decisões políticas desta década. O que mudou foi a mentalidade de todos os brasileiros. Nos primeiros cinco ou seis anos após a criação do termo, sempre que ia ao Brasil as pessoas me perguntavam por que o “B” estava ali? E chegavam a dizer que era uma piada. Como as pessoas não acreditavam no Brasil, era um desafio fazer a inflação ser manter baixa e estável. Graças ao presidente Lula e ao Banco Central, claro, eles conseguiram isso até agora, o que é particularmente impressionante por causa da crise internacional.
Agora, percebo claramente que muitos brasileiros pensam de forma diferente. Quando fui ao Brasil pela última vez, há algumas semanas, percebi que os brasileiros podem planejar para o futuro no longo prazo com uma confiança razoável. Isso é o que mudou.
G1 - A eleição no próximo ano representa um risco para a economia brasileira?
O’Neill - Preciso admitir que quando vi a “Economist” há duas semanas, aquilo me assustou, pois a revista se tornou famosa nos últimos 25 anos por ocasionalmente entender as coisas realmente de forma muito errada. Por muitos anos, a “Economist” questionava a presença do B em Bric, e de repente eles fazem um especial de 18 páginas sobre o Brasil. Isso é assustador.
As pessoas me diziam, em 2001, que uma das razões pelas quais a idéia de BRIC era loucura era porque o governo Lula seria um desastre. Essa idéia estava espalhada em todo o mundo. Agora o que as pessoas me dizem é que não há riscos na próxima eleição, o que acho bobagem. Vamos perder Lula que foi uma parte importante de tudo isso e não sabemos quem vai vencer nem quais vão ser suas políticas. A eleição é uma fonte de risco e é importante que o Banco Central continue sendo independente, e se torne ainda mais. Acima de tudo, o Brasil precisa começar a reduzir os gastos do governo.
G1 - A criação da ideia de Bric tem alguma influência sobre isso, pode ter ajudado o Brasil a se desenvolver?
O’Neill - Não. Gostaria de pensar que sim, mas sou suspeito, já que se trata de uma criação minha. Mas sei que a criação do termo forçou as pessoas a pensarem sobre o Brasil, incluindo o próprio povo brasileiro. Em alguns sentidos, a criação dos Bric mudou a minha própria vida, já que se tornou algo tão grande. Mas acho que o que me deixa mais feliz desde que a ideia surgiu é o Brasil, pois é onde houve a maior mudança em termos de mentalidade.
G1 - Quando a idéia de BRIC foi criada em 2001, Lula ainda não era presidente. O senhor diz que ele é importante, mas não foi ele que começou este caminho de crescimento, então?
O’Neill - Não, não começou com ele. A razão pela qual o Brasil chamou a atenção foi por conta da luta contra a inflação. O país tinha uma grande população e estava trabalhando com foco na inflação. A razão de Lula ser tão importante é que as pessoas achavam que ele ia interromper isso, mas ele não o fez, e deu continuidade.
G1 - Como o crescimento dos Bric vai afetar as relações internacionais? Os EUA vão aceitar o crescimento dos outros países, sendo inclusive superado pela China? O’Neill - Isso passa dos limites da minha responsabilidade normal, mas claro que penso sobre isso. Em alguns termos, acho que os EUA querem que a China tenha mais responsabilidade e envolvimentos internacionais. O crescimento da China é muito autocentrado, eles não parecem ter nenhuma visão muito forte política ou militar em relação ao resto do mundo. Não parecem ter as mesmas ambições e responsabilidades que os EUA. Acabei de passar algumas semanas lá, e isso é muito claro, e não parece mudar. Com o crescimento, a China vai precisar se tornar mais importante internacionalmente. É peculiar, mas a China não tem os mesmos instintos globais que os EUA.
Esta é mais uma razão pela qual a criação do G20 é saudável. Ela cria um fórum em que uma vez por ano os maiores líderes políticos vão se encontrar para discutir este tipo de coisa.
G1 - Que impacto a decisão chinesa de reduzir as emissões de carbono (anunciada na quinta-feira) pode ter sobre a economia global?
O’Neill - Passei o dia inteiro analisando o anúncio da China e acho que é uma decisão surpreendente. Se acreditarmos no que eles estão dizendo, pode mudar o padrão da demanda de longo prazo de petróleo e combustíveis fósseis.
A dúvida que fica no ar agora é em relação à resposta da Índia. Em nossa pesquisa sobre os BRIC, em nossa projeção de longo prazo, entre 40% e 50% da demanda de energia do mundo nos próximos 40 anos vêm da Índia e da China. Se a china estiver realmente se comprometendo em diminuir as emissões e adotar energia renovável, trata-se de uma decisão muito, muito grande.
Dada a força do Brasil em energia renovável, isso pode ser ainda mais encorajador para a economia brasileira. É um desenvolvimento muito importante e pode significar que a China vai começar a aceitar uma diminuição no crescimento do seu PIB em nome de uma maior preocupação com a qualidade do desenvolvimento.
É algo que no longo termo pode ser favorável ao desenvolvimento. Minha primeira reação é de que pode ajudar a desenvolver o país, pois mostra que a China percebeu que vive uma situação crescente de problemas e limitações internos, que tem efeitos negativos na qualidade das suas commodities.
Daniel Buarque
O’Neill - Não, não começou com ele. A razão pela qual o Brasil chamou a atenção foi por conta da luta contra a inflação. O país tinha uma grande população e estava trabalhando com foco na inflação. A razão de Lula ser tão importante é que as pessoas achavam que ele ia interromper isso, mas ele não o fez, e deu continuidade.
G1 - Como o crescimento dos Bric vai afetar as relações internacionais? Os EUA vão aceitar o crescimento dos outros países, sendo inclusive superado pela China? O’Neill - Isso passa dos limites da minha responsabilidade normal, mas claro que penso sobre isso. Em alguns termos, acho que os EUA querem que a China tenha mais responsabilidade e envolvimentos internacionais. O crescimento da China é muito autocentrado, eles não parecem ter nenhuma visão muito forte política ou militar em relação ao resto do mundo. Não parecem ter as mesmas ambições e responsabilidades que os EUA. Acabei de passar algumas semanas lá, e isso é muito claro, e não parece mudar. Com o crescimento, a China vai precisar se tornar mais importante internacionalmente. É peculiar, mas a China não tem os mesmos instintos globais que os EUA.
Esta é mais uma razão pela qual a criação do G20 é saudável. Ela cria um fórum em que uma vez por ano os maiores líderes políticos vão se encontrar para discutir este tipo de coisa.
G1 - Que impacto a decisão chinesa de reduzir as emissões de carbono (anunciada na quinta-feira) pode ter sobre a economia global?
O’Neill - Passei o dia inteiro analisando o anúncio da China e acho que é uma decisão surpreendente. Se acreditarmos no que eles estão dizendo, pode mudar o padrão da demanda de longo prazo de petróleo e combustíveis fósseis.
A dúvida que fica no ar agora é em relação à resposta da Índia. Em nossa pesquisa sobre os BRIC, em nossa projeção de longo prazo, entre 40% e 50% da demanda de energia do mundo nos próximos 40 anos vêm da Índia e da China. Se a china estiver realmente se comprometendo em diminuir as emissões e adotar energia renovável, trata-se de uma decisão muito, muito grande.
Dada a força do Brasil em energia renovável, isso pode ser ainda mais encorajador para a economia brasileira. É um desenvolvimento muito importante e pode significar que a China vai começar a aceitar uma diminuição no crescimento do seu PIB em nome de uma maior preocupação com a qualidade do desenvolvimento.
É algo que no longo termo pode ser favorável ao desenvolvimento. Minha primeira reação é de que pode ajudar a desenvolver o país, pois mostra que a China percebeu que vive uma situação crescente de problemas e limitações internos, que tem efeitos negativos na qualidade das suas commodities.
Daniel Buarque
Entre crescimento e aquecimento
Texto publicado no G1 em 26 de novembro de 2009. Foi por coincidência que a entrevista marcada na véspera foi feita no mesmo dia em que a China anunciou o corte nas emissões de carbono. O gancho serviu para que fosse publicado no mesmo dia um aperitivo da entrevista, focando a questão chinesa e a influência dela na economia global. A notícia quente do dia, entretanto, reduziu o tamanho da entrevista, que durou apenas 15 minutos.
Anúncio chinês de corte de CO2 é surpreendente, diz criador do termo Bric
A decisão da China de anunciar metas de contenção de emissões de gases-estufa é surpreendente e pode significar que o país vai começar a aceitar uma diminuição no crescimento do seu PIB em nome de uma maior preocupação com a qualidade do desenvolvimento. A avaliação é de Jim O’Neill, criador do termo Bric e diretor de pesquisa do grupo Goldman Sachs, em entrevista ao G1.
O acrônimo imaginado por O’Neill reúne Brasil, Rússia, Índia e China, as quatro principais nações emergentes do mundo. O país asiático declarou nesta quinta-feira (26) que vai, “voluntariamente”, reduzir entre 40% e 45% sua emissão de dióxido de carbono (CO2) por unidade de PIB até 2020, na comparação com os níveis de 2005.
Dúvida agora é qual será a reação da Índia
“Passei o dia inteiro analisando o anúncio da China e acho que é uma decisão surpreendente”, afirmou o economista. “Se acreditarmos no que eles estão dizendo, pode mudar o padrão da demanda de longo prazo de petróleo e combustíveis fósseis.”
Em sua avaliação, a dúvida “que fica no ar agora” é qual será a reação da Índia. “Em nossa projeção de longo prazo sobre os BRIC, entre 40% e 50% da demanda de energia do mundo nos próximos 40 anos vêm da Índia e da China.”
Ainda segundo O’Neill, a adoção de energia renovável pela China em larga escala, se confirmada, pode ser um grande estímulo para a economia brasileira, “dada a força do país em energia renovável”.
Daniel Buarque
Anúncio chinês de corte de CO2 é surpreendente, diz criador do termo Bric
A decisão da China de anunciar metas de contenção de emissões de gases-estufa é surpreendente e pode significar que o país vai começar a aceitar uma diminuição no crescimento do seu PIB em nome de uma maior preocupação com a qualidade do desenvolvimento. A avaliação é de Jim O’Neill, criador do termo Bric e diretor de pesquisa do grupo Goldman Sachs, em entrevista ao G1.O acrônimo imaginado por O’Neill reúne Brasil, Rússia, Índia e China, as quatro principais nações emergentes do mundo. O país asiático declarou nesta quinta-feira (26) que vai, “voluntariamente”, reduzir entre 40% e 45% sua emissão de dióxido de carbono (CO2) por unidade de PIB até 2020, na comparação com os níveis de 2005.
Dúvida agora é qual será a reação da Índia
“Passei o dia inteiro analisando o anúncio da China e acho que é uma decisão surpreendente”, afirmou o economista. “Se acreditarmos no que eles estão dizendo, pode mudar o padrão da demanda de longo prazo de petróleo e combustíveis fósseis.”
Em sua avaliação, a dúvida “que fica no ar agora” é qual será a reação da Índia. “Em nossa projeção de longo prazo sobre os BRIC, entre 40% e 50% da demanda de energia do mundo nos próximos 40 anos vêm da Índia e da China.”
Ainda segundo O’Neill, a adoção de energia renovável pela China em larga escala, se confirmada, pode ser um grande estímulo para a economia brasileira, “dada a força do país em energia renovável”.
Daniel Buarque
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Legalize it!
Reportagem publicada no G1 em 24 de novembro de 2009, uma semana após a inauguração do primeiro local público em que se pode fumar maconha livremente nos Estados Unidos. Em entrevista, o diretor do grupo responsável pelo Cannabis Café discute a influência de Obama e a abertura legal para a droga no país.
Com Obama na Presidência, EUA se tornam mais tolerantes com maconha
O café inaugurado na última semana na cidade de Portland, nos Estados Unidos, comporta entre 30 e 40 pessoas ao mesmo tempo. Lá dentro, funciona uma espécie de “mercado de pulgas”, em que as pessoas podem vender, trocar e consumir livre e legalmente o produto que as reúne ali: maconha.
A exemplo do que acontece nos tradicionais coffee shops da Holanda, o Cannabis Café é o primeiro lugar em que os usuários da droga podem se reunir e consumi-la sem risco de ter problemas com a polícia, contanto que haja um registro da necessidade uso por motivos medicinais. Seu surgimento está sendo considerado pelas organizações que lutam pela descriminalização da maconha como um dos principais avanços recentes no país, um reflexo de maior tolerância por parte do governo do presidente Barack Obama.
“Sem dúvida o governo Obama tem ajudado nosso trabalho. Houve uma mudança clara e absoluta de política e interpretação da lei”, disse Allen St. Pierre, diretor da Organização Nacional pela Reforma das Leis de Maconha (Norml, da sigla em inglês), um dos principais grupos defensores da legalização da droga nos Estados Unidos e responsáveis pelo recém-inaugurado café, em entrevista ao G1.
“Apesar de Obama dizer ser contra a legalização total da droga, ele pode ser creditado pelas mudanças que relaxam a repressão à maconha medicinal”, disse. O governo dos EUA anunciou em outubro que não vai mais reprimir o consumo de maconha para uso médico nos Estados do país nos quais ele é permitido. Um documento pede aos procuradores para que não usem recursos federais contra "indivíduos cujas ações estão em cumprimento claro e inequívoco das leis estaduais existentes relacionadas ao uso médico da maconha".
Legalização
Para o diretor do grupo, a inauguração do café é um passo adiante no sentido da legalização da maconha. “Cinco anos atrás isso seria muito improvável; há dez anos era impossível e nem se podia pensar nisso há vinte anos. A cada ano há uma aceitação maior de reformas, e este é mais um exemplo”, disse.
Ele admitiu, entretanto, que é difícil imaginar que todo o país vai permitir o uso da droga em pouco tempo, até por questões constitucionais e culturais. Nos Estados Unidos, os Estados podem decidir de forma independente em relação ao uso medicinal de maconha e os governos de Alasca, Califórnia, Colorado, Havaí, Maine, Maryland, Michigan, Montana, Nevada, Novo México, Oregon, Rhode Island, Vermont e Washington autorizam seu consumo nestes casos.
“As coisas estão se desenvolvendo em bases locais, onde há uma aceitação cultural maior”, explicou. Segundo ele, o Norml não vai tentar abrir nenhum café de maconha em locais mais conservadores, como Kansas, Oklahoma ou Geórgia. “A a cultura é mais aberta em locais como Seattle, Portland, Berkeley, Oakland, Sao Francisco, Denver. São partes do país em que os cidadãos aceitam algumas formas de distribuição legal de maconha, ou formação de comunidades em que o consumo é permitido.”
Segundo ele, estes locais são os “laboratórios da democracia”, e a Califórnia, uma das maiores populações e economias do país, pode se tornar um exemplo a ser seguido por outros estados e até pelo governo federal. “A Califórnia está seguindo um caminho reformador no sentido da descriminalização da maconha. Não parece impossível e distante pensar sobre um esquema de controle e taxação até mesmo para o consumo não medicinal da maconha no estado.”
Uso médico e recreativo
Todo o avanço na legislação relacionada ao uso de maconha vem acontecendo com base na lei de cannabis para uso medicinal, pois apenas as pessoas com indicação podem usar a maconha e participar de comunidades em que há o consumo de maconha. Os parâmetros para o uso de maconha medicinal são muito variados, e mudam de um estado para o outro, explicou St. Pierre. Em alguns lugares, há sistemas mais simples e fáceis, enquanto outros têm um controle mais sério.
“No Maine, por exemplo, as pessoas podem ter alguns gramas de maconha seca, além de poderem cultivar cinco pés dela, sendo três em estado de maturidade. Na Califórnia, as pessoas não recebem uma receita médica indicando o uso de maconha, mas apenas uma recomendação oral do médico, e esta recomendação é checada pelos centros que podem fornecer a droga legalmente, registrando o paciente e permitindo que ela tenha acesso à maconha.”
Até a inauguração do bar de Portland, o uso da droga não podia ser feito em locais públicos. O Cannabis Café, tecnicamente um clube privado, é aberto a qualquer residente do estado de Oregon que faça parte do grupo Norml e tenha uma carteira oficial do uso medicinal da maconha - 21 mil pessoas estão registradas desta forma no estado para tratar mal de Alzheimer, diabetes, esclerose múltipla e síndrome de Tourette. Os "sócios" pagam US$ 25 (cerca de R$ 44) por mês para usar o café, que tem capacidade para cem pessoas. Por este valor, eles terão direito a receber a droga gratuitamente de outros usuários. O bar também serve comida, mas nenhum tipo de bebida alcoólica.
Apesar de a discussão legal até o momento se concentrar nos lugares em que há o uso médico da droga, a Califórnia já prepara um avanço na questão, admitindo que os cidadãos votem uma medida que permitiria que as decisões passassem a ser tomadas pelos municípios. Segundo St. Pierre, a cidade californiana de Oakland, que chega a ser conhecida como Oaksterdam, em referência à capital da Holanda, já se prepara para buscar o direito de ser a primeira em que a droga paga impostos e pode ser consumida livremente por qualquer pessoa.
“Os cidadãos de lá já votaram pedindo que a maconha seja taxada e legal, mas é preciso que a lei estadual permita essa decisão. Isso está sendo discutido e vai precisar de uma mudança na lei estadual. Haverá uma consulta na eleição de 2010, para que os cidadãos digam se permitem que municípios possam legalizar o uso de maconha, se quiserem. ‘Oaksterdam’ já está se organizando para isso, mas é o único lugar que esta se estruturando para autorizar o uso recreativo.”
Exemplo holandês
O grupo Norml constantemente usa o exemplo da Holanda como comparação para argumentar a favor da legalização da maconha nos Estados Unidos. A legislação do país europeu permite que alguns lugares credenciados vendam a droga livremente. “Trata-se de um país ocidental com valores parecidos com os norte-americanos que aprendeu há muito tempo que a única relação real entre maconha e drogas pesadas, como heroína, cocaína, é o canal de distribuição. Quando se separam os canais de distribuição, a probabilidade de um consumidor de maconha passar para drogas mais perigosas é reduzido”, argumentou St. Pierre.
Na medida em que relaxou o controle ao uso medicinal da maconha, o procurador-geral dos Estados Unidos, Eric Holder, deixou claro que a polícia e os procuradores continuarão trabalhando para punir os que usarem das leis destes estados para usar drogas ilegais ou traficar drogas.
Daniel Buarque
Com Obama na Presidência, EUA se tornam mais tolerantes com maconha
O café inaugurado na última semana na cidade de Portland, nos Estados Unidos, comporta entre 30 e 40 pessoas ao mesmo tempo. Lá dentro, funciona uma espécie de “mercado de pulgas”, em que as pessoas podem vender, trocar e consumir livre e legalmente o produto que as reúne ali: maconha.A exemplo do que acontece nos tradicionais coffee shops da Holanda, o Cannabis Café é o primeiro lugar em que os usuários da droga podem se reunir e consumi-la sem risco de ter problemas com a polícia, contanto que haja um registro da necessidade uso por motivos medicinais. Seu surgimento está sendo considerado pelas organizações que lutam pela descriminalização da maconha como um dos principais avanços recentes no país, um reflexo de maior tolerância por parte do governo do presidente Barack Obama.
“Sem dúvida o governo Obama tem ajudado nosso trabalho. Houve uma mudança clara e absoluta de política e interpretação da lei”, disse Allen St. Pierre, diretor da Organização Nacional pela Reforma das Leis de Maconha (Norml, da sigla em inglês), um dos principais grupos defensores da legalização da droga nos Estados Unidos e responsáveis pelo recém-inaugurado café, em entrevista ao G1.
“Apesar de Obama dizer ser contra a legalização total da droga, ele pode ser creditado pelas mudanças que relaxam a repressão à maconha medicinal”, disse. O governo dos EUA anunciou em outubro que não vai mais reprimir o consumo de maconha para uso médico nos Estados do país nos quais ele é permitido. Um documento pede aos procuradores para que não usem recursos federais contra "indivíduos cujas ações estão em cumprimento claro e inequívoco das leis estaduais existentes relacionadas ao uso médico da maconha".
Legalização
Para o diretor do grupo, a inauguração do café é um passo adiante no sentido da legalização da maconha. “Cinco anos atrás isso seria muito improvável; há dez anos era impossível e nem se podia pensar nisso há vinte anos. A cada ano há uma aceitação maior de reformas, e este é mais um exemplo”, disse.
Ele admitiu, entretanto, que é difícil imaginar que todo o país vai permitir o uso da droga em pouco tempo, até por questões constitucionais e culturais. Nos Estados Unidos, os Estados podem decidir de forma independente em relação ao uso medicinal de maconha e os governos de Alasca, Califórnia, Colorado, Havaí, Maine, Maryland, Michigan, Montana, Nevada, Novo México, Oregon, Rhode Island, Vermont e Washington autorizam seu consumo nestes casos.“As coisas estão se desenvolvendo em bases locais, onde há uma aceitação cultural maior”, explicou. Segundo ele, o Norml não vai tentar abrir nenhum café de maconha em locais mais conservadores, como Kansas, Oklahoma ou Geórgia. “A a cultura é mais aberta em locais como Seattle, Portland, Berkeley, Oakland, Sao Francisco, Denver. São partes do país em que os cidadãos aceitam algumas formas de distribuição legal de maconha, ou formação de comunidades em que o consumo é permitido.”
Segundo ele, estes locais são os “laboratórios da democracia”, e a Califórnia, uma das maiores populações e economias do país, pode se tornar um exemplo a ser seguido por outros estados e até pelo governo federal. “A Califórnia está seguindo um caminho reformador no sentido da descriminalização da maconha. Não parece impossível e distante pensar sobre um esquema de controle e taxação até mesmo para o consumo não medicinal da maconha no estado.”
Uso médico e recreativo
Todo o avanço na legislação relacionada ao uso de maconha vem acontecendo com base na lei de cannabis para uso medicinal, pois apenas as pessoas com indicação podem usar a maconha e participar de comunidades em que há o consumo de maconha. Os parâmetros para o uso de maconha medicinal são muito variados, e mudam de um estado para o outro, explicou St. Pierre. Em alguns lugares, há sistemas mais simples e fáceis, enquanto outros têm um controle mais sério.
“No Maine, por exemplo, as pessoas podem ter alguns gramas de maconha seca, além de poderem cultivar cinco pés dela, sendo três em estado de maturidade. Na Califórnia, as pessoas não recebem uma receita médica indicando o uso de maconha, mas apenas uma recomendação oral do médico, e esta recomendação é checada pelos centros que podem fornecer a droga legalmente, registrando o paciente e permitindo que ela tenha acesso à maconha.”
Até a inauguração do bar de Portland, o uso da droga não podia ser feito em locais públicos. O Cannabis Café, tecnicamente um clube privado, é aberto a qualquer residente do estado de Oregon que faça parte do grupo Norml e tenha uma carteira oficial do uso medicinal da maconha - 21 mil pessoas estão registradas desta forma no estado para tratar mal de Alzheimer, diabetes, esclerose múltipla e síndrome de Tourette. Os "sócios" pagam US$ 25 (cerca de R$ 44) por mês para usar o café, que tem capacidade para cem pessoas. Por este valor, eles terão direito a receber a droga gratuitamente de outros usuários. O bar também serve comida, mas nenhum tipo de bebida alcoólica.
Apesar de a discussão legal até o momento se concentrar nos lugares em que há o uso médico da droga, a Califórnia já prepara um avanço na questão, admitindo que os cidadãos votem uma medida que permitiria que as decisões passassem a ser tomadas pelos municípios. Segundo St. Pierre, a cidade californiana de Oakland, que chega a ser conhecida como Oaksterdam, em referência à capital da Holanda, já se prepara para buscar o direito de ser a primeira em que a droga paga impostos e pode ser consumida livremente por qualquer pessoa.
“Os cidadãos de lá já votaram pedindo que a maconha seja taxada e legal, mas é preciso que a lei estadual permita essa decisão. Isso está sendo discutido e vai precisar de uma mudança na lei estadual. Haverá uma consulta na eleição de 2010, para que os cidadãos digam se permitem que municípios possam legalizar o uso de maconha, se quiserem. ‘Oaksterdam’ já está se organizando para isso, mas é o único lugar que esta se estruturando para autorizar o uso recreativo.”
Exemplo holandês
O grupo Norml constantemente usa o exemplo da Holanda como comparação para argumentar a favor da legalização da maconha nos Estados Unidos. A legislação do país europeu permite que alguns lugares credenciados vendam a droga livremente. “Trata-se de um país ocidental com valores parecidos com os norte-americanos que aprendeu há muito tempo que a única relação real entre maconha e drogas pesadas, como heroína, cocaína, é o canal de distribuição. Quando se separam os canais de distribuição, a probabilidade de um consumidor de maconha passar para drogas mais perigosas é reduzido”, argumentou St. Pierre.
Na medida em que relaxou o controle ao uso medicinal da maconha, o procurador-geral dos Estados Unidos, Eric Holder, deixou claro que a polícia e os procuradores continuarão trabalhando para punir os que usarem das leis destes estados para usar drogas ilegais ou traficar drogas.
Daniel Buarque
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Tchau, Radar!
Reportagem publicada no G1 em 22 de novembro de 2009. A pauta a respeito do novo sistema de controle aéreo vinha sendo adiada para conseguir a entrevista, Seria uma reportagem menor, não fosse a avaliação do pesquisador do MIT de que a tecnologia poderia ter evitado um dos maiores acidentes aéreos da história do Brasil.
Sistema de controle aéreo sem radar é testado nos EUA
Um sistema de monitoramento de aviões que não usa radar está sendo testado pela primeira vez nos Estados Unidos, abrindo caminho para a implementação de um controle de tráfego aéreo mais moderno, barato e seguro. A tecnologia usa informações de satélite e está sendo aplicada no estado do Colorado. Ela permite que os controladores e os próprios pilotos saibam a localização exata de todas as aeronaves dentro da mesma região.
Em entrevista ao G1, o diretor do Centro Internacional de Transporte Aéreo do MIT (Massachusetts Institute of Technology), John Hansman, explicou o funcionamento deste novo sistema. Segundo ele, esta ferramenta vai tornar voos mais seguros, e poderia ter evitado o acidente com o Boeing 737 da Gol, que matou 154 pessoas em 2006, ao cair no Mato Grosso após um choque com um jato Legacy durante o voo.
"Este sistema poderia ter evitado o acidente. Em primeiro lugar, os controladores aéreos teriam um conhecimento melhor das posições dos aviões e, em segundo, os próprios aviões poderiam ver suas posições, e saber que havia uma aproximação evitando o choque", explicou.
O novo sistema deve ser implementado em todas as regiões dos Estados Unidos até 2020. Ele funciona através da emissão de sinais das aeronaves, que são medidos por sensores espalhados em terras e em outros aviões, sendo determinada a localização exata delas, explicou. "Os aviões sabem onde eles estão através de informações de seus próprios sistemas de navegação, como o GPS. Com este novo sistema, eles enviam uma mensagem para todos que estão dentro de um raio específico, informando esta posição. E qualquer avião que esteja próximo desta aeronave pode saber a posição dele em relação à sua, numa tela dentro da cabine de comando", disse.
Além disso, completou, desde o chão, o controle de tráfego aéreo pode trabalhar usando um rádio normal, que é mais simples e barato, que decodifica a informação em um display semelhante ao de radar. “Do ponto de vista do controle aéreo, esta tecnologia é a próxima geração do monitoramento, que é como se mede a localização das aeronaves.”
Monitoramento
Desde os anos 1950, o radar é a base dos sistemas de controle aéreo usados no mundo, servindo para evitar colisões e ordenar o tráfego de aeronaves. Apesar de choques entre aeronaves serem raros, a autoridade norte-americana de aviação alega que o radar tem limitações técnicas que levam a atrasos nos voos em todo o país. Os sistemas com base em informações enviadas por satélites podem oferecer informações mais exatas e corrigir este problema, permitindo um intervalo menor entre pousos em um mesmo aeroporto.
Além de ser mais exato, o sistema em teste atualmente tem um custo muito mais baixo de que o da construção de radares, que são caros e dificilmente podem ser construídos por toda a parte. Segundo uma reportagem publicada no jornal "USA Today", o sistema em teste em todo o estado do Colorado custou o mesmo que a contrução de apenas um radar em aeroporto.
“É um sistema que pode ajudar muito países grandes como o Brasil, que tem um território tão grande. É difícil ter radares em todos os lugares do país, mas com este sistema se torna muito barato, usando apenas equipamentos de rádio mais simples, ter as mesmas informações que se conseguiria com radares”, disse Hansman. Segundo ele, em alguns anos o Brasil também poderá começar a testar o novo sistema, que pode logo se espalhar pelo país.
Sem panaceia
O professor do MIT explicou, entretanto, que este sistema não vai corrigir todos os problemas da aviação no mundo, mas apenas tornar mais fácil o monitoramento, permitindo saber a localização exata dos aviões a cada momento. Segundo ele, esta tecnologia não faria diferença se estivesse em funcionamento na época em que o voo AF 447 caiu no Oceano Atlântico enquanto ia do Rio de Janeiro para Paris.
“No caso do acidente da Air France, seria impossível saber onde o avião desapareceu. O problema é que rádios convencionais não vão tão longe, e quando se está a algumas centenas de milhas no oceano, não se tem comunicação direta. Rádio normal só segue em linha reta e por conta da curvatura da terra, quando se passa de uma certa distância, seria preciso olhar através do chão para encontrar a aeronave, como as onda de rádio não passam pela terra, é impossível.”
O especialista em aviação explicou que o novo sistema de monitoramento de tráfego aéreo é uma das principais tecnologias em desenvolvimento na atualidade. Segundo ele, também está sendo trabalhado um sistema comunicação automática de dados entre o avião e os controladores. “Temos uma versão crua disso em alguns aviões, mas precisamos atualizar isso, que na verdade é um sistema de troca de emails entre a aeronave e o controle em terra, permitindo que o controle crítico seja feito em formato de dados”, disse.
Analisando a dificuldade em determinar as causas do acidente da Air France por conta de não terem sido encontradas as caixas pretas da aeronave, Hansman alegou que não é necessário elaborar nenhum sistema novo para armazenamento de informações de segurança de voo, pois o que existe já costuma funcionar bem.
“O acidente da Air France foi um caso muito específico. Em 99,9% dos casos é possível recuperar as caixas pretas após o acidente ou descobrir de outra forma as causas do acidente, então não sei se faz sentido mudar totalmente o sistema de registro de informações de vôos por causa desse caso isolado.”
Daniel Buarque
Sistema de controle aéreo sem radar é testado nos EUA
Um sistema de monitoramento de aviões que não usa radar está sendo testado pela primeira vez nos Estados Unidos, abrindo caminho para a implementação de um controle de tráfego aéreo mais moderno, barato e seguro. A tecnologia usa informações de satélite e está sendo aplicada no estado do Colorado. Ela permite que os controladores e os próprios pilotos saibam a localização exata de todas as aeronaves dentro da mesma região.Em entrevista ao G1, o diretor do Centro Internacional de Transporte Aéreo do MIT (Massachusetts Institute of Technology), John Hansman, explicou o funcionamento deste novo sistema. Segundo ele, esta ferramenta vai tornar voos mais seguros, e poderia ter evitado o acidente com o Boeing 737 da Gol, que matou 154 pessoas em 2006, ao cair no Mato Grosso após um choque com um jato Legacy durante o voo.
"Este sistema poderia ter evitado o acidente. Em primeiro lugar, os controladores aéreos teriam um conhecimento melhor das posições dos aviões e, em segundo, os próprios aviões poderiam ver suas posições, e saber que havia uma aproximação evitando o choque", explicou.
O novo sistema deve ser implementado em todas as regiões dos Estados Unidos até 2020. Ele funciona através da emissão de sinais das aeronaves, que são medidos por sensores espalhados em terras e em outros aviões, sendo determinada a localização exata delas, explicou. "Os aviões sabem onde eles estão através de informações de seus próprios sistemas de navegação, como o GPS. Com este novo sistema, eles enviam uma mensagem para todos que estão dentro de um raio específico, informando esta posição. E qualquer avião que esteja próximo desta aeronave pode saber a posição dele em relação à sua, numa tela dentro da cabine de comando", disse.
Além disso, completou, desde o chão, o controle de tráfego aéreo pode trabalhar usando um rádio normal, que é mais simples e barato, que decodifica a informação em um display semelhante ao de radar. “Do ponto de vista do controle aéreo, esta tecnologia é a próxima geração do monitoramento, que é como se mede a localização das aeronaves.”
Monitoramento
Desde os anos 1950, o radar é a base dos sistemas de controle aéreo usados no mundo, servindo para evitar colisões e ordenar o tráfego de aeronaves. Apesar de choques entre aeronaves serem raros, a autoridade norte-americana de aviação alega que o radar tem limitações técnicas que levam a atrasos nos voos em todo o país. Os sistemas com base em informações enviadas por satélites podem oferecer informações mais exatas e corrigir este problema, permitindo um intervalo menor entre pousos em um mesmo aeroporto.
Além de ser mais exato, o sistema em teste atualmente tem um custo muito mais baixo de que o da construção de radares, que são caros e dificilmente podem ser construídos por toda a parte. Segundo uma reportagem publicada no jornal "USA Today", o sistema em teste em todo o estado do Colorado custou o mesmo que a contrução de apenas um radar em aeroporto.
“É um sistema que pode ajudar muito países grandes como o Brasil, que tem um território tão grande. É difícil ter radares em todos os lugares do país, mas com este sistema se torna muito barato, usando apenas equipamentos de rádio mais simples, ter as mesmas informações que se conseguiria com radares”, disse Hansman. Segundo ele, em alguns anos o Brasil também poderá começar a testar o novo sistema, que pode logo se espalhar pelo país.
Sem panaceia
O professor do MIT explicou, entretanto, que este sistema não vai corrigir todos os problemas da aviação no mundo, mas apenas tornar mais fácil o monitoramento, permitindo saber a localização exata dos aviões a cada momento. Segundo ele, esta tecnologia não faria diferença se estivesse em funcionamento na época em que o voo AF 447 caiu no Oceano Atlântico enquanto ia do Rio de Janeiro para Paris.
“No caso do acidente da Air France, seria impossível saber onde o avião desapareceu. O problema é que rádios convencionais não vão tão longe, e quando se está a algumas centenas de milhas no oceano, não se tem comunicação direta. Rádio normal só segue em linha reta e por conta da curvatura da terra, quando se passa de uma certa distância, seria preciso olhar através do chão para encontrar a aeronave, como as onda de rádio não passam pela terra, é impossível.”
O especialista em aviação explicou que o novo sistema de monitoramento de tráfego aéreo é uma das principais tecnologias em desenvolvimento na atualidade. Segundo ele, também está sendo trabalhado um sistema comunicação automática de dados entre o avião e os controladores. “Temos uma versão crua disso em alguns aviões, mas precisamos atualizar isso, que na verdade é um sistema de troca de emails entre a aeronave e o controle em terra, permitindo que o controle crítico seja feito em formato de dados”, disse.
Analisando a dificuldade em determinar as causas do acidente da Air France por conta de não terem sido encontradas as caixas pretas da aeronave, Hansman alegou que não é necessário elaborar nenhum sistema novo para armazenamento de informações de segurança de voo, pois o que existe já costuma funcionar bem.
“O acidente da Air France foi um caso muito específico. Em 99,9% dos casos é possível recuperar as caixas pretas após o acidente ou descobrir de outra forma as causas do acidente, então não sei se faz sentido mudar totalmente o sistema de registro de informações de vôos por causa desse caso isolado.”
Daniel Buarque
Contrapropaganda de guerra
Reportagem publicada no G1 em 21 de novembro de 2009. Resultado de uma mudança de foco de reportagem por conta do gancho, Originalmente, a pauta havia sido pensada como algo voltado especificamente para o terrorismo interno dos Estados Unidos, discutindo o que aconteceu na base de Fort Hood. a discussão a respeito do julgamento dos terroristas e a crítica do entrevistado em relação a ele acabaram mudando o foco e o lide da matéria.
Julgamento do 11/9 é um espetáculo para os terroristas, diz pesquisador
A polêmica decisão de julgar cinco suspeitos de envolvimento nos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 tribunais civis em Nova York pode servir como plataforma para que os terroristas "mostrem ao mundo do que são capazes", segundo Steven Emerson, um dos principais pesquisadores sobre redes de extremismo islâmico nos Estados Unidos.
Em entrevista concedida ao G1, por telefone, Emerson disse concordar com as críticas de políticos republicanos, que acusam a decisão do governo do presidente Barack Obama de ser uma irresponsabilidade capaz de colocar em risco a segurança do país. “O julgamento não vai ser eficiente no sentido de deter este tipo de ação terrorista, e vai servir como espetáculo do radicalismo”, disse Emerson, autor de livros como "Jihad incorporated" e "American Jihad", em que esmiúça o financiamento e o planejamento de ações terroristas.
“Acho que foi uma decisão errada, e um tribunal militar seria muito mais eficiente. Julgar estas pessoas em Nova York vai ser até mesmo perigoso, pois há regras diferentes para o tratamento de provas e evidências, e vai ser dado muito espaço para que os suspeitos se defendam e fujam das acusações contra eles”, disse. Para ele, os acusados podem dizer que tudo o que eles falaram até o momento foi arrancado à força, sob tortura e alegar até mesmo inocência.
O presidente Obama defendeu na quarta-feira (18) o plano de julgar o suposto mentor dos ataques em cortes criminais. Ele considerou que o sistema judiciário dos Estados Unidos será capaz de conduzir os julgamentos e que ao final Khalid Sheikh Mohammed e seus cúmplices, presos em Guantánamo, serão condenados e sentenciados à morte. "Acho que temos de romper essa noção temerosa de que nosso sistema judiciário não pode lidar com esses caras", disse.
Cinco acusados de tramar os ataques que mataram 3 mil pessoas no Wolrd Trade Center e no Pentágono serão transferidos da prisão militar de Guantánamo para um tribunal em Nova York, perto do local onde ficavam as torres atingidas por aviões no atentado, onde serão julgados. Khalid Sheikh Mohammed e os outros quatro suspeitos estavam sendo julgados por comissões militares na base naval norte-americana em Cuba, mas o presidente Obama prometeu transferir alguns casos para tribunais nos EUA e fechar Guantánamo.
Terrorismo interno
Especialista em ações terroristas dentro dos Estados Unidos, Emerson disse na entrevista ao G1 que existe uma mentalidade “jihadista” ativa dentro do país, por mais que ache que muita gente não quer aceitar. “A realidade de radicalismo é muito maior de que o FBI e o governo querem admitir. Isso não quer dizer que todos os muçulmanos são terroristas, muito pelo contrário, pois a grande maioria é pacífica. Mas ainda existe um grande grau de apoio à guerra santa que é capaz de realizar ataques como o que ocorreu na base militar de Fort Hood.”
O psiquiatra militar Nidal Hasan foi indiciado na última semana pelo massacre de 13 pessoas na base militar de Fort Hood, no Texas em 5 de novembro. De origem palestina, ele é acusado de ter deflagrado o tiroteio mais mortífero já registrado em uma base militar americana, que deixou ainda 42 feridos.
Segundo Emerson, o ataque foi uma surpresa, pois o FBI tem conseguido impedir cerca de 99% dos ataques terroristas deste tipo. “Fiquei surpreso na falha em permitir o ataque. O fato de ocorrer um ataque jihadista, por outro lado, não me surpreendeu. Estamos esperando mais ações deste tipo desde 2009, mas o FBI está apenas começando a entender o risco real.”
O combate ao terrorismo dentro do país precisa de mais que ação policial, disse. “É preciso que grupos islâmicos admitam que a jihad existe e trabalhem para deslegitimar este tipo de ação radical. Sem a ajuda de grupos islâmicos dentro dos EUA, atuando junto à comunidade muçulmana, vai ser muito deslegitimar a violência e fazer com que diminua o risco de um ataque dentro dos Estados Unidos.”
Internet
A internet, disse, tem se consolidado como um fator de radicalização, pois contribuiu para um aumento no número de pessoas que querem e podem realizar ataques dentro dos Estados Unidos. De acordo com a investigação do ataque na base do Texas, Hasan se correspondia por e-mails com o imã iemenita radical Anouar al-Aulaqui, suspeito, de acordo com as autoridades americanas, de ter ligações com a al-Qaeda. O imã chamou o assassino de herói após a matança.
“A internet permite que qualquer pessoa contate grupos radicais em qualquer parte do mundo, sem limites. Ela definitivamente radicalizou mais pessoas, pois ofereceu a possibilidade de elas terem contato com o radicalismo sem expor sua identidade, permitindo que eles tenham acesso à mentalidade jihadistas mantendo sua privacidade.”
Uma reportagem publicada na última semana pela revista “Foreign Policy” alega que a internet tem um papel definitivo no que chamam de “lone wolves”, lobos solitários, que seriam os terroristas que agem sozinhos. Através da rede de computadores, eles são cooptados por grupos terroristas, e até treinados para cometer atentados.
Daniel Buarque
Julgamento do 11/9 é um espetáculo para os terroristas, diz pesquisador
A polêmica decisão de julgar cinco suspeitos de envolvimento nos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 tribunais civis em Nova York pode servir como plataforma para que os terroristas "mostrem ao mundo do que são capazes", segundo Steven Emerson, um dos principais pesquisadores sobre redes de extremismo islâmico nos Estados Unidos.Em entrevista concedida ao G1, por telefone, Emerson disse concordar com as críticas de políticos republicanos, que acusam a decisão do governo do presidente Barack Obama de ser uma irresponsabilidade capaz de colocar em risco a segurança do país. “O julgamento não vai ser eficiente no sentido de deter este tipo de ação terrorista, e vai servir como espetáculo do radicalismo”, disse Emerson, autor de livros como "Jihad incorporated" e "American Jihad", em que esmiúça o financiamento e o planejamento de ações terroristas.
“Acho que foi uma decisão errada, e um tribunal militar seria muito mais eficiente. Julgar estas pessoas em Nova York vai ser até mesmo perigoso, pois há regras diferentes para o tratamento de provas e evidências, e vai ser dado muito espaço para que os suspeitos se defendam e fujam das acusações contra eles”, disse. Para ele, os acusados podem dizer que tudo o que eles falaram até o momento foi arrancado à força, sob tortura e alegar até mesmo inocência.
O presidente Obama defendeu na quarta-feira (18) o plano de julgar o suposto mentor dos ataques em cortes criminais. Ele considerou que o sistema judiciário dos Estados Unidos será capaz de conduzir os julgamentos e que ao final Khalid Sheikh Mohammed e seus cúmplices, presos em Guantánamo, serão condenados e sentenciados à morte. "Acho que temos de romper essa noção temerosa de que nosso sistema judiciário não pode lidar com esses caras", disse.
Cinco acusados de tramar os ataques que mataram 3 mil pessoas no Wolrd Trade Center e no Pentágono serão transferidos da prisão militar de Guantánamo para um tribunal em Nova York, perto do local onde ficavam as torres atingidas por aviões no atentado, onde serão julgados. Khalid Sheikh Mohammed e os outros quatro suspeitos estavam sendo julgados por comissões militares na base naval norte-americana em Cuba, mas o presidente Obama prometeu transferir alguns casos para tribunais nos EUA e fechar Guantánamo.
Terrorismo interno
Especialista em ações terroristas dentro dos Estados Unidos, Emerson disse na entrevista ao G1 que existe uma mentalidade “jihadista” ativa dentro do país, por mais que ache que muita gente não quer aceitar. “A realidade de radicalismo é muito maior de que o FBI e o governo querem admitir. Isso não quer dizer que todos os muçulmanos são terroristas, muito pelo contrário, pois a grande maioria é pacífica. Mas ainda existe um grande grau de apoio à guerra santa que é capaz de realizar ataques como o que ocorreu na base militar de Fort Hood.”
O psiquiatra militar Nidal Hasan foi indiciado na última semana pelo massacre de 13 pessoas na base militar de Fort Hood, no Texas em 5 de novembro. De origem palestina, ele é acusado de ter deflagrado o tiroteio mais mortífero já registrado em uma base militar americana, que deixou ainda 42 feridos.
Segundo Emerson, o ataque foi uma surpresa, pois o FBI tem conseguido impedir cerca de 99% dos ataques terroristas deste tipo. “Fiquei surpreso na falha em permitir o ataque. O fato de ocorrer um ataque jihadista, por outro lado, não me surpreendeu. Estamos esperando mais ações deste tipo desde 2009, mas o FBI está apenas começando a entender o risco real.”
O combate ao terrorismo dentro do país precisa de mais que ação policial, disse. “É preciso que grupos islâmicos admitam que a jihad existe e trabalhem para deslegitimar este tipo de ação radical. Sem a ajuda de grupos islâmicos dentro dos EUA, atuando junto à comunidade muçulmana, vai ser muito deslegitimar a violência e fazer com que diminua o risco de um ataque dentro dos Estados Unidos.”
Internet
A internet, disse, tem se consolidado como um fator de radicalização, pois contribuiu para um aumento no número de pessoas que querem e podem realizar ataques dentro dos Estados Unidos. De acordo com a investigação do ataque na base do Texas, Hasan se correspondia por e-mails com o imã iemenita radical Anouar al-Aulaqui, suspeito, de acordo com as autoridades americanas, de ter ligações com a al-Qaeda. O imã chamou o assassino de herói após a matança.
“A internet permite que qualquer pessoa contate grupos radicais em qualquer parte do mundo, sem limites. Ela definitivamente radicalizou mais pessoas, pois ofereceu a possibilidade de elas terem contato com o radicalismo sem expor sua identidade, permitindo que eles tenham acesso à mentalidade jihadistas mantendo sua privacidade.”
Uma reportagem publicada na última semana pela revista “Foreign Policy” alega que a internet tem um papel definitivo no que chamam de “lone wolves”, lobos solitários, que seriam os terroristas que agem sozinhos. Através da rede de computadores, eles são cooptados por grupos terroristas, e até treinados para cometer atentados.
Daniel Buarque
Crise de imagem
Texto publicado no G1 em 20 de novembro de 2009. A pauta foi reduzida em função da falta de tempo a fim de aproveitar o gancho dos dez meses de governo. A ideia era buscar explicar a queda na popularidade e esmiuçar os números, mas acabou sendo um relato menor e mais simplificado, trazendo bons gráficos que mostram a queda na popularidade.
Dez meses após assumir a presidência, Obama enfrenta ‘crise’ de popularidade
Em menos de um ano, boa parte da euforia política norte-americana deu lugar à frustração. Há dez meses, em 20 de janeiro, Barack Hussein Obama assumia a Presidência dos Estados Unidos espalhando um clima de festa e esperança entre a população. Ele substituía George W. Bush, que fez um dos governos mais mal avaliados da história do país, e chegava ao poder com índices de aprovação impressionantes. Ao se aproximar de um ano do seu primeiro mandato, Obama continua popular, mas já não tem mais o mesmo apelo, e pouco do seu discurso por “mudança” se concretizou.
A aprovação de Obama mudou de perfil ao longo dos dez meses do seu governo. Depois de assumir com apoio de quase 70% da população do país, o presidente estacionou próximo dos 50%, com algumas pesquisas mostrando índices ainda piores. A queda na aprovação foi acompanhada do aumento da avaliação negativa do seu governo. Antes com números insignificantes, a rejeição já se aproxima dos 50%. Alguns institutos chegam a apontar que ele tem mais rejeição de que apoio.
Pouco mais de um ano após sua vitória nas eleições de novembro de 2008, Obama tem em suas mãos duas guerras abertas, crise econômica e uma série de conflitos políticos para tentar implementar reformas propostas por seu governo. A popularidade inicial era impulsionada pela promessa de fechar no prazo de um ano a prisão de Guantánamo, propiciar um acordo de paz para o Oriente Médio, assim como seus anúncios de que um plano de estímulo conseguiria tirar o país da recessão. Mas essas promessas parecem ter sido mais difíceis de cumprir do que o líder pensava.
Veja abaixo a evolução da aprovação de Obama nos Estados Unidos
Dez meses após assumir a presidência, Obama enfrenta ‘crise’ de popularidade
Em menos de um ano, boa parte da euforia política norte-americana deu lugar à frustração. Há dez meses, em 20 de janeiro, Barack Hussein Obama assumia a Presidência dos Estados Unidos espalhando um clima de festa e esperança entre a população. Ele substituía George W. Bush, que fez um dos governos mais mal avaliados da história do país, e chegava ao poder com índices de aprovação impressionantes. Ao se aproximar de um ano do seu primeiro mandato, Obama continua popular, mas já não tem mais o mesmo apelo, e pouco do seu discurso por “mudança” se concretizou.A aprovação de Obama mudou de perfil ao longo dos dez meses do seu governo. Depois de assumir com apoio de quase 70% da população do país, o presidente estacionou próximo dos 50%, com algumas pesquisas mostrando índices ainda piores. A queda na aprovação foi acompanhada do aumento da avaliação negativa do seu governo. Antes com números insignificantes, a rejeição já se aproxima dos 50%. Alguns institutos chegam a apontar que ele tem mais rejeição de que apoio.
Pouco mais de um ano após sua vitória nas eleições de novembro de 2008, Obama tem em suas mãos duas guerras abertas, crise econômica e uma série de conflitos políticos para tentar implementar reformas propostas por seu governo. A popularidade inicial era impulsionada pela promessa de fechar no prazo de um ano a prisão de Guantánamo, propiciar um acordo de paz para o Oriente Médio, assim como seus anúncios de que um plano de estímulo conseguiria tirar o país da recessão. Mas essas promessas parecem ter sido mais difíceis de cumprir do que o líder pensava.
Veja abaixo a evolução da aprovação de Obama nos Estados Unidos
SucessoSe não consegue manter sua aprovação interna em níveis tão altos quanto no começo do governo, Obama se mantêm forte internacionalmente. O principal reflexo disso pode ser o fato de que o presidente norte-americano ganhou o Prêmio Nobel da Paz de 2009, antes mesmo de alcançar bons resultados na área. A premiação demonstrou que a opinião pública global ainda confia que Obama fará um governo mais pacífico de que o de seu antecessor.
O presidente acrescentou um outro título a sua lista já longa de troféus: foi nomeado a pessoa mais poderosa do mundo em um ranking inaugural feito pela revista “Forbes”. A popularidade de Obama favoreceu a imagem do país diante do mundo, segundo várias pesquisas. A “Forbes” disse que, na compilação do ranking inaugural, reduziu a lista preliminar para 67 pessoas, "número baseado no conceito de que é possível reduzir os 6,7 bilhões de pessoas do mundo a uma em cada 100 milhões que realmente tem importância.O objetivo da compilação desta lista é expor o poder e não glorificá-lo, e, com o tempo, revelar que a influência é tão facilmente perdida quanto é dificilmente conquistada", disse a revista.
Daniel Buarque
Cidade aberta
Reportagem publicada no G1 em 19 de novembro de 2009. A pauta surgiu de uma matéria publicada no New York Times sobre o livro.
Jerusalém deve ser cidade aberta, defende livro de judeus e muçulmanos
O presidente Shimon Peres, de Israel, visitou Brasília na semana passada, e o presidente Mahmoud Abbas, da Autoridade Nacional Palestina, chega nesta quinta-feira (19) ao Brasil.
Enquanto o Brasil tenta se posicionar como mediador à distância do conflito no Oriente Médio, um grupo de pesquisadores judeus, muçulmanos, cristãos ou sem nenhuma ligação religiosa e ideológica se juntou para publicar um livro inédito em seu pluralismo.
A ideia por trás da obra lançada na última segunda-feira (16) nos Estados Unidos é mostrar que Jerusalém, cidade no âmago da disputa no Oriente Médio, deve se tornar uma cidade aberta, internacional, de todos os povos e crenças.
“Jerusalém, especialmente a Cidade Antiga, que é facilmente identificável, tem que se tornar uma cidade internacional e aberta. Muitas pessoas de todas as religiões têm defendido que uma agência internacional passe a administrar a Cidade Antiga, pois ela é importante para todo o mundo e todas as religiões, e não apenas para israelenses e palestinos, judeus e muçulmanos”, disse, em entrevista ao G1, Oleg Grabar, professor de história da região na Universidade Princeton e um dos organizadores de “Where Heaven and Earth Meet: Jerusalem’s Sacred Esplanade” (Onde o Céu e a Terra se encontram: A esplanada sagrada de Jerusalém). Segundo ele, os cristão acabam não se envolvendo tanto na briga, pois o cristianismo não exige a peregrinação à cidade, por mais que a considere um lugar sagrado.
O livro está sendo apresentado internacionalmente como a primeira ocasião em que um grupo de autores israelenses, palestinos e de outras religiões se reuniu em uma única obra. Até agora, tudo o que era publicado tinha o ponto de vista ou de judeus ou de muçulmanos.
É uma obra que trata visualmente da história, da arqueologia e da antropologia da região.
“O objetivo do livro é ir além do debate político, mostrando que a cidade é um monumento da história, um monumento à religião, mas também um local belíssimo fisicamente. Questionamos o ponto de vista religioso, pois discordamos que os desejos e necessidades religiosos possam estar à frente do turismo global. Há 40 anos, quando comecei a estudar sobre Jerusalém, todos estavam interessados em visitar a cidade, e ela se preocupava em receber todas as pessoas do mundo. Isso mudou nas últimas três décadas, e a religião se tornou mais importante”, disse Grabar, por telefone.
Segundo ele, atualmente fica difícil separar política e religião, uma vez que a luta política tomou um formato religioso, que não tinha antes. Nenhuma entidade internacional, explicou, tem autoridade para resolver a disputa pelo local.
Disputa por territórios
A maior parte do livro traz consenso entre pesquisadores de diferentes religiões. Isso segue na história contada ali até o século XX. “Quando chegamos ao século XX, decidimos ter duas seções separadas, com as versões de israelenses e palestinos para o que aconteceu desde 1967, pois não havia como fazê-los concordar. Os dois contam os mesmos eventos, mas com um sabor completamente diferente, versões que não chegam a um acordo”, disse Grabar.
Na última semana, palestinos e israelenses elevaram o tom de suas declarações, deixando o clima no Oriente Médio tenso. Enquanto os muçulmanos da Palestina começam a buscar que a ONU reconheça os territórios como Estado, Israel ameaça anexar parte da Cisjordânia ocupada. O trabalho de mais de cinco anos de preparação do livro sobre Jerusalém passou por vários momentos de escalada na disputa diplomática na região, e o organizador diz que o momento atual é de desânimo.
“Quando começamos a organizar o livro, tínhamos esperança de que houvesse algum acordo e esperávamos que o livro fosse parte deste acordo, mostrando que as pessoas podem viver juntas mesmo sendo diferentes. Agora é muito mais difícil, pois o clima é mais de confronto e chegamos não saber se o livro poderia ser publicado. Espero que o livro ajude as pessoas a pensarem melhor sobre Jerusalém.”
Para ele, o problema é que os líderes dos dois lados envolvidos na questão se preocupam demais com os erros do passado, e não pensam adiante. “Acho que a solução viria com o pensamento no futuro, em 2020, tentando pensar como seria o mundo e como gostaríamos que a região estivesse, e aí passar a trabalhar neste sentido, em vez de continuar brigando pelo passado.”
Grabar disse ver com simpatia o esforço diplomático brasileiro em se envolver nos processos de pacificação entre Israel e Palestina. Para ele, o Brasil pode ajudar como intermediário por não estar diretamente envolvido na disputa, mostrando que a questão é relevante para outros países. “Jerusalém deveria ser uma cidade aberta para todas as religiões. Como chegar a isso é difícil, e requer envolvimento de todo mundo, inclusive do Brasil.”
Jerusalém deve ser cidade aberta, defende livro de judeus e muçulmanos
O presidente Shimon Peres, de Israel, visitou Brasília na semana passada, e o presidente Mahmoud Abbas, da Autoridade Nacional Palestina, chega nesta quinta-feira (19) ao Brasil.Enquanto o Brasil tenta se posicionar como mediador à distância do conflito no Oriente Médio, um grupo de pesquisadores judeus, muçulmanos, cristãos ou sem nenhuma ligação religiosa e ideológica se juntou para publicar um livro inédito em seu pluralismo.
A ideia por trás da obra lançada na última segunda-feira (16) nos Estados Unidos é mostrar que Jerusalém, cidade no âmago da disputa no Oriente Médio, deve se tornar uma cidade aberta, internacional, de todos os povos e crenças.
“Jerusalém, especialmente a Cidade Antiga, que é facilmente identificável, tem que se tornar uma cidade internacional e aberta. Muitas pessoas de todas as religiões têm defendido que uma agência internacional passe a administrar a Cidade Antiga, pois ela é importante para todo o mundo e todas as religiões, e não apenas para israelenses e palestinos, judeus e muçulmanos”, disse, em entrevista ao G1, Oleg Grabar, professor de história da região na Universidade Princeton e um dos organizadores de “Where Heaven and Earth Meet: Jerusalem’s Sacred Esplanade” (Onde o Céu e a Terra se encontram: A esplanada sagrada de Jerusalém). Segundo ele, os cristão acabam não se envolvendo tanto na briga, pois o cristianismo não exige a peregrinação à cidade, por mais que a considere um lugar sagrado.
O livro está sendo apresentado internacionalmente como a primeira ocasião em que um grupo de autores israelenses, palestinos e de outras religiões se reuniu em uma única obra. Até agora, tudo o que era publicado tinha o ponto de vista ou de judeus ou de muçulmanos.
É uma obra que trata visualmente da história, da arqueologia e da antropologia da região.“O objetivo do livro é ir além do debate político, mostrando que a cidade é um monumento da história, um monumento à religião, mas também um local belíssimo fisicamente. Questionamos o ponto de vista religioso, pois discordamos que os desejos e necessidades religiosos possam estar à frente do turismo global. Há 40 anos, quando comecei a estudar sobre Jerusalém, todos estavam interessados em visitar a cidade, e ela se preocupava em receber todas as pessoas do mundo. Isso mudou nas últimas três décadas, e a religião se tornou mais importante”, disse Grabar, por telefone.
Segundo ele, atualmente fica difícil separar política e religião, uma vez que a luta política tomou um formato religioso, que não tinha antes. Nenhuma entidade internacional, explicou, tem autoridade para resolver a disputa pelo local.
Disputa por territórios
A maior parte do livro traz consenso entre pesquisadores de diferentes religiões. Isso segue na história contada ali até o século XX. “Quando chegamos ao século XX, decidimos ter duas seções separadas, com as versões de israelenses e palestinos para o que aconteceu desde 1967, pois não havia como fazê-los concordar. Os dois contam os mesmos eventos, mas com um sabor completamente diferente, versões que não chegam a um acordo”, disse Grabar.
Na última semana, palestinos e israelenses elevaram o tom de suas declarações, deixando o clima no Oriente Médio tenso. Enquanto os muçulmanos da Palestina começam a buscar que a ONU reconheça os territórios como Estado, Israel ameaça anexar parte da Cisjordânia ocupada. O trabalho de mais de cinco anos de preparação do livro sobre Jerusalém passou por vários momentos de escalada na disputa diplomática na região, e o organizador diz que o momento atual é de desânimo.
“Quando começamos a organizar o livro, tínhamos esperança de que houvesse algum acordo e esperávamos que o livro fosse parte deste acordo, mostrando que as pessoas podem viver juntas mesmo sendo diferentes. Agora é muito mais difícil, pois o clima é mais de confronto e chegamos não saber se o livro poderia ser publicado. Espero que o livro ajude as pessoas a pensarem melhor sobre Jerusalém.”
Para ele, o problema é que os líderes dos dois lados envolvidos na questão se preocupam demais com os erros do passado, e não pensam adiante. “Acho que a solução viria com o pensamento no futuro, em 2020, tentando pensar como seria o mundo e como gostaríamos que a região estivesse, e aí passar a trabalhar neste sentido, em vez de continuar brigando pelo passado.”
Grabar disse ver com simpatia o esforço diplomático brasileiro em se envolver nos processos de pacificação entre Israel e Palestina. Para ele, o Brasil pode ajudar como intermediário por não estar diretamente envolvido na disputa, mostrando que a questão é relevante para outros países. “Jerusalém deveria ser uma cidade aberta para todas as religiões. Como chegar a isso é difícil, e requer envolvimento de todo mundo, inclusive do Brasil.”
Daniel Buarque
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Futebol Freak
Reportagem publicada no G1 em 18 de novembro de 2009. A entrevista havia sido realizada antes, por conta do próprio livro, que já servia suficientemente como pauta. Não havia um plano concreto para a publicação, e talvez ficasse para a última rodada do campeonato brasileiro, mas a publicação do ranking de corrupção serviu como gancho para antecipar.
Na entrevista, uma resposta que ficou de fora do texto dava conta do lugar dos times pequenos: "Pequenos clubes podem crescer. O Lyon é um exemplo disso. Uma boa organização, com gasto inteligente, controle coletivo do futebol, e um pagamento de bons salários pode fazer um pequeno clube ter bons resultados, e com os resultados vem a torcida. Os torcedores de futebol não são tão fieis quanto se pensa. Clubes pequenos que começam a crescer conseguem atrair torcedores. Claro que há pessoas que torcem a vida inteira pelo menos time, mas percebemos tendências claras de que clubes bem administrados que começam a ganhar partidas tendem a atrair novos torcedores e a continuar crescendo desta forma."
E mais, sobre futebol no Brasil: "É difícil entender o que está acontecendo com o são paulo. O futebol não tem um segredo, pois é publico e se alguém acerta, as pessoas logo podem saber qual é esta técnica, mas se houvesse um segredo, todos estariam copiando. O que posso dizer é que no futebol, os resultados são explicaddos pelos salários dos jogadores, e quem paga bem e em dia, se organiza economicamente, consegue os melhores resultados. Se eu me tornasse o técnico do São Paulo, ou do Machester United, independente de não entender tão bem do jogo, se contasse com os jogadores e a estrutura que esses clubes têm, com certeza seria também um vencedor. Os times ingleses estão começando a usar isso, a estudar o futebol como os norte-americanos estudam o beisebol. O trabalho o Lyon foi baseado num projeto de futebol de longo prazo. Eles transformaram o futebol em um projeto coletivo, e não havia uma única pessoa para decidir sobre as transferências, contratações. Não é pela democracia, mas a decisão coletiva costuma funcionar melhor de que nos clubes em que uma única pessoa toma as decisões."
Corrupção do país se reflete no futebol, diz autor de ‘freakonomics’ do esporte
As classificações brasileiras nos rankings mundiais de futebol e de corrupção são muito diferentes. Líder na lista da Fifa e vitorioso no esporte mais popular do país, o Brasil ocupa o 75º lugar sobre percepção de corrupção, segundo a organização não-governamental Transparência Internacional. Apesar do aparente contraste, no âmbito interno, a corrupção da sociedade invade o futebol, trazendo desconfiança e escândalos que podem ser percebidos na quantidade de reclamações a respeito das arbitragens e nas supostas "malas brancas" neste fim de Campeonato Brasileiro.
Esta análise faz parte do livro “Soccernomics”, que acaba de ser lançado em edição em inglês e que incorpora a análise de dados, a estatística, a matemática, a economia e até a sociologia para entender o futebol e como ele reflete as sociedades. Escrita por Simon Kuper e Stefan Szymanski, a obra está sendo considerada o equivalente do futebol ao “Freakonomics”, em referência ao Best-seller de Steven Levitt e Stephen J. Dubner, que expõem a economia excêntrica na vida cotidiana das pessoas.
Em entrevista ao G1, por telefone desde Paris, Kuper explicou parte das análises contidas no livro, dizendo que a matemática indica que um cálculo entre população, riqueza e tradição fazem potências internacionais no esporte, que pode vir a ser dominado pelos EUA no futuro. Ele fez comentários a respeito da corrupção no futebol e no Brasil.
“Quanto mais corrupta a sociedade, mais corrupto o futebol. O esporte reflete a realidade do país”, disse. Segundo Kuper, a corrupção no futebol está presente especialmente em países mais pobres e em ligas menores. “Um jogo entre Manchester United e Real Madrid, por exemplo, dificilmente pode ser comprado, pois os interesses e os valores envolvidos são muito grandes, assim como o número de pessoas, então é mais raro ver corrupção ali. Mas em campeonatos menores, que envolvem menos dinheiro, isso pode acontecer.
Além disso, explicou, a própria economia interna também é um fator importante, pois quando um país tem juízes mal pagos, se torna mais fácil e barato corrompê-los. “Pagar bem ao árbitro ou trazer juízes de fora do país podem ser alternativas para evitar problemas de corrupção nos campeonatos.” O mesmo vale para os jogadores, com o oferecimento de mala branca e dinheiro para tentar influenciar os resultados.
Futebol calculista
No livro, Kuper alega que a matemática comprova que quanto mais rico o país, melhor a média de vitórias da seleção dele, e que um bom técnico e muito dinheiro gasto em contratações costuma não fazer tanta diferença para um time. “Isso não funciona em todas as partidas, mas como regra há uma estatística que comprova. É uma regra. Descobrimos que o dinheiro gasto com a transferência de jogadores é menos relevante de que os salários pagos pelos clubes aos atletas. Quanto melhores os salários dos jogadores, melhor costuma ser a performance do clube.”
A maior parte dos dados usados no trabalho são relativos ao futebol europeu, em que o livro se debruça. A ideia deles foi levar para o esporte a abordagem que os Estado Unidos já têm em relação ao beisebol, mas Kuper admite que o trabalho nem sempre é bem aceito pelos torcedores. “Algumas pessoas ficam com raiva porque nos acham arrogantes. Em países como a Inglaterra, e imagino que o Brasil também, as pessoas pensam que sabem tudo sobre o futebol, e aí discordam do livro com base no que conhecem e dizem que estamos errados.”
O autor admite que as estatísticas podem ajudar numa previsão de longo prazo, mas que em uma partida qualquer coisa pode acontecer. “Os eventos do dia afetam todo o jogo, e tudo é possível. Mas em cem jogos, temos estatísticas que nos permitem prever o que vai acontecer. Há uma série de leis de estatísticas e probabilidades que podem ser aplicadas ao futebol.”
A imprevisibilidade de partidas isoladas, diz, se prolonga a torneios rápidos como Copas do Mundo, formato de poucos jogos que permite, matematicamente, que qualquer time ruim tenha chances de se tornar campeão. Um torneio de todos contra todos é muito mais previsível, e normalmente o melhor time, o mais bem admministrado, ganha.
Kuper diz ser impossível prever quem vai ganhar a Copa de 2010, mas afirma que o Brasil seria hexa, se fosse um campeonato longo e de pontos corridos. “Diria que o Brasil tem boas chances, mas que não vou me surpreender se os Estados Unidos já conseguirem avançar até mesmo a uma final. Se fossem mais jogos, com todos os times se enfrentando, as chances do Brasil seriam muito maiores. As estatísticas mostram que o Brasil tem uma vantagem muito maior quando se incluem muitos jogos, seja em uma única sede ou em jogos de ida e volta.”
Futebol brasileiro
Os resultados do Brasil, que venceu Omã em amistoso na terça-feira (17), parecem contradizer a matemática do “Soccernomics”. Sem ser tão rico quanto os países europeus, a estatística poderia negar a teoria de Kuper, que admite a exceção para comprovar a regra. “O Brasil conquistou mais que o esperado. É um país grande, que joga futebol há muito tempo, mas que não é rico e não tem uma renda per capita alta. O que o país conquistou no futebol é fantasticamente maior. É uma surpresa dentro das estatísticas.”
Analisando a realidade brasileira, Kuper diz que a única coisa que pode explicar isso é a popularidade do esporte, a seriedade com que todos levam o futebol mesmo em jogos recreativos. “Em um playground na Inglaterra e na Alemanha o futebol é muito ruim. No Brasil, as pessoas se esforçam e são boas em qualquer âmbito, é uma questão cultural que forma bons jogadores.”
Mas se o Brasil impressiona por ter os melhores jogadores do mundo há décadas, segundo ele, desde os anos 1970, entretanto, a Europa desenvolveu uma tática melhor. “Há anos o Brasil tenta desenvolver o melhor estilo, mas tem dificuldade em desenvolver o estilo europeu de futebol, que é mais coletivo e mais rápido. O Brasil ainda tem uma visão romântica do futebol, menos tática.”
Segundo o pesquisador, o Brasil vai continuar sendo competitivo no futuro do futebol internacional, mas novos países no esporte como EUA, Austrália, Turquia, nações que estão se desenvolvendo, estão aprendendo a tática européia e podem desenvolver isso junto com a riqueza da economia e o tamanho da população. “Os Estados Unidos estão crescendo dentro do esporte e vão se tornar uma ameaça para seleções como a brasileira.”
Daniel Buarque
Na entrevista, uma resposta que ficou de fora do texto dava conta do lugar dos times pequenos: "Pequenos clubes podem crescer. O Lyon é um exemplo disso. Uma boa organização, com gasto inteligente, controle coletivo do futebol, e um pagamento de bons salários pode fazer um pequeno clube ter bons resultados, e com os resultados vem a torcida. Os torcedores de futebol não são tão fieis quanto se pensa. Clubes pequenos que começam a crescer conseguem atrair torcedores. Claro que há pessoas que torcem a vida inteira pelo menos time, mas percebemos tendências claras de que clubes bem administrados que começam a ganhar partidas tendem a atrair novos torcedores e a continuar crescendo desta forma."
E mais, sobre futebol no Brasil: "É difícil entender o que está acontecendo com o são paulo. O futebol não tem um segredo, pois é publico e se alguém acerta, as pessoas logo podem saber qual é esta técnica, mas se houvesse um segredo, todos estariam copiando. O que posso dizer é que no futebol, os resultados são explicaddos pelos salários dos jogadores, e quem paga bem e em dia, se organiza economicamente, consegue os melhores resultados. Se eu me tornasse o técnico do São Paulo, ou do Machester United, independente de não entender tão bem do jogo, se contasse com os jogadores e a estrutura que esses clubes têm, com certeza seria também um vencedor. Os times ingleses estão começando a usar isso, a estudar o futebol como os norte-americanos estudam o beisebol. O trabalho o Lyon foi baseado num projeto de futebol de longo prazo. Eles transformaram o futebol em um projeto coletivo, e não havia uma única pessoa para decidir sobre as transferências, contratações. Não é pela democracia, mas a decisão coletiva costuma funcionar melhor de que nos clubes em que uma única pessoa toma as decisões."
Corrupção do país se reflete no futebol, diz autor de ‘freakonomics’ do esporte
As classificações brasileiras nos rankings mundiais de futebol e de corrupção são muito diferentes. Líder na lista da Fifa e vitorioso no esporte mais popular do país, o Brasil ocupa o 75º lugar sobre percepção de corrupção, segundo a organização não-governamental Transparência Internacional. Apesar do aparente contraste, no âmbito interno, a corrupção da sociedade invade o futebol, trazendo desconfiança e escândalos que podem ser percebidos na quantidade de reclamações a respeito das arbitragens e nas supostas "malas brancas" neste fim de Campeonato Brasileiro.Esta análise faz parte do livro “Soccernomics”, que acaba de ser lançado em edição em inglês e que incorpora a análise de dados, a estatística, a matemática, a economia e até a sociologia para entender o futebol e como ele reflete as sociedades. Escrita por Simon Kuper e Stefan Szymanski, a obra está sendo considerada o equivalente do futebol ao “Freakonomics”, em referência ao Best-seller de Steven Levitt e Stephen J. Dubner, que expõem a economia excêntrica na vida cotidiana das pessoas.
Em entrevista ao G1, por telefone desde Paris, Kuper explicou parte das análises contidas no livro, dizendo que a matemática indica que um cálculo entre população, riqueza e tradição fazem potências internacionais no esporte, que pode vir a ser dominado pelos EUA no futuro. Ele fez comentários a respeito da corrupção no futebol e no Brasil.
“Quanto mais corrupta a sociedade, mais corrupto o futebol. O esporte reflete a realidade do país”, disse. Segundo Kuper, a corrupção no futebol está presente especialmente em países mais pobres e em ligas menores. “Um jogo entre Manchester United e Real Madrid, por exemplo, dificilmente pode ser comprado, pois os interesses e os valores envolvidos são muito grandes, assim como o número de pessoas, então é mais raro ver corrupção ali. Mas em campeonatos menores, que envolvem menos dinheiro, isso pode acontecer.
Além disso, explicou, a própria economia interna também é um fator importante, pois quando um país tem juízes mal pagos, se torna mais fácil e barato corrompê-los. “Pagar bem ao árbitro ou trazer juízes de fora do país podem ser alternativas para evitar problemas de corrupção nos campeonatos.” O mesmo vale para os jogadores, com o oferecimento de mala branca e dinheiro para tentar influenciar os resultados.
Futebol calculista
No livro, Kuper alega que a matemática comprova que quanto mais rico o país, melhor a média de vitórias da seleção dele, e que um bom técnico e muito dinheiro gasto em contratações costuma não fazer tanta diferença para um time. “Isso não funciona em todas as partidas, mas como regra há uma estatística que comprova. É uma regra. Descobrimos que o dinheiro gasto com a transferência de jogadores é menos relevante de que os salários pagos pelos clubes aos atletas. Quanto melhores os salários dos jogadores, melhor costuma ser a performance do clube.”
A maior parte dos dados usados no trabalho são relativos ao futebol europeu, em que o livro se debruça. A ideia deles foi levar para o esporte a abordagem que os Estado Unidos já têm em relação ao beisebol, mas Kuper admite que o trabalho nem sempre é bem aceito pelos torcedores. “Algumas pessoas ficam com raiva porque nos acham arrogantes. Em países como a Inglaterra, e imagino que o Brasil também, as pessoas pensam que sabem tudo sobre o futebol, e aí discordam do livro com base no que conhecem e dizem que estamos errados.”
O autor admite que as estatísticas podem ajudar numa previsão de longo prazo, mas que em uma partida qualquer coisa pode acontecer. “Os eventos do dia afetam todo o jogo, e tudo é possível. Mas em cem jogos, temos estatísticas que nos permitem prever o que vai acontecer. Há uma série de leis de estatísticas e probabilidades que podem ser aplicadas ao futebol.”
A imprevisibilidade de partidas isoladas, diz, se prolonga a torneios rápidos como Copas do Mundo, formato de poucos jogos que permite, matematicamente, que qualquer time ruim tenha chances de se tornar campeão. Um torneio de todos contra todos é muito mais previsível, e normalmente o melhor time, o mais bem admministrado, ganha.
Kuper diz ser impossível prever quem vai ganhar a Copa de 2010, mas afirma que o Brasil seria hexa, se fosse um campeonato longo e de pontos corridos. “Diria que o Brasil tem boas chances, mas que não vou me surpreender se os Estados Unidos já conseguirem avançar até mesmo a uma final. Se fossem mais jogos, com todos os times se enfrentando, as chances do Brasil seriam muito maiores. As estatísticas mostram que o Brasil tem uma vantagem muito maior quando se incluem muitos jogos, seja em uma única sede ou em jogos de ida e volta.”
Futebol brasileiro
Os resultados do Brasil, que venceu Omã em amistoso na terça-feira (17), parecem contradizer a matemática do “Soccernomics”. Sem ser tão rico quanto os países europeus, a estatística poderia negar a teoria de Kuper, que admite a exceção para comprovar a regra. “O Brasil conquistou mais que o esperado. É um país grande, que joga futebol há muito tempo, mas que não é rico e não tem uma renda per capita alta. O que o país conquistou no futebol é fantasticamente maior. É uma surpresa dentro das estatísticas.”
Analisando a realidade brasileira, Kuper diz que a única coisa que pode explicar isso é a popularidade do esporte, a seriedade com que todos levam o futebol mesmo em jogos recreativos. “Em um playground na Inglaterra e na Alemanha o futebol é muito ruim. No Brasil, as pessoas se esforçam e são boas em qualquer âmbito, é uma questão cultural que forma bons jogadores.”
Mas se o Brasil impressiona por ter os melhores jogadores do mundo há décadas, segundo ele, desde os anos 1970, entretanto, a Europa desenvolveu uma tática melhor. “Há anos o Brasil tenta desenvolver o melhor estilo, mas tem dificuldade em desenvolver o estilo europeu de futebol, que é mais coletivo e mais rápido. O Brasil ainda tem uma visão romântica do futebol, menos tática.”
Segundo o pesquisador, o Brasil vai continuar sendo competitivo no futuro do futebol internacional, mas novos países no esporte como EUA, Austrália, Turquia, nações que estão se desenvolvendo, estão aprendendo a tática européia e podem desenvolver isso junto com a riqueza da economia e o tamanho da população. “Os Estados Unidos estão crescendo dentro do esporte e vão se tornar uma ameaça para seleções como a brasileira.”
Daniel Buarque
domingo, 15 de novembro de 2009
Será o Fim?
Texto publicado no G1 em 14 de novembro de 2009. Não é propriamente uma reportagem, mas um "cozido", uma matéria escrita com base em uma outra da imprensa internacional. As informações foram tiradas de uma lista publicada pela prestigiosa "Foreign Policy", que se deu o trabalho de apurar de fato as causas que podem levar ao fim do mundo.
Em homenagem a filme, revista lista cenários possíveis para fim do mundo
Aproveitando o lançamento mundial do filme "2012", que trata de uma catástrofe global, a respeitada revista "Foreig Policy" listou cinco cenários de fato possíveis para o fim do mundo, explicando a forma como desastres podem ocorrer e a real probabilidade de cada um deles acontecer.
veja a lista abaixo
1 - Asteroide
Apontada como a causa da extinção dos dinossauros há 65 milhões de anos, a queda de um grande asteroide (com 15 quilômetros de diâmetro) poderia ser fatal para a humanidade. Se tiver pelo menos mil metros de diâmetro um asteroide já poderia causar danos ambientais em todo o mundo.Um meteoro de poucas dezenas de diâmetro caiu na Sibéria em 1908, causando destruição mil vezes pior que a bomba atômica de Hiroshima.
Segundo a Nasa, um objeto deste tamanho raramente se choca contra a Terra, e apenas um asteroide em todo o espaço monitorado pela agência espacial vai chegar perto do planeta, no ano de 2880. A revista alerta que há muito espaço não monitorado, entretanto.
2 - Desastre climático
O cenário mais catastrófico do Painel Internacional de Mudança Climática aponta um aumento na temperatura do planeta de 4 ou 5 graus Celsius até o fim deste século. Isto seria suficiente para aumentar o nível dos oceanos em meio metro, inundando grandes cidades. O aquecimento global poderia ainda transformar um terço da Terra em deserto e extinguir entre 40% e 70% das espécies do planeta.
Por mais que muitos dos efeitos da mudança climática sejam irreversíveis, estudos do MIT e de entidades de oceanografia dos EUA mostram que o pior dos cenários pode ser evitado pela redução de emissão de gases na atmosfera.
3 - Guerra Nuclear
O Departamento de Defesa dos EUA chegou a estimar a morte de 265 milhões de pessoas no caso de um confronto nuclear entre o país e a União Soviética durante a Guerra Fria, em 1977. Não chegava a ser o fim do mundo desta forma, mas causaria um "inverno nuclear" que destruiria a produção agrícola, e muitas pessoas morreriam de fome. O arsenal nuclear de todo o mundo atualmente, 23 mil armas, seria suficiente para produzir este cenário.
Por causa do desenvolvimento de armamentos na Coreia do Norte, da pesquisa nuclear no Irã e da tensão entre Índia e Paquistão, o relógio do apocalipse marca 5 minutos para a meia-noite (que representa o conflito nuclear). O fim da Guerra Fria, entretanto, diminuiu a possibilidade de uma guerra nuclear em larga escala como a descrita.
4 - Peste
Civilizações inteiras já temeram diante de doenças incontroláveis no passado. A Peste Negra dizimou metade da população da Europa na Idade Média, e a gripe matou 50 milhões de pessoas em 1918. Com a globalização, as doenças podem se espalhar com maior facilidade e rapidez, como ocorreu recentemente com o vírus H1N1. Uma doença mais fatal, como o Ebola, teria potencial devastador, se se espalhasse.
Por mais que o risco na teoria exista, o tratamento das doenças avançou muito desde o início do século XX, e consegue combater as doenças que já existem.
5 - O desconhecido
Teorias de catástrofes conseguem prever várias outras formas menos esperadas de o mundo chegar a seu fim. Segundo a revista, entretanto, estimativas de astrônomos dizem que o mundo um dia vai acabar, dentro de 5 a 8 bilhões de anos, quando vai ser atraída pelo sol. A probabilidade de humanidade existir por todo este tempo é relativamente pequena.
Em homenagem a filme, revista lista cenários possíveis para fim do mundo
Aproveitando o lançamento mundial do filme "2012", que trata de uma catástrofe global, a respeitada revista "Foreig Policy" listou cinco cenários de fato possíveis para o fim do mundo, explicando a forma como desastres podem ocorrer e a real probabilidade de cada um deles acontecer.veja a lista abaixo
1 - Asteroide
Apontada como a causa da extinção dos dinossauros há 65 milhões de anos, a queda de um grande asteroide (com 15 quilômetros de diâmetro) poderia ser fatal para a humanidade. Se tiver pelo menos mil metros de diâmetro um asteroide já poderia causar danos ambientais em todo o mundo.Um meteoro de poucas dezenas de diâmetro caiu na Sibéria em 1908, causando destruição mil vezes pior que a bomba atômica de Hiroshima.
Segundo a Nasa, um objeto deste tamanho raramente se choca contra a Terra, e apenas um asteroide em todo o espaço monitorado pela agência espacial vai chegar perto do planeta, no ano de 2880. A revista alerta que há muito espaço não monitorado, entretanto.
2 - Desastre climático
O cenário mais catastrófico do Painel Internacional de Mudança Climática aponta um aumento na temperatura do planeta de 4 ou 5 graus Celsius até o fim deste século. Isto seria suficiente para aumentar o nível dos oceanos em meio metro, inundando grandes cidades. O aquecimento global poderia ainda transformar um terço da Terra em deserto e extinguir entre 40% e 70% das espécies do planeta.
Por mais que muitos dos efeitos da mudança climática sejam irreversíveis, estudos do MIT e de entidades de oceanografia dos EUA mostram que o pior dos cenários pode ser evitado pela redução de emissão de gases na atmosfera.
3 - Guerra Nuclear
O Departamento de Defesa dos EUA chegou a estimar a morte de 265 milhões de pessoas no caso de um confronto nuclear entre o país e a União Soviética durante a Guerra Fria, em 1977. Não chegava a ser o fim do mundo desta forma, mas causaria um "inverno nuclear" que destruiria a produção agrícola, e muitas pessoas morreriam de fome. O arsenal nuclear de todo o mundo atualmente, 23 mil armas, seria suficiente para produzir este cenário.
Por causa do desenvolvimento de armamentos na Coreia do Norte, da pesquisa nuclear no Irã e da tensão entre Índia e Paquistão, o relógio do apocalipse marca 5 minutos para a meia-noite (que representa o conflito nuclear). O fim da Guerra Fria, entretanto, diminuiu a possibilidade de uma guerra nuclear em larga escala como a descrita.
4 - Peste
Civilizações inteiras já temeram diante de doenças incontroláveis no passado. A Peste Negra dizimou metade da população da Europa na Idade Média, e a gripe matou 50 milhões de pessoas em 1918. Com a globalização, as doenças podem se espalhar com maior facilidade e rapidez, como ocorreu recentemente com o vírus H1N1. Uma doença mais fatal, como o Ebola, teria potencial devastador, se se espalhasse.
Por mais que o risco na teoria exista, o tratamento das doenças avançou muito desde o início do século XX, e consegue combater as doenças que já existem.
5 - O desconhecido
Teorias de catástrofes conseguem prever várias outras formas menos esperadas de o mundo chegar a seu fim. Segundo a revista, entretanto, estimativas de astrônomos dizem que o mundo um dia vai acabar, dentro de 5 a 8 bilhões de anos, quando vai ser atraída pelo sol. A probabilidade de humanidade existir por todo este tempo é relativamente pequena.
Radiografia de um grupo
Infográfico publicado no G1 em 14 de novembro de 2009, parte da cobertura sobre a implementação do Tratado de Lisboa. Apresenta os países do bloco da união europeia e compara com dados do Brasil.

Nada muda
Reportagem publicada no G1 em 14 de novembro de 2009. Pauta fria em meio à discussão sobre a implementação do Tratado de Lisboa. Apesar do anticlímax de dizer que na prática não muda nada e que é uma reciclagem de um projeto antigo, é importante para poder explicar o que está acontecendo e qual o futuro do bloco europeu.
União Europeia implementa o Tratado de Lisboa para reciclar sua Constituição
Depois de dar um passo para trás por causa da rejeição popular à proposta de adoção de uma Constituição, em 2005, a União Europeia vai voltar a avançar em sua integração a partir do próximo mês, com a implementação do Tratado de Lisboa.
Por mais que este projeto não traga nenhuma mudança drástica na estrutura e organização do grupo dos 27 países do continente, ele pode ser visto como um avanço quase equivalente ao revés de quatro anos atrás, segundo analistas ouvidos pelo G1, pois o tratado repete pelo menos 90% da proposta da Constituição. E a maior mudança é simplesmente o nome.
“A constituição soava como um documento nacional, não como algo de uma organização intergovernamental. O Tratado de Lisboa traz quase todas as mesmas mudanças da constituição, mas com um nome diferente. Pode parecer uma questão trivial, mas é claramente um dos principais problemas”, explicou, em entrevista ao G1, o professor da Universidade Creighton, nos EUA, Stephen C. Sieberson, que pesquisou o tratado e é autor do livro "Dividing lines between the European Union and Its member states: The impact of the treaty of Lisbon" (Linhas divisórias entre a União Europeia e seus estados membros: O impacto do Tratado de Lisboa).
Segundo ele, a substância do tratado é 99% igual à da constituição. O problema é que a União Europeia está dividida em dois grupos: os federalistas, que preferem ter um governo mais central, um “superestado”, com modelo semelhante ao dos Estados Unidos; e os intergovernamentalistas, palavra complexa para designar o grupo que insiste que as nações continuem totalmente soberanas, mantendo a UE como uma organização intergovernamental. Este segundo grupo, capitaneado pelo Reino Unido, fez forte oposição ao termo constituição. Para Sieberson, os que buscam uma maior integração, mesmo que não necessariamente uma “federação”, saíram-se vencedores com o Tratado de Lisboa. “Ele traz as mudanças necessárias para que a EU não fique estagnada, mas possa evoluir.
Especialista em integração europeia, o professor David Phinnemore, da Universidade de Belfast, na Irlanda do Norte, discorda. Para ele, os intergovernamentalistas se saíram muito bem com o tratado, pois ele reitera a centralidade dos países membros na UE.
“Ele nos lembra que se trata de uma organização internacional com base nos Estados, que podem dar e tirar o poder da UE. Pode parecer que a Europa está se aproximando de um formato mais federalista, mas o poder, especialmente em relações internacionais, continua nas mãos dos países individualmente”, disse, em entrevista por telefone. Para Phinnemore, o Tratado de Lisboa é “apenas” 90% igual à constituição, e houve uma mudança na linguagem que vai além do nome.
Os dois concordam, entretanto, na ausência de efeitos práticos e imediatos advindos da implementação. “O tratado cria oportunidades para uma maior integração, mas não garante que essas oportunidades serão aproveitadas, pois isso vai depender das negociações que vão surgir a partir dele. A aproximação recente entre os países da UE foi maior e mais rápida do que se esperava, mas não é possível saber como vão evoluir a partir de agora”, disse Pinnemore.
Exemplo de integração
Os pesquisadores explicaram que, no curto prazo, nada vai mudar nas relações da Europa com o resto do mundo, pois o tratado é apenas uma moldura para conduzir políticas. O tratado não muda nada na política, mas apenas o processo de aplicação das políticas, disseram.
Mais adiante, entretanto, a União Europeia pode ter fortes implicações para o hemisfério ocidental, incentivando o fortalecimento de outros grupos entre nações. “Mercosul e Nafta podem olhar para a Uniao Europeia como exemplo do seu futuro”, disse Sieberson. “Não é nada que vai acontecer rapidamente, mas A UE mostra como um grupo de países pode se reunir e dividir sua soberania, tornando-se mais bem sucedidos. Isso vai ajudar a Argentina, o Brasil, oChile e toda a America do Sul a ver o que é possível no futuro. Estamos aprendendo com a UE.”
O que vai interessar diretamente e de forma mais rápida a países como o Brasil é a escolha do alto representante da União Europeia, detalhou o pesquisador irlandês. “Se Javier Solana for escolhido para liderar a política externa do grupo, sua influência ibérica pode aproximar a Europa da América Latina mais de que alguém que venha de outras áreas do continente”, disse Phinnemore.
Na prática, as mudanças do Tratado de Lisboa são mais institucionais e estruturais, sem mudar completamente a UE e sua força e influência internacionais. “Não vai mudar nada na relação com o Brasil nem ter uma política externa central. O Brasil vai continuar negociando suas relações internacionais individualmente com países como França e Espanha, por exemplo”, explicou Sieberson.
Daniel Buarque
União Europeia implementa o Tratado de Lisboa para reciclar sua Constituição
Depois de dar um passo para trás por causa da rejeição popular à proposta de adoção de uma Constituição, em 2005, a União Europeia vai voltar a avançar em sua integração a partir do próximo mês, com a implementação do Tratado de Lisboa.Por mais que este projeto não traga nenhuma mudança drástica na estrutura e organização do grupo dos 27 países do continente, ele pode ser visto como um avanço quase equivalente ao revés de quatro anos atrás, segundo analistas ouvidos pelo G1, pois o tratado repete pelo menos 90% da proposta da Constituição. E a maior mudança é simplesmente o nome.
“A constituição soava como um documento nacional, não como algo de uma organização intergovernamental. O Tratado de Lisboa traz quase todas as mesmas mudanças da constituição, mas com um nome diferente. Pode parecer uma questão trivial, mas é claramente um dos principais problemas”, explicou, em entrevista ao G1, o professor da Universidade Creighton, nos EUA, Stephen C. Sieberson, que pesquisou o tratado e é autor do livro "Dividing lines between the European Union and Its member states: The impact of the treaty of Lisbon" (Linhas divisórias entre a União Europeia e seus estados membros: O impacto do Tratado de Lisboa).
Segundo ele, a substância do tratado é 99% igual à da constituição. O problema é que a União Europeia está dividida em dois grupos: os federalistas, que preferem ter um governo mais central, um “superestado”, com modelo semelhante ao dos Estados Unidos; e os intergovernamentalistas, palavra complexa para designar o grupo que insiste que as nações continuem totalmente soberanas, mantendo a UE como uma organização intergovernamental. Este segundo grupo, capitaneado pelo Reino Unido, fez forte oposição ao termo constituição. Para Sieberson, os que buscam uma maior integração, mesmo que não necessariamente uma “federação”, saíram-se vencedores com o Tratado de Lisboa. “Ele traz as mudanças necessárias para que a EU não fique estagnada, mas possa evoluir.
Especialista em integração europeia, o professor David Phinnemore, da Universidade de Belfast, na Irlanda do Norte, discorda. Para ele, os intergovernamentalistas se saíram muito bem com o tratado, pois ele reitera a centralidade dos países membros na UE.
“Ele nos lembra que se trata de uma organização internacional com base nos Estados, que podem dar e tirar o poder da UE. Pode parecer que a Europa está se aproximando de um formato mais federalista, mas o poder, especialmente em relações internacionais, continua nas mãos dos países individualmente”, disse, em entrevista por telefone. Para Phinnemore, o Tratado de Lisboa é “apenas” 90% igual à constituição, e houve uma mudança na linguagem que vai além do nome.
Os dois concordam, entretanto, na ausência de efeitos práticos e imediatos advindos da implementação. “O tratado cria oportunidades para uma maior integração, mas não garante que essas oportunidades serão aproveitadas, pois isso vai depender das negociações que vão surgir a partir dele. A aproximação recente entre os países da UE foi maior e mais rápida do que se esperava, mas não é possível saber como vão evoluir a partir de agora”, disse Pinnemore.
Exemplo de integração
Os pesquisadores explicaram que, no curto prazo, nada vai mudar nas relações da Europa com o resto do mundo, pois o tratado é apenas uma moldura para conduzir políticas. O tratado não muda nada na política, mas apenas o processo de aplicação das políticas, disseram.
Mais adiante, entretanto, a União Europeia pode ter fortes implicações para o hemisfério ocidental, incentivando o fortalecimento de outros grupos entre nações. “Mercosul e Nafta podem olhar para a Uniao Europeia como exemplo do seu futuro”, disse Sieberson. “Não é nada que vai acontecer rapidamente, mas A UE mostra como um grupo de países pode se reunir e dividir sua soberania, tornando-se mais bem sucedidos. Isso vai ajudar a Argentina, o Brasil, oChile e toda a America do Sul a ver o que é possível no futuro. Estamos aprendendo com a UE.”
O que vai interessar diretamente e de forma mais rápida a países como o Brasil é a escolha do alto representante da União Europeia, detalhou o pesquisador irlandês. “Se Javier Solana for escolhido para liderar a política externa do grupo, sua influência ibérica pode aproximar a Europa da América Latina mais de que alguém que venha de outras áreas do continente”, disse Phinnemore.
Na prática, as mudanças do Tratado de Lisboa são mais institucionais e estruturais, sem mudar completamente a UE e sua força e influência internacionais. “Não vai mudar nada na relação com o Brasil nem ter uma política externa central. O Brasil vai continuar negociando suas relações internacionais individualmente com países como França e Espanha, por exemplo”, explicou Sieberson.
Daniel Buarque
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